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Os sem-vergonha: sobre a autoridade moral dos EUA

08.03.2014 | Fonte de informações:

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Que autoridade moral Obama ou Kerry têm para julgar a democracia de nossos países quando, nos EUA, os presidentes chegam ao cargo com o voto de 20%.


Hernán Patiño Mayer, Página/12


Não se deve ter vergonha alguma de pedir a libertação dos "presos políticos" venezuelanos, enquanto Obama, apesar das promessas eleitorais, mantém a prisão de Guantánamo com presos que ninguém sabe quem são, nem porque estão privados de sua liberdade. Nem de onde vêm, nem para onde vão.


Maduro pode não ser o melhor presidente que a Venezuela e a região merecem, mas seu povo o elegeu. E para aqueles que dizem que a democracia não se esgota com o voto, digo que têm razão, mas os presidentes, na democracia, só são alterados com os votos ou com procedimentos previstos na Constituição. No caso da Venezuela, ademais, cumprida a metade do período, pode-se convocar um plebiscito revogatório e ganhá-lo (não faltarão desorientados que perguntem "Ah, também precisa ganhar?"), podendo, então, forçar a renúncia presidencial por falta de autenticidade do mandato popular.


Qualquer outra coisa é "golpismo" puro, duro ou brando, mas, ao fim, golpismo. Além do mais, que autoridade moral Obama ou Kerry têm para julgar a qualidade democrática de nossos países quando, nos EUA, os presidentes chegam ao cargo com o voto de menos de 20% dos cidadãos em condições de votar? E o que dizer dos direitos humanos quando, em seu país, rege a pena de morte e não aderiu a nenhum dos instrumentos do sistema interamericano que os protege e os promove. Chega de hipocrisia! Aqui, o que se quer não é nem mais, nem menos do que deter a evolução do processo democrático na América do Sul porque, de tão distraídos que os gringos estavam, os governos deixaram de ser seus empregados ou testas de ferro para se tornarem representantes de seus próprios povos.


Melhor ou pior, com mais ou com menos corrupção, mais ou menos eficientes, com maior ou menor vocação transformadora, foram todos votados por seus povos. A democracia trata também de que estejamos de acordo em relação a isso. Já até posso escutar a dona Rosa me lembrando de que Hitler também foi eleito pelo povo alemão e, como costuma acontecer com dona Rosa, tem sempre um pouco de razão, mas nunca em tempo de chegar a conclusões sustentáveis.


Isso, o que me faz lembrar a dona Rosa, é tão certo como o fato de que, se os vencedores da Primeira Guerra não tivessem humilhado os povos vencidos e imposto a eles custos morais e econômicos insustentáveis, Hitler provavelmente nunca teria chegado ao poder. A humanidade, então, teria evitado suportar tal monstruosidade contra o povo judeu, com a qual o governo norte-americano soube se distrair em excesso.


A avareza capitalista não apenas não tem limites, como não mede suas consequências e todos acabam pagando, especialmente os mais fracos. Que ninguém se equivoque, porque já não temos direito à ignorância e, menos ainda, à ingenuidade. A verdade nada importa para a grande potência ocidental.


Ou não mentiram para o mundo sobre as armas de destruição em massa no Iraque? E já que estamos no assunto, alguém se lembra de que o único país na Terra a usar armas nucleares contra a população civil, e não em uma, mas em duas ocasiões, foram os Estados Unidos da América?


Porém, a qualidade democrática dos nossos governos não importa aos Estados Unidos, como demonstraram apoiando o terrorismo de Estado em nosso continente mestiço. E a liberdade de imprensa muito menos. Recordem a reação do governo norte-americano e de seus organismos diante do desaparecimento de quase uma centena de jornalistas durante a ditadura cívico-militar na Argentina. Ou diante da associação do Estado totalitário com os três jornais mais importantes da Argentina para controlar a produção da Papel Prensa. O que lhes preocupa - e muito - é que os governos levem a sério a defesa dos interesses populares e deixam de servir às insaciáveis ambições das minorias apropriadoras.


Estão decididos a substituí-los por governo aliados aos seus interesses e, em especial no caso da Venezuela, para poder fazer o controle da segunda reserva mundial de petróleo, localizada a apenas três dias de navegação das refinarias norte-americanas. É possível que nos vençam, porque têm o poder para fazê-lo, ou também que voltem a nos dominar por meio de seus gestores locais. Mas, que nos façam de bobos e que nos peçam silêncio e cumplicidade depois do que nos fizeram sofrer, é uma concessão que não podemos outorgar, sem perder definitivamente nossa dignidade.
 
Tradução: Daniella Cambaúva
Carta Maior




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