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Uma política mais realista

01.07.2007 | Fonte de informações:

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Milton Lourenço (*)

Hoje, uma máquina retificadora brasileira destinada à utilização em indústrias de autopeças e embalagem, entre outras, de modo geral, para entrar no México paga 3,6% de tarifa aduaneira, e não mais os 20% de antigamente. O que seria uma boa notícia, na verdade, constitui um obstáculo, quando se sabe que o mesmo equipamento fabricado na Espanha entra no México sem pagar qualquer tributo.

Eis aqui um bom exemplo das dificuldades que o exportador vem enfrentando em razão da pouca agressividade da política comercial brasileira, que, nos últimos tempos, atrelada ao Mercosul, deixou de privilegiar acordos com grandes blocos ou países que, de fato, contam nas relações comerciais. É verdade que o Brasil firmou com o México um acordo que estabeleceu alíquotas menores para uma lista de produtos, mas a Espanha foi mais além e assinou um tratado de redução de taxas de importação mais amplo.

As dificuldades, porém, não param por aqui. São muitos os obstáculos que o fabricante de máquinas e equipamentos encontra na hora de exportar, tal o emaranhado de acordos que existe hoje no mundo, o que torna fundamental a contratação de uma consultoria especializada em comércio exterior.

No caso da União Européia, está claro que, se o bloco europeu obtiver acesso privilegiado ao mercado brasileiro, os seus produtos terão condições de suplantar os fornecedores nacionais em pouco tempo e abafar a produção doméstica. Como esse tipo de produto brasileiro representa apenas cerca de 0,3% das importações européias, um acordo de livre comércio poderia ajudar essa fatia a subir de maneira vertiginosa, mas nada que viesse a representar um avanço significativo, já que a retaguarda ficaria francamente descoberta.

Já em relação aos EUA, maior consumidor de máquinas e equipamentos do Brasil e responsável por mais de 30% das vendas do setor, não existe tantos riscos, variando a ameaça ou a oportunidade de acordo com o segmento em que o exportador atua. De modo geral, a idéia é que um tratado com os EUA poderia vir a significar bons lucros, já que, grosso modo, há um mercado ao redor de US$ 15 bilhões naquele país para o segmento. O mesmo se dá em relação a países em vias de desenvolvimento como México, África do Sul e Índia.

Já com a China e outros tigres asiáticos, como Japão e Coréia do Sul, as perspectivas são, praticamente, nulas para a indústria brasileira de máquinas e equipamentos, pois esses países pouco importam do Brasil e, favorecidos por tarifas mais baixas ou inexistentes, seriam capazes de inundar em poucos meses o mercado de máquinas-ferramentas, levando à falência os fabricantes nacionais. Até porque outros países vêm montando fábricas na China, para aproveitar as vantagens competitivas do país, como salários mais baixos, subsídios disfarçados etc.

Portanto, se o Mercosul passa hoje por uma crise de identidade, sem saber direito que caminhos pretende trilhar, nada mais natural seria o Brasil buscar acordos comerciais isolados, levando em conta as especificidades de seu mercado e as potencialidades de seu parque industrial.

Para tanto, o governo deveria deixar lado uma política comercial que privilegia as relações com os países pobres, sem que isso tenha resultado em ganhos visíveis, para investir mais em suas relações com nações que possam efetivamente aumentar a corrente de comércio.

As últimas desavenças com Bolívia e Venezuela mostram que será muito difícil conciliar interesses tão díspares dentro do Mercosul. Facilitar a adesão da Bolívia, hoje apenas país-associado, ao bloco sem adesão à Tarifa Externa Comum (TEC) é uma afronta ao Paraguai e ao Uruguai, que, repetidas vezes, já deram sinais de descontentamento e vontade de abandonar o Mercosul. Isso significa que será cada vez mais difícil o Mercosul caminhar unido para a formalização de acordos com outros blocos.

Diante disso, sem deixar de estimular a sobrevivência do Mercosul e as privilegiadas relações comerciais com a Argentina, talvez seja a hora de o governo voltar a pensar de maneira mais realista. Afinal, não é de hoje que se sabe que um país não tem amigos, mas interesses.

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(*) Milton Lourenço é diretor-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São Paulo-SP (www.fiorde.com.br). E-mail: fiorde@fiorde.com.br

 
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