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Cartas da Bolívia: 'Que os EUA Voltem e Matem Todos os Indios'

21.02.2020
 
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Cartas da Bolívia: 'Que os EUA Voltem e Matem Todos os Indios'

Clima efervescente no país andino, sentimento de ódio mais uma vez promovido pelos velhos e envelhecidos terroristas americanos. Como no Brasil e em outros países da região, tenta-se recuar a esquerda e avancar uma "agenda", empobrecedora e mortal, bem conhecida da América Latina. Contra-avance-se a batalha de ideias - e o jogo psicológico - do lado progressista

 

Edu Montesanti

 

Andando pelas ruas do centro de Santa Cruz de la Sierra, Oriente boliviano com a filha de três anos e cinco meses na segunda-feira (17), vestindo uma boina vinho tinto ao estilo Hugo Chávez e trajes indígenas do Ocidente boliviano, eis que escuto vaias e comentários jocosos, em voz alta. Até chegar a certas intimidações, algo que meio ameaçante por parte de quem já vinha, de longa-data, mostrando-se incomodado com este refugiado jornalista e professor brasileiro no vizinho país andino pelas posições políticas, e a própria paixão, bastante aberta, à cultura indígena.

 

Tratou-se, por parte desse cidadão cruzenho, branco e bem conhecido caçador de idealistas de esquerda e cidadãos indigenas, de mais um ataque de histeria a boliviana que tem crescido neste país, oriundo de um laboratório de ódio, terror e morte bastante conhecido dos latino-americanos: Washington D.C. O Big Stick anda em alta na Bolívia.

 

Não por mera coincidência esse "sábio" de extrema-direita, que acabou ouvindo deste jornalista determinadas verdades para terminar publicamente com o rabo entre as pernas, alega que os Estados Unidos devem voltar a mandar em seu país nem que roubem suas riquezas, "mas que matem todos os índios". 

 

Mais um espalhador de factoides, determinantes para a queda do ex-presidente Evo Morales em novembro do ano passado. Quando contrariado com dados oficiais, segue a regra da altamente reacionária e discriminadora Santa Cruz de la Sierra: finge que não escutou, e muda de assunto. Para lançar novos factoides e, com o cinismo, a covardia e a ignorância, marcas registradas dos seres reacionários que empesteiam nosso mundo falido, questionar: "você não sabia disso??!!!", como se o interlocutor fosse um ignorante. Mentiras sobre mentiras. Nem vale a pena contra-argumentar em casos assim. 

 

Era comum se escutar em Santa Cruz de la Sierra, antes da queda de Evo Morales, absurdos como "a BoA [Boliviana de Aviação] pertence a Evo Morales". A BoA foi criada pelo ex-presidente indigena em 2007, e pertence ao Estado. Hoje a BoA continua, evidentemente, sob posse do Estado boliviano, provando que nao era de propriedade do "tirano", sem que esses promotores profissionais de divisões sociais e golpes à democracia sequer ruborizem.

 

A familia do principal ator na derrocada de Morales, o cruzenho fascista Luis Fernando Camacho, queridinho dos cidadãos locais, 

deve nada menos que 20 milhões de bolivianos (cerca de 10 milhões de reais) aos cofres públicos em impostos. Sem que os esquizofrenicos "justiceiros" cruzenhos ruborizem por isso. Pelo contrário, este jornalista escutou recentemete de um ativo participante dos protestos que paralizaram por 21 dias a Bolívia de outubro a novembro do ano passado, até Evo fugir em asilo ao México, que é justo e compreensível que a bilionária familia sonegue impostos, pois "o Estado se apropria do dinheiro". 

 

Os Camacho não devem 20 milhões de bolivianos ao partido de Evo Morales nem a este jornalista nem à Rússia, mas ao povo boliviano cujas classes média e alta já nao se incomodam com corrupção, quando se trata dos "seus". Nada surpreedente em se tratando de Camacho, Carlos Mesa, Jeanine Áñez, Tuto Quiroga e os milheres de cérebros lavados das classes dominantes.  O que essa quadrilha anda fazendo com a Bolivia em nome da liberdade e do combate a corrupção, e contra uma suposta invasao da Rússia e da China, é nojento, um filme já visto no Brasil com Jair Bolsonaro - não que o corrupto e autoritário governo de Evo Morales tenha sido libertário e progressista tal qual proclamado pela imensa maioria dos meios alternativos em todo o mundo, muito longe disso.

 

Tais ativistas, vale recordar, sob lideranca de Camacho impuseram um terrivel sacrifício a familias trabalhadoras com os 21 dias de "paralizacao cívica" em nome da honestidade, dos bons costumes, da Constituição, e contra a... corrupção! A mesma corrupção que tem sido utilizada para criminalizar fortemente o partido fundado por Evo, o Movimento ao Socialismo (altíssimamente corrupto, é verdade, mas talvez menos que os outros, porém jamais mais). A hipocrisia e a histeria por aqui são tao acentuadas, que chega a ser impossivel tentar dialogar.

 

Mais uma representante desses ativistas, a auto-proclamada presidente Áñez que deu carta branca para que Forças Armadas e Policia atirem e matem indiscriminadamente nas ruas do país, sem ter que responder na Justiça por isso, logo que assumiu a Presidência garantiu que não se candidataria nas próximas eleicoes para presidente. Pois a xodó das classes dominantes bolivianas não apenas e candidata agora para o pleito programado para 3 de maio, como tem utilizado amplamente o cargo para promover a candidatura, algo ilegal denunciado inclusive por Mesa. 

 

O próprio Camacho havia garantido, entre críticas a "oportunistas" (vejam vocês!) de seu lado ultra-direitista, especialmente Mesa, que não se candidataria afirmando não visar interesses politicos, nem pessoais. Pois é outro candidato agora, com importante apoio em sua terra natal - Santa Cruz. 

 

Quadro que ja era previsivel durante os 21 dias de "Primavera Boliviana"bem ao estilo sirio, egicpio, brasileiro de 2013 a 2016 etc, a dupla que reina em cinismo na Bolivia agora nao é digna de nenhuma manifestação de indignação pelos mesmos que impuseram ao país andino uma amarguíssima paralização economica, total, por longos 21 dias no final do ano passado. 

 

Enquanto isso, o candidato Luis Arce do MAS de Evo lidera as pesquisas de intenção de voto com mais de 17% em relação ao segundo colocado, exatamente Carlos Mesa, e com possibilidade de vencer em primeiro turno. O que esta aumentando a tensão e as velhas divisoes entre os candidatos de direita - um desejando que o outro renuncie a candidatura, em nome da "unidade". A unidade contra o MAS de Evo. Enquanto os meios de comunicação predominantes, ecoados por parte da sociedade, criminalizam o MAS como se este tivesse sido o criador da corrupção no país, historicamente miserável para regozijo das classes dominantes locais - e altíssimamente corrupto.

 

Bem menos que anunciado em diversos meios de comunicação, algo a Bolívia avançou ao mesmo tempo que a administração de Morales promoveu um domínio sobre o sistema de Justiça muito provavelmente mais intenso que anteriormente, e um forte clientelismo país afora. Partidarios do MAS tornaram-se praticamente donos do país, favorecidos de tosas as maneiras pelo Estado. Preferenciais quando se tratava de ser beneficiario das políticas públicas.

 

O sistema público de saúde foi um desastre nos anos de Evo, como sempre havia sido na história boliviana. A que pese a tardia criacao do Sistema Unico de Saúde (SUS) no final do seu ultimo mandato, um fiasco devido à generalizada falta de insumos médicos (os anteriores governos, um fiasco pior por nunca terem criado o SUS). 

 

A economia boliviana cresceu como nunca antes na historia nos governos de Evo, apesar de que tal crescimento não diminiu a desigualdade social, portanto não melhorou a qualidade de vida da sociedade mesmo com a diminuição da pobreza  e da pobreza extrema (precario acesso a saude, saneamento basico, habitacao, educacao, altos indices de violencia e crescentes, etc). O modelo economico favoreceu os mais ricos, que se tornaram ainda mais ricos. Sem dinheiro, o individuo nao tem acesso a absolutamente nenhum tipo de prestacao de servico, e como um sistema assim pode ser chamado de progressista como alardeiam muitos meios?

 

Evo fez valer direitos aos trabalhadores que eram letras mortas, e criou outros. Ofereceu bonos a estudantes do Ensino Fundamental e Medio, e a idosos. Aumentou consideravelmente o salario minimo. Teoricamente nacionalizou os hidrocarburos: seguram nas maos das empresas privadas, pertencendo ao Estado, portanto e como e amplamente dito pela oposicao de esquerda na Bolivia, apenas em seu subsolo. 

 

O proprio semanario pro-Evo Vizion Z, afirmou em editorial pre-eleicoes presidenciais de outubro do ano passado, que se deveria reconhecer que o pais nao estava vivendo nenhuma revolucao como se costumava dizer. Este autor afirma que nem sequer processo de mudanca se viveu nos anos de Evo Morales. Algumas mudancas, ainda que positivas, nem sempre sao sinonimos de processo de mudanca. No caso da Bolivia, nao foi. 

 

Falar em processo de mudanca na Bolivia, nos anos de Evo Morales, gera risada e indignacao por parte da maioria da sociedade, inclusive por parte de muitos que alguma vez ja votaram por Evo, hoje desiludidos. Quem defende a ideia de processo de mundanca, em geral, e filiado ao MAS.

 

Antes Republica da Bolivia, com Evo o Estado Plurinacional da Bolivia por um lado reconheceu as linguas e toda a cultura indigena, provocando a ira da sociedade branca boliviana, sentimento visivel no pais andino. Por outro lado, quando indigenas protestaram em 2011, atraves de marcha pacifica rumo a La Paz, contra a construcao de uma estrada que cortaria a regiao conhecida como Tipnis (Terra indígena e parque nacional Isiboro-Secure), acabaram massacrados por forcas do Estado. 

 

Com toda a razao, opositores a Evo condenam esse massacre ate hoje, porem muitos sao os mesmo entre os varios, especialmente a branca sociedade cruzenha, que dizia amplamente no massacre de 2003 perpetrado pelo presidente Gonzalo Sanchez de Lozada (ate hoje querido pelos cruzenhos, e um dos maiores traficantes de cocaina da historia boliviana): "Que esses indios se matem!". Algo semelhantemente escutado (inclusive por este jornalista, em reportagem Pravda) na tal paralizacao civica do final de 2019.

 

A producao e o trafico de cocaina cresceram muito nos anos de Morales, enquanto, por outro lado, este chegou a ser reconhecido pela ONU e pela Uniao Europeia pelo esforco no combate as drogas. Ha fortes indicios de seu envolvimento na producao e trafico de cocaina. Durante seu governo, a Policia simplesmente era impedida de ingressar em Chapare, onde se produz a droga, e de onde se exporta. Evo foi lider cocaleiro exatamente em Chapare, onde 96% da folha de coca e utilizada para a producao de cocaina (lembrando que a folha de coca e tambem medicinal, porem a da regiao de Yungas e voltada para esse fim, quase nada a de Chapare). Este jornalista tem constatado, em diversas conversas em off com policiais, que a Policia boliviana tem certeza do envolvimento de Evo com o narcotrafico. Um desses policiais ouvidos por esta reportagem, e filiado ao MAS e defendeu Evo ate o ultimo minuto antes de sua queda. E continua defendendo, mesmo reconhecendo, convictamente, seu envolvimento com o trafico de cocaina.

 

Outro ponto altamente favoravel aos partidarios de Evo, e a politica externa com vistas a integracao latino-americana e o chute nos fundilhos de Tio Sam (Evo rompeu com o FMI, expulsou o centro de espionagem dos Estados Unidos disfarçado de Embaixada e o Órgão para o Combate de Drogas (DEA, na sigla em inglês), que apenas promoveu a produção e o tráfico da cocaína na Bolívia anteriormente, com histórias bastante conhecidas do povo boliviano que, hoje, finge não se lembrar em muitos casos. 

 

Para o boliviano médio hoje, esquerda é sinonimo de terrorismo, Vladimir Putin, o Hitler do seculo 21, a Rússia, o Grande Satã enquanto o trabalho deste jornalista é indissociavel de Pravda, com muito orgulho. Nesta atmosfera crescentemente efervescente, a violencia, velho recurso dos incautos, tem sido recurso utilizado, tanto a verbal quanto fisica. Jornalistas argentinos ja tiveram que se refugiar na Embaixada do seu pais em La Paz, para pouco depois fugir a Bolivia. Este jornalista tem sido vigiado. Nada disso, porem, foi motivo de intimidacao para que, prontamente e em tom mais alto que o fascista de turno, fosse peoclamado aos quatro ventos cruzenhos: "Sou guevarista! (...) Vocês religiosos são os que mais falam em não julgar, sendo os que mais julgam o tempo inteiro. Doentes! Enfermos de religião! Mente viciada em religião! Este rapaz não fala em Deus, mas o demonstra! Os que mais falam, voocês são os mais perigosos! (...) Por que certos detalhes [provavelmente, referindo-se antes à vestimenta indigena ao ter feito certos comentários] dizem algo sobre mim [certamente, sugerindo que este jornalista refugiado fosse um subversivo] como diz? Por que são roupas dos collas [bolivianos do Ocidente, predominantemente indígenas e amplamente discriminados em Santa Cruz de la Sierra]?".

 

E como é uma delicia contemplar reaças em recuo com o rabo entre as pernas, após inócuos ataques, no dia seguinte: "Que viva Che Gueavara! Que viva Hugo Chávez! Que viva Fidel Castro!". E outro dia: "Que viva o comunismo! Que viva a Rússia!".

 

Viveremos e venceremos!!

 

"Melhor morrer de pé, que viver de joelhos", Che Guevara.

 


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