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20 anos sem Tarkovski

28.12.2006
 
Pages: 12

Em 1983, Tarkvoski fez um filme na Itália, Nostalgia. Há muitos anos ele pensava na possibilidade de exilar-se na Europa ocidental, e depois de terminado o filme decidiu não retornar à URSS. Sua esposa estava com ele, mas seu filho ficou na União Soviética, e Tarkovksi nunca mais o encontrou: seus pedidos para que lhe autorizassem ir visitar seu filho, ou para que este pudesse emigrar, foram todos negados.

Na Europa, porém, Tarkvovski deparou-se com o mesmo problema: também ali os estúdios não queriam produzir e lançar seus filmes. Ele realizou apenas mais uma obra na Europa, concluída poucos meses antes de sua morte, O Sacrifício (1986), filmado e produzido na Suécia, graças ao apoio de Ingmar Bergman. Também no chamado “mundo livre”, Tarkvovski não encontrou a liberdade de criação que buscava: os estúdios consideravam seus filmes pouco atraentes ao grande público, e com poucas possibilidades de lucro.

Tarkovski morreu em dezembro de 1986, de câncer, sozinho em Paris. O Sacrifício termina com uma nota pessoal comovedora: uma dedicatória a seu filho, “com fé e esperança”. Infelizmente, a esperança nunca se concretizou, e Tarkovski morreu sem voltar a ver seu filho. Foi realmente uma tragédia, tanto artística quanto pessoal: teve poucas oportunidades de realizar filmes, e poderia ter legado muitas outras obras geniais. Se tivesse vivido mais, poderia ter se beneficiado da abertura promovida por Gorbatchov (que havia assumido há 1 ano, e estava apenas começando a implementar suas reformas): poderia ter voltado à URSS, reunido-se com seu filho e demais parentes, e talvez tivesse maior apoio oficial para realizar seus filmes.

Por outro lado, o diretor estadunidense Stanley Kubrick era criativo, personalista, e muitas vezes ousado e polêmico. Que cineasta hoje conseguiria produzir um filme em que um oficial norte-americano inicia a Terceira Guerra Mundial, como o Doutor Fantástico? Ou então um filme caríssimo, obscuro, longo e quase sem diálogos como o 2001?

Kubrick tinha poder absoluto sobre suas obras: o 2001 foi o filme mais caro já feito até então, mas a MGM (estúdio que o produziu) nem sequer pôde ler um roteiro completo, e seus executivos não tinham acesso às filmagens. Quando da première, Kubrick disse que 207 pessoas saíram da sala, entre elas os altos executivos da MGM, quando viram que haviam “desperdiçado” seu dinheiro num filme que eles consideravam condenado ao fracasso comercial. Contrariando a previsão desses executivos (e também como uma evidência esperançosa de que nem sempre o grande público tem mau gosto) o filme teve um imenso sucesso.

Sem dúvida, era isso o que Tarkovski almejava, e foi a oportunidade que ele nunca teve: que lhe dessem dinheiro e recursos para fazer seus filmes, e não interferissem na criação; porém, o caso de Kubrick, um diretor brilhante a quem os estúdios davam liberdade irrestrita, é único. Embora disfrutasse de maior liberdade na Europa ocidental, nem por isso Tarkovski teve melhores condições de trabalho. A liberdade de expressão e a ausência de uma ideologia oficial que limite a arte são instituições fundamentais, que infelizmente nunca foram colocadas em prática na URSS antes de Gorbatchov. Mas a vida e carreira de Tarkovksi mostram que apenas isso não garante que um artista poderá desenvolver plenamente sua arte: a exigência de lucro, por parte da indústria cultural nos países liberais, pode ser tão sufocante e destruidora quanto a censura.

Nota: para os que querem conhecer Tarkovski, há alguns anos foram lançados no Brasil todos seus filmes em DVD (os 7 longas mais o último de seus filmes como estudante, O Rolo Compressor e o Violino), com muitos extras, há alguns anos, pela Continental. Já estão esgotados, mas causalmente é possível encontram alguns dos filmes à venda.

Uma excelente fonte de informação sobre Tarkvoski é a página de internet Nostalghia (http://www.ucalgary.ca/~tstronds/nostalghia.com/index.html). Há fotos, entrevistas, trechos dos seus diários, comentários sobre seus filmes, artigos escritos pelo próprio cineasta, e alguns ovos de páscoa (materiais ocultos). Falta apenas uma biografia de Tarkovski, para estar realmente completa.

Carlo MOIANA

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