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Sim ao Acordo Ortográfico!

12.05.2008
 
Pages: 123

Ou fazemos letra morta dos compromissos assinados em 1990, com os custos de perda de influência na cena internacional lusófona que inevitavelmente decorreriam e com a retirada a favor do Brasil da nossa presença na lusofonia e no campo da cultura lusófona, ou honramos os compromissos, ratificamos também o acordo e passamos à fase seguinte que é a de nos adaptarmos ao dito e preparmos um novo protocolo modificativo que eventualmente possa limar as derradeiras arestas deixadas em 1990.

Saibam também aqueles que vêm este Acordo como uma cedência generalizada aos interesses do Brasil, que se neste momento o texto do Acordo não está já em vigor pleno e completo tal deve-se apenas a uma atitude de moderação e contenção por parte dos nossos irmãos de além Oceano que se têm abstido de o aplicar enquanto - pelo menos - Portugal não o aplicar também, numa atitude de deferência e respeito que dizem muito da relação muito especial que nos vai ainda unido, contra e a favor dos ventos da História.

É que esta anomalia que é a inexistência de uma única grafia do português, num mundo onde esta uniformidade existe no espanhol, francês, inglês e até no árabe tem que terminar… Por força da força e do vigor económico e demográfico do Brasil, com os seus 180 milhões de habitantes, uma proporção esmagadora entre o total da lusofonia e que dá uma boa medida da grandeza histórica que foi um pequeno e longínquo país como Portugal ter sido capaz de forjar uma realidade tão maior e longínqua.

Este peso relativo do Brasil poderia fácilmente fazer com fosse sua a missão e o dever de estabelecer a norma ortográfica do português. É certo que a matriz é portuguesa (de Portugal), mas a língua portuguesa não é nossa (portuguesa) desde que a levamos para fora das nossas fronteiras e desde que o Brasil reclamou e obteve a sua independência. Portugal, não tem assim, nem a força moral, nem a força económica ou demográfica para fazer vergar o resto do mundo lusófono à sua vontade "imperial". Portugal, como os demais sete pólos da lusofonia tem que saber negociar, comungar e partilhar essa coisa preciosa e única que é a nossa língua, saber respeitar, acarinhar e até promover as riquezas e diversidades regionais da mesma, mas promover uma grafia única e uniforme que facilite a Educação, o ensino do português e a chegada do Livro lusófono a um número cada vez mais crescente de gentes e países, colmatando as grandes e importantes barreiras ao desenvolvimento humano e económico dos países lusófonos (Portugal incluído) que são as deficientes estruturas educativas e formativas.

O estabelecimento de uma forma única de escrever o português iria facilitar o reconhecimento do português como uma das grandes língua da cena e da diplomacia internacional e até servir de argumento adicional para aqueles que defendem que o Brasil deve ocupar um lugar permanente no reformado Conselho de Segurança da ONU que se prepara para os próximos anos e que poderá dar a Portugal e à lusofonia um lugar de primeiro plano na diplomacia internacional.

Os receios que muitos portugueses sentem perante o Acordo prendem-se com a convicção de que com o Acordo, Portugal perderá (para o Brasil) ainda mais influência na cena internacional. Mas sejamos sinceros: Economicamente, demograficamente e até cientificamente, isso não acontece já? E tendo em conta o peso relativo dos dois países, isso não é perfeitamente natural? Não há agora como persistir em resistir ao Acordo. A eterna imobilidade que caracteriza os nossos governantes não tem mais sentido: o Acordo já está em vigor, e Portugal ou se afasta dos demais países lusófonos e alinha com eles, ou persiste num isolacionismo cultural que a prazo, e perante o gigantismo da população e da dinâmica da Economia e Cultura brasileira o acabará por extinguir e tornar num apêndice de uma Europa que tem tão pouco de "portuguesa" e tanto de "germânica".

Um factor de está a criar resistência ao Acordo é a conhecida resistência à mudança que caracteriza a nossa matriz cultural… Se sempre escrevemos "assim" porque teremos que mudar? Apenas porque "eles" (os brasileiros) acham? Este conservadorismo cultural encontra-se em todos os sectores do espectro político luso, desde a Esquerda radical (onde militam os mais acérrimos detractores da Globalização) até à mais Extrema das Direitas (onde os "nacionalistas" temem a absorção da antiga metrópole pela ex-colónia). Outro ainda é aquele receio meio visceral de quem teme que cede a terceiros a "sua" língua, como se o português fosse coisa estritamente "portuguesa"…

Na verdade, já deixou de o ser há muito, e ainda bem, porque tal cedência enriquece a língua e garante a sua perenitude e influência neste mundo globalizado tão rápido e dinâmico como o actual… Se o português fosse estritamente uma "coisa portuguesa" estaria hoje definhando a par com a nossa definhante economia e demografia, tão desorientado como está o Portugal "europeu" e lacaízado aos senhores do norte da Europa.

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