Alberto, Ruy, Luís e Siqueira. De Arembepe a Rio da Lua via Bahia

Jolivaldo Freitas

Ler, hoje, é coisa de preciosa paciência, face ao mercado exasperante, ao marketing invasivo cheio de artimanhas conceituais que incidem sobre os leitores, garantindo por isso e aquilo; que tal autor é um gênio da raça e que tal obra não perde em qualidade nem para Borges ou Cervantes. Desconfio de tudo e muitas das vezes vejo que até o júri do Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura do país, vezes das muitas é simpático, mas incompetente. O mesmo posso dizer do Prêmio Sesc de Literatura. Tem ganhador que não dá para entender onde está a qualidade da obra; ou seria que não havia outra obra e a outorga teria de ser dada de qualquer jeito. Está você é certo ao dizer que aquilo que é bom para um, necessariamente, não é para outro e por aí vai.

Mas fiz todo o nariz de cera acima para dizer o quanto fiquei feliz por receber em meu endereço, ao mesmo tempo, na mesma hora por incrível coincidência, quatro livros essenciais para quem cultiva a boa leitura. O jornalista e escritor Alberto Oliveira nos contemplou com sua obra “Seis meses antes do fim”. Um livro que, sem a menor pretensão, vai tecendo uma história até certo ponto hiper-realista temperada com o fantástico e assim segue com a personagem Esperança que acorda na manhã do dia em que faria 60 anos de idade e seu mundo pessoal estava virado de ponta cabeça: “Quantas vezes tudo se repetiu nas madrugadas. Quantas dores do mundo parecem maiores? Perdeu a conta”, pensa e repensa em sua agonia na cama e o romance breve leva o leitor a um intrincado bordado onde num momento é achado que o autor vai se perder na lógica, mas ele dá um salto mortal e resolve nos prender ao seu relato. Excelente obra.

“Um rio corre na lua”. Um título poético num romance só pode vir mesmo de um grande e renomado poeta e romancista. Assim é Ruy Espinheira – escritor, poeta ganhador de prêmios importantes, jornalista e professor – que relança o livro agora pela Maralto. Haja lirismo, haja emoção, haja deslumbramento com uma peça que nos induz ao delírio, ao prazer, tanto na forma como no conteúdo. Digno dos maiores criadores latino-americanos. A obra esgotou-se na primeira edição no início deste século e em 2008 foi indicada ao Prêmio Portugal Telecom. O que traz? Vai um teaser. Na bucólica e ramerrenta cidade de Rio da Luz ocorre algo mágico, preocupante, iluminante, tosco, real e irreal que transforma a vida de toda população. A história que não vou fazer spoiler é uma prova cabal da criatividade e da sensibilidade de Ruy Espinheira Filho. Mistério, encanto e mágica em pouco mais de 200 páginas. Podia ter muito. Quando a leitura termina dá logo a dor da saudade.

Outro baiano das letras, claro, apaixonado por sua terra, tanto que foi dos maiores pesquisadores da cultura baiana e tem o livro mais importante sobre a Bahia e os baianos que é “História da Bahia”, leitura obrigatória até nas escolas é o professor Luiz Henrique Dias Tavares. Em 1962 ele escreveu o livro “Moça sozinha na sala” e Jorge Amado viu os originais que na verdade eram rápidas crônicas publicadas em importante jornal local. Do nada Amado enviou para uma editora. O livro saiu e foi sucesso, ganhando o Prêmio Carlos de Laet, da Academia Brasileira de Letras. É um livro danado de bom pela sutileza, pelo manejo das palavras e composição das frases, com histórias sutis e românticas e sociológicas e antropológicas e poéticas. Como não se emocionar com a história de um cachorro abandonado e suas expectativas frente ao ser humano que passa ao largo. A crítica ao sistema de transporte comparando-a como uma trilha, uma ideia concebida por Satanás para atrapalhar a vida das pessoas. Ou a viagem no DC-3 entre as nuvens, nevoeiros e aeroporto perdido. É um cancioneiro do cotidiano. Um historiador com apurada sensibilidade poética. O livro saiu pela Editora Solisluna numa bela concepção editorial, face a simplicidade e a elegância como caracterizava o autor, honra e glória da cultura baiana.

Mudando de pau para pedra e de pedra para areia e ondas e coqueiral, a primeira vez que estive na colônia de pescadores de Arembepe (hoje uma cidade de pequeno porte), foi em 1965 e eu tinha 11 anos de idade. Meu padrinho me levava num velho fusca saindo de Salvador e enfrentando quase 50 quilômetros de estrada ruim ou de areia. Ele gostava de esperar os barcos de volta da pesca no fim da tarde para comprar peixe fresco: cavalas, sororocas, arraias, caçonetes e vermelhos. Alguns anos depois, já adolescente, no auge da contracultura, do Power Flowers e do hipismo lá estava eu passando fins de semana e acampando e observando os cabeludos, os maconheiros, os visionários, os lunáticos que chegavam de toda parte do mundo para vivenciar o amor livre, a natureza, ver discos voadores, fugir da excruciante vida materialista e consumista.

Pois tem uma turma sobrevivente que vivenciou muito mais intensamente: Claudia Giudice, Luiz Afonso e Sérgio Siqueira, jornalistas, produtores culturais e publicitários consagrados como ilustrador John Chien Lee. Daí se reuniram para contar eles mesmos e ter também apreendido a história dos outros, inclusive aquelas intervenções via página do Facebook, no livro “Arembepe – Aldeia do Mundo”. Janis Joplin esteve ou não esteve morando em Arembepe nos anos 1960/70? E Mick Jaeger morou lá ou não? O certo é que Arembepe recebeu de tudo e todos e passeava de shorts o ator Jack Nicholson desfilava pelo areal e no pequeno povoado perdido na imensidão do litoral norte. E a modelo top da Chanel Vera Valdez andava como a natureza mandava. O jornalista José Simão lá. O mundo lá. LSD, maconha, cogumelo, banho e rio, pôr do sol e nascer da lua. Cada história, cada caso de arrepiar a memória. Uma edição da Máquina de Livro para quem quer rememorar, redescobri ou descobrir. Vão atrás e adquiram os livros. Estão na internet, como tudo, hoje. Leitura agradável garantida.

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Escritor e jornalista. [email protected]

 

 

Author`s name Freitas Jolivaldo