Author`s name Edu Montesanti

Valorização Cultural como Auto-Afirmação da Nossa Identidade

"Um povo ignorante é instrumento cego de sua própria destruição. Temos sido dominados mais pela ignorância que pela força", Simón Bolívar

A cultura está diretamente ligada ao sentimento do indivíduo, é a expressão mais viva da sua personalidade, da sua história, dos seus costumes, das suas raízes, das suas paixões. Soma de todas as realizações humanas transmitidas de geração a geração, a cultura é a auto-afirmação da nossa identidade, essência do ser humano que o sacia interiormente quando expressada livremente.

Para o neurololsta alemão Sigmund Freud (1856-1939), criador da psicologia moderna, a cultura inclui todo o conhecimento e poder conquistados pelos seres humanos para dominar as forças da natureza, e extrair dela bens materiais a fim de satisfazer suas necessidades. Já o antropólogo inglés Edward Burnett Taylor (1832-1917) definiu a cultura é aquele todo complexo que inclui o conhecimento, a moral, a lei, os costumes e outras faculdades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade.

O filósofo, político e cientista político italiano Antonio Gramsci (1891-1937) apontou a própria existência humana como processo de seus atos vividos, e todo o conhecimento e experiências adquiridos ao longo dos anos. Cada ser humano cresce não apenas com suas próprias experiências, mas também com a herança cultural da sua sociedade, e de outras, afirmava o legendário pensador sardenho.

A cultura compreende tanto elementos materiais tais como moradia, alimentação, vestimenta, arquitetura e obra de arte, entre outros, quanto imateriais como tipo de celebração, idioma, linguagem, literatura, lenda, prática esportiva, dança e música, ideias e ideais, princípios e valores, as mais diversas crenças não apenas em termos religiosos mas também em relação a, por exemplo, o que é sublime ou antiquado, e até bonito ou feio.

"Diferentes, não superiores nem inferiores"

Ao contrário do que o sistema competitivo e individualista em que vivemos tenta-nos inculcar, não existem culturas superiores, mas sim diferentes. Certa vez, o jornalista Milton Neves fez esta feliz observação: "Quem esquece as raízes possui, no mínimo, caráter duvidoso".

Gramsci observou: "Uma geração que ignora, desvaloriza e apequena a geração que a precedeu, que não consegue reconhecer sua grandeza e seu significado histórico e necessário, mostra-se mesquinha, que não tem confiança em si mesma ainda que assuma pose de gladiadora, e que exiba mania de grandeza".

Apenas porque não gostamos, não entendemos ou não concordamos com outras maneiras de viver e enxergar o mundo, não podemos nos outorgar o direito de dizer como essas sociedades ou indivíduos devem se comportar, tentando impor-lhes nossa maneira de ser enquanto tal comportamento, por mais diverso que seja do nosso, não ferir a vida e a integridade moral do próximo.

Exatamente a intolerância às diferenças, propiciou a ascensão de regimes fascistas e nazistas em um passado não muito remoto.

"A cultura é força", Ludovico Silva, escritor e filósofo venezuelano

Quando há valorização e respeito à própria cultura, algumas consequências naturais disso são aumento da auto-estima, valorização e respeito à cultura e a toda a história de outros povos, enxergando-os e admirando-os como diferentes, sim, porém jamais como inferiores, superiores e nem, muito menos, como inimigos. Outra consequência é ser valorizado por eles em retorno.

Essa sábia atitude, antes de tudo para consigo mesmo, também acaba levando naturalmente ao diálogo, à soberania e à convivência multicultural, universal e pacífica, calando sem maiores esforços vozes xenófobas e devastadoras.

No caminho inverso, a perda da identidade leva o indivíduo a ser facilmente dominado psicologicamente, tornando o terreno propício para a implantação do contemporâneo "poder brando" teorizado pela primeira vez em 2004 pelo professor de Harvard Joseph Nye, que consiste na imposição por parte de um corpo político ou de um Estado através de meios sutis, tais como o exercício da influência cultural e a midiática, ideologia tão dominadora quanto o tradicional "poder duro", por meios militares e econômicos.

"A língua é um dialeto, com exército e marinha", Max Weinreich

A língua desempenha particular papel na história dos crueis poderes opressivos em todo o mundo, conquistadores que invariavelmente utilizam a dominação cultural como um dos meios para explorar ou mesmo destruir um povo.

Diz o linguista brasileiro Mracos Bagno que "a língua é instrumento de controle social poderosíssimo, de opressão e repressão, de exclusão social e conservação dos privilégios". Indagado por este jornalista sobre a difenciação que historicamente se faz entre línguas e dialetos mundo afora, o linguista americano Noam Chomsky, considerado "o pai da linguística moderna", respondeu: "Em resumo, a distinção é sociopolítica, não linguística; um reflexo das estruturas de poder".

Perguntada por este autor, em entrevista de agosto de 2017, se todos falam o idioma nativo chamorro na ilha de Guam, território a oeste do Oceano Pacífico colonizado pelos Estados Unidos desde 1950, a ativista pela descolonização Lisa Natividad respondeu: "Não, infelizmente nossa língua não é falada por todos de maneira que, agora, estou fazendo aulas para aprender minha própria língua... Outro subproduto da colonização!".

Já a secretária de Políticas Linguísticas do Paraguai, Ladislaa Alcaraz, fez uma observação bastante oportuna sobre o papel da língua materna na vida do indivíduo, e da nação à qual pertence: "Um pedaço da pátria que se leva consigo".

"Grandes e respeitados"

A imposição de uma cultura sobre outra nos tempos atuais tem substituído cavalos e artilharias militares, que ao longo da história colonizaram nações inteiras. Conforme observa José Alfredo de Araújo, mestre em Educação e professor de História da Rede Pública do Estado da Bahia, "a educação é um mecanismo poderoso para imprimir os valores do grupo dominante".

Joseph Goebbels, ministro de Propaganda de Adolf Hitler, disse certa vez: “Quando ouço falar em cultura, logo pego meu revólver”. Menor valorização cultural e opções ao seu acesso também acabam abrindo vácuo que, certamente, será preenchido por estado de depressão, uso de drogas e cometimento de crimes em geral entre a sociedade. E como já foi observado, acaba inevitavelmente favorecendo o discurso de ódio e preconceito. É o atalho mais certo rumo à imposição de regimes tirânicos.

A preservação cultural é o que afirma a identidade de uma nação, fazendo-a grande e respeitada. É só uma questão de liberdade, valor inegociável do indivíduo e de um povo.

"Nada em nosso sentir simboliza tão exatamente a pátria, como a língua nativa. Olhar através da língua que falamos e cuidá-la, vale tanto quanto cuidar das lembranças de nossos antepassados, das tradições do nosso povo e das glórias dos nossos herois", Rufino José Cuervo, filósofo e humanista colombiano

"No sarga la Luna, que no tié pa qué; con los ojitos e mi compañera, yo m'alumbraré": Não apareça a Lua, pois não tem por quê; com os olhinhos da minha companheira, me iluminarei (Cantes Flamencos, Antonio Machado y Álvarez na língua andaluzia)

"Para nós, as galegas e galegos, ó igual que para o resto dos pobos do mundo, a lingua é o xeito que temos de interpretar e expresármo-la realidade e a cultura. O idioma é a base das nosas experiencias, dos costumes, das festas, da arte, da música... en palabras dun dos nosos pensadores, 'unha lingua é máis que unha obra de arte; é matriz inesgotable de obras de arte'. O galego é a 'lingua propia de Galicia' gracias ós millóns de persoas que ó durante moitas xeracións soubemos mante-la nosa lingua como sinal de afirmación colectiva, tanto nos momentos de maior esplendor, como nas situacións máis complicadas e difíciles", idioma português-galego, em galego.org.

"As miñas invencións e as miñas maxias teñen non obstante un senso máis fondo, por riba e por baixo do que eu fago, eu quixen e quero que a fala galega durase e continuase, porque a duración da fala é aúnica posibilidade de que nós duremos como pobo. Eu quixen que Galicia continuase, e ao lado da patria terreal, da patria que son a terra e os mortos, hai esta outra patria que é a fala nosa", Álvaro Cunqueiro, Galiza.

"A vida da humanidade (...) não se desenvolve sob o regime de uma uniforme monotonia, mas através de modos extraordinariamente diversificados de sociedades e civilizações", Levi-Strauss

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