Deus e o Universo Holográfico (Parte 2)

por Fernando Soares Campos

"A natureza reservou para si tanta liberdade 

que não a podemos nunca penetrar completamente 

com o nosso saber e a nossa ciência"

(Johann Goethe).

 

A matéria é eterna, indestrutível, se transforma; o ente psíquico é eterno, indestrutível, evolui

 

A ciência ainda não desvendou de forma absoluta as verdadeiras essências de todas as matérias e energias existentes no universo conhecido. Acredita-se que possa existir algum tipo de substância formada por elementos distintos de toda composição de matéria e energia que conhecemos. A mais recente descoberta nesse campo é a da misteriosa energia escura, ou energia negra, cuja natureza ainda se constitui num dos maiores desafios para a ciência, no que tange, principalmente, aos atuais conhecimentos da Física e da Cosmologia.

 

O Universo também desperta interesses no campo da filosofia metafísica. Por esse meio, podemos realizar investigações transcendentes aos resultados científicos obtidos por meio de pesquisas laboratoriais ou de campo. Também por essas vias, sob profunda introspecção, buscamos compreender as relações íntimas entre os objetos da criação e o Criador.

 

Em se tratando do homem na obra da criação, compreendemos que a psique pura (a dimensão imaterial do ser vivo), ao desejar e idealizar um objeto material, este, enquanto não for expresso, equivalerá ao Nada; ao expressá-lo, damos-lhe forma e energia, e ambas necessitam de um condutor material para se propagar, mesmo que essa informação seja transmitida por ondas ou radiações telepáticas. 

 

“Mediante a palavra do Senhor foram feitos os céus, e os corpos celestes, pelo sopro de sua boca. Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo surgiu.” (Salmos 33:6,9)

 

Esse ser etéreo, responsável pelos frutos da nossa consciência, está evoluindo e, dessa forma, alcançará estágio em que reconhecerá as leis naturais que regem sua existência, identificará os múltiplos estados e funções da matéria e compreenderá como alcançou autoconsciência de sua existência submetida a eterno processo evolutivo. Só assim, perderá o preconceito contra a matéria, passando a entendê-la como sendo o que realmente o é: elemento idealizado e forjado pela Inteligência Suprema, Causa Primária de Todas as Coisas. Portanto, sagrado, tanto quanto a própria psique pura. 

 

No nosso entendimento, esse ente psíquico não pode se manifestar independente do ente material, mesmo porque não há como nem por que separar um do outro. A diferença fundamental entre um e outro é que a matéria é eterna, indestrutível e se transforma; enquanto o ente psíquico é igualmente eterno, indestrutível e evolui. 

 

A transformação da matéria

 

Antoine-Laurent Lavoisier, conhecido como o pai ou fundador da química moderna, pôde, através de seus trabalhos de pesquisa, enunciar uma lei que ficou conhecida como Lei da Conservação das Massas, ou Lei de Lavoisier.

 

“Numa reação química que ocorre num sistema fechado, a massa total antes da reação é igual à massa total após a reação”.

 

Ou “Numa reação química a massa se conserva porque não ocorre criação nem destruição de átomos. Os átomos são conservados, eles apenas se rearranjam. Os agregados atômicos dos reagentes são desfeitos e novos agregados atômicos são formados”.

 

Ou, ainda, sob conceito filosófico: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”

 

Daí podemos concluir que nada pode surgir do Nada; e nada pode transformar-se em nada.

 

A partir dessa constatação, entendemos que os elementos que constituem o nosso corpo material são eternos, indestrutíveis, eles apenas reagem e combinam-se entre si continuamente, transformam-se (durante e após o ciclo vital).

 

A evolução do ente psíquico

 

O ente psíquico unido ao corpo material, consciente de sua própria existência, é igualmente eterno, indestrutível. Este, à medida que se aprofunda em autoconhecimento, vai-se tornando cada vez mais consciente de sua divina origem e capaz de criar mecanismos próprios para controlar seus desejos e impulsos afetivos e emotivos; desenvolve métodos próprios para o aprendizado e encontra solução para os mais complexos problemas que lhe aflijam. No ente psíquico não ocorre a simples transformação de seus elementos estruturais, mas, sim, o progresso quantitativo e qualitativo de conhecimento e o aperfeiçoamento de suas principais funções mentais (cognição, volição, afeto e motivação), desenvolvendo habilidades e autocontrole, portanto podemos considerar que, enquanto o ente estritamente material se transforma, o ente psíquico evolui. 

 

Também temos razões para afirmar que, em vista de o ente psíquico desejar conhecer a verdade e persegui-la, esta evolui consigo. 

 

Tomás de Aquino afirmou que “nenhum ente esgota a verdade”. Isso confirma nossa convicção de que a verdade evolui, desvela-se eternamente por etapas consecutivas, inter-relacionadas.

 

Friedrich Hegel disse que uma tese sempre terá para si uma antítese, e a união dessas teorias formaria uma nova ideia, abrangendo aspectos da tese e da antítese em síntese. E a síntese se tornaria uma nova tese, e, assim, o ciclo se reinicia com a formação de sua respectiva antítese. O que vem a ser isso, senão o caráter evolutivo da verdade? 

 

Outro Friedrich, o Nietzsche, afirmou: "Na minha maneira de pensar, a palavra 'verdade' não designa necessariamente uma oposição ao erro, mas, sim, nos casos mais fundamentais, somente uma posição de diferentes erros". Para Nietzsche, "Verdade” não é algo que exista e que se há de encontrar, de descobrir; mas, sim, algo que se há de criar e que dá o nome a um processo. Nietzsche também garantiu que "O não-poder-contradizer prova uma incapacidade; não, uma 'verdade'”. Com isso, ele corrobora a proposta hegeliana, a real possibilidade de se elaborar antítese ao que possa ser proposto como verdade.

 

Matéria e espírito são indissociáveis

 

Após a morte do corpo somático e consequente desencarne do espírito, este pode transitar num meio constituído de matéria densa, passando-se despercebido, invisível aos olhos de pessoas encarnadas (exceto de médiuns videntes, em específicas ocasiões).

 

O espírito utiliza-se de certo invólucro material fluídico que, desde o primeiro momento da formação do feto humano, une elementos insubstanciais (atenção, percepção, pensamento, raciocínio, afetividade, motivação, volição, fé etc.) ao corpo material, enquanto este se mantiver encarnado. Tal invólucro material fluídico, que liga o espírito puro (psique) ao corpo material altamente denso por um processo eletromagnético, é aquilo que os espíritas denominam "perispírito", palavra originada do prefixo "peri", do grego, significando movimento ou localização, algo como "em torno de", e a palavra latina "spiritus" (espírito). Atualmente os espíritas denominam esse "corpo perispiritual", muito apropriadamente, "psicossoma". 

 

 

De onde viemos?

 

"A alma dorme na pedra, sonha na planta,

move-se no animal e desperta no homem."

(Léon Denis, 1846 -1927, França, pensador espírita,

conhecido como "apóstolo do Espiritismo".)

 

Toda criação está impregnada dos atributos do criador

 

Qualquer conceito que defina a existência de Deus deve ter por base três condições inerentes à sua natureza divina: onipresença, onipotência e onisciência. Identificando tais atributos, podemos estabelecer uma correspondência entre os fenômenos inerentes à natureza material e os atributos do Criador, pois tudo está impresso nas obras da Criação Divina.

 

Nós mesmos, viventes na carne, somos seres constituídos de um corpo material denso, visível, tangível, olfativo, gustativo e auditivo e outro formado de matéria sutil, não perceptível pelos nossos sentidos básicos, sendo este segundo o veículo do puro psiquismo.

 

A matéria, como tudo no Universo, é criação divina, e toda criação está impregnada dos atributos do criador; portanto, a matéria densa manifesta em si própria a presença de Deus, expondo a existência do ser etéreo, pura psique, o espírito, a dimensão imaterial intrínseca ao objeto material. Tal fato pode ser identificado pela análise de substâncias classificadas até mesmo como elementos do Reino Mineral.

 

A primeira manifestação inteligente da matéria é a sua eterna caminhada em busca da eterificação (até os diamantes "sublimam"). A matéria "aspira", eternamente, alcançar a sua própria pureza, a exemplo do ser humano buscando a perfeição por toda a eternidade. Assim, acreditamos que a causa espiritual da matéria está intrínseca à própria matéria, mas de forma específica, como veremos a seguir.

 

Reino Mineral

 

Na matéria em estado sólido, aparentemente inerte, observamos a presença de Deus pelas manifestações dos atributos que definem sua Suprema Divindade: onipresença, onipotência e onisciência, que aqui denominaremos, respectivamente, Em si, Por si e De si. Aplicando-se tais parâmetros, identificamos a presença de Deus em todo o Universo, como trataremos a seguir.

 

1)  Onipresença ‒ o Em si: Esta é a condição em que a matéria compacta, altamente densa, se apresenta em todo o universo material conhecido: multiforme, visível, audível, tangível, olfativa e gustativa. Nesse estado, podemos dizer que a matéria pode ser reconhecida como onipresente, manifestação física que se pode denominar Em si.

2)    Onipotência – o Por si: Sob variações de temperatura ambiente, a matéria reage com movimentos próprios (inerentes à sua natureza) de dilatação e contração, ou expansão e retração. Com esses movimentos, a matéria experimenta o poder de mobilidade e ocupação do espaço. Em se tratando da matéria bruta, inorgânica, em estado original, tal atributo pode ser compreendido como sendo a manifestação da onipotência divina, visto que tal fenômeno se constitui em lei da natureza e ocorre em toda parte do universo material conhecido. Tal manifestação pode ser denominada Por si.

3)    Onisciência – o De si: A matéria no Reino Mineral expressa a condição primitiva do ser inteligente, aquilo que se pode entender como sendo um estado embrionário na escalada evolutiva dos princípios inteligentes da Natureza. O fenômeno em que a energia térmica em movimento entre as partículas atômicas gera o Calor corresponde à manifestação de uma psique rudimentar da matéria densa e pode ser classificada como sendo o seu De si. Esse processo termodinâmico é imprescindível para a ocorrência de toda a explosão de fenômenos químicos e seus efeitos físicos no Universo. Por esse princípio, podemos reconhecer a Onisciência do Ente Supremo, Impessoal, manifestando-se na matéria em estado mineral.

 

Temos, assim, o elemento essencialmente material presente em todo o universo conhecido, ou seja, onipresente, o que, aqui neste trabalho, denominamos Em si. 

 

As propriedades da matéria imediatamente percebidas a olho nu ou observadas com instrumentos apropriados são atividades caracterizadas pela ação reconhecida como sendo o Por si: dilatação, contração, fusão, são reações da matéria a estímulos provocados pelo calor. 

 

Algumas matérias também têm a capacidade natural de absorver energia mecânica e, com isso, elastificar-se, contorcer-se, dobrar-se e, ao cessar a incidência de força que provoca tais reações, readquirir a forma original. A isso chamamos resiliência, uma propriedade especial que, encontrada num metal, torna-o menos frágil, mais duradouro e adequado para específicas utilizações. 

 

O Calor resultante da vibração natural das moléculas ou absorvido de fonte externa, exerce o papel de uma embrionária psique (alma) da matéria, o De si.

 

A matéria altamente densa, em simples estado de aparente inércia, na condição de elemento do Reino Mineral, a qual reconhecemos imediatamente através dos nossos sentidos básicos (visão, audição, tato, olfato e paladar), não tem consciência de sua própria existência ou das suas propriedades. Ela realiza movimento e consequente ocupação do espaço. Nesse estado, ela é apenas Em si, onipresente, e não tem meios de perceber o transcurso do tempo, porém tudo em sua constituição e nas limitadas possibilidades de ação acontece a tempo e horas. 

 

O Calor se identifica como sendo a manifestação "mental" (metal) da matéria densa, seu espírito, sua dimensão etérea, abstrata; esta, contudo, não cria a matéria nem a matéria cria o ser etéreo, ambos formam uma unidade e refletem a presença de Deus em todo o Universo. 

 

Temos, assim, a matéria inorgânica, aparentemente inanimada, como se apresenta em todo o universo conhecido, Em si, a onipresença. 

 

Ainda na matéria bruta, consideramos a existência do seu potencial, a onipotência de qualquer matéria, atributo que lhe confere a possibilidade de realizar movimentos de dilatação e contração, o Por si.

 

Constatamos, também, a existência de um fator equivalente à sua alma, o Calor, que podemos entender como sendo a essência espiritual da matéria, o que corresponde à manifestação da onisciência divina, aquilo que aqui neste trabalho convencionamos chamar De si.

 

A matéria de alta densidade expandindo e contraindo sua massa, portanto criando a noção de movimento e ocupação do espaço, sem autoconsciência de tempo decorrido, pode ser encontrada em variadas porções e sob diversos estados físicos, desde o extremamente sólido ao gasoso, e do gasoso ao plasma altamente energético. Considere-se, ainda, as infinitas variações, nuances, gradações de suas consistências e tenacidades, avaliadas de acordo com capacidades de resistência a impactos físicos e reagentes químicos. Também atentemos para o ponto de fusão específico de cada tipo de matéria, as possibilidades de resiliência e aderência, os graus de homogeneidade e pureza, a sua densidade, entre outras propriedades que lhe são intrínsecas. 

 

A matéria manifestando-se na condição De si gera troca de energia entre as suas diversas formas de composição, umas se sacrificando pela sobrevivência das outras (seleção natural). Nesse processo, polos diferentes se atraem (se completam), polos iguais se repelem (se expandem), simplesmente para manter a dinâmica da vida, a sobrevivência por meio da combinação de elementos. É a solidariedade universal no seu mais alto grau. Exemplo de matéria metálica que se sacrifica para proteger outro elemento material-metálico é o anodo de sacrifício. O zinco é um dos metais mais utilizados como anodos de sacrifício em defesa da corrosão do ferro (enferrujamento). Placas de zinco são colocadas em pontos estratégicos do casco de um navio, abaixo da linha d'água, com o propósito de que este metal sofra a corrosão que seria desenvolvida em algum ponto vulnerável na estrutura ferrosa (casco do navio) imersa nas águas salinas dos oceanos, altamente corrosivas. 

 

Até esta fase do nosso eterno processo evolutivo, ainda não identificamos a existência de alguma forma de matéria estruturada de maneira diferente da que conhecemos (estrutura atômica), mas podemos acreditar que existam tecidos formados por partículas infinitesimais, para além de análise microscópica, prováveis elementos obtidos no Campo Quântico, tão tênues que seriam capazes de ocupar simultaneamente o mesmo espaço em que outros corpos altamente densos estão inseridos, transpassando-os sem lhes causar qualquer perfuração, corte ou sulco. Com isso, podemos melhor compreender e definir a ocorrência das dimensões cósmicas. "Na casa do meu Pai há muitas moradas", disse Jesus –  João, 14:2. 

 

Temos, assim, a máquina essencialmente material, dotada de elementos tangíveis, o Em si, representando a onipresença da matéria, pela sua ocorrência em todo o universo observável, e os seus movimentos percebidos a olho nu ou observados com instrumentos, atividades caracterizadas pela ação aqui reconhecida como o Por si, a onipotência, além da energia térmica fazendo o papel de uma embrionária psique, o De si, manifestação reveladora da onisciência divina. Dessa forma, a matéria altamente densa, classificada como elemento mineral, conta com uma massa dotada de tangibilidade e impermeabilidade, fatores que podem ser verificados quando duas porções de matéria sólida se chocam, ou quando materiais em estado líquido ou gasoso repousam sobre suas superfícies, tangenciando-lhes, mas sem penetrar em sua massa.

 

Por essas analogias, concluímos que elementos do Reino Mineral, seres inorgânicos, são dotados de autonomia comportamental, entendendo tal autonomia não como a liberdade de realizar um desejo, movido pela vontade e com a consciência do desempenho da ação, isso, não; mas, sim, como função inerente às suas propriedades. Dessa forma, tais elementos demonstram capacidades de reagir a agressões e causar, por si mesmos, transformações em suas estruturas, revelando possuir, através de suas propriedades, faculdades verificadas nos seres vivos, orgânicos. 

 

Reino Vegetal 


No Reino Vegetal, o Em si e o Por si (manifestações representativas das onipresença e onipotência divinas) aparecem em um só conjunto, em que se reúnem o tangível e o estético, que se configuram através do movimento e gradativa ocupação do espaço, com absorção de elementos necessários à composição de cores e formas, que, em alguns casos, funcionam como camuflagem, com o propósito de se proteger de eventuais agressões naturais do meio ambiente ou da ação de predadores, tais como os consumidores primários, animais que se alimentam dos vegetais, insetos que se alimentam de porções da planta, como as formigas, lagartas, cupins e grilos, tudo o que poderia de alguma forma prejudicar seu desenvolvimento. 

 

O vegetal é um ser vivo suscetível a doenças causadas por fungos e bactérias, que deterioram seus troncos, galhos, folhas, flores e frutos, imprimindo-lhes manchas, desenvolvendo mofos e provocando-lhes danos, podendo deteriorar as partes atacadas ou mesmo eliminar o indivíduo vegetal. 

 

Nas plantas, o fluxo da seiva, um líquido com a função de transportar água, nutrientes, oxigênio e gás carbônico pelo corpo da planta, é uma atividade equivalente ao fluxo do sangue nos animais. 

 

A matéria vegetal desenvolve propriedades como plasticidade, elasticidade, resiliência etc. A interação com o meio ambiente às vezes exige uma possível aclimatação do elemento vegetal, um ajustamento de suas condições de sobrevivência sob determinadas mudanças nos ecossistemas. Tal procedimento é de responsabilidade do De si, que corresponde à onisciência divina, cujas funções no Reino Vegetal apresentam maior complexidade que nos elementos do Reino Mineral, visto que, nos vegetais, verificam-se fatores físicos, químicos e biológicos.

 

Além das vibrações moleculares, como ocorre no elemento mineral, a planta é dotada de outras propriedades, tais como reações químicas, orgânicas e sistêmicas. Portanto as manifestações tidas como Em si e Por si expressam no vegetal características mais evidentes das onipresença e onipotência divinas. Enquanto isso, o De si, que correspondente à onisciência do Criador, pode ser observado e melhor compreendido, este agora revela uma autoconsciência embrionária, consciência compacta do transcurso do tempo. Nesse estado, o De si, fazendo o papel de "psique vegetal” (a alma da matéria-indivíduo-vegetal), possui uma rudimentar consciência de sua própria existência, visto que, ao seu trabalho, está inserida uma avançada “noção de transcurso do tempo", que diz respeito à sua natural programação da duração do seu ciclo vital, o que acontece de acordo com a resistência de cada espécie.

 

A matéria-indivíduo-vegetal, através de seus instrumentos de evolução, que correspondem aos mecanismos que viabilizam a troca de informações com o conjunto de elementos do Universo, desenvolve o processo de reprodução e, por esse meio, mantém a sobrevivência de suas espécies.

 

Nos estados mineral e vegetal, a matéria expressa princípios de inteligência, mas não manifesta consciência de sua própria existência. Entretanto, mineral e vegetal são programados através de impressões físicas que estabelecem suas funções e capacidades de adaptação ao meio ambiente em que estejam inseridos. Tudo isso deixa transparecer a onipresença, a onipotência e a onisciência do Criador.

 

Reino animal

 

Os três atributos fundamentais que caracterizam a existência de Deus estão expressos de maneira mais evidente nos indivíduos pertencentes ao Reino Animal.

 

O conjunto de matérias que constitui a estrutura física do animal (incluindo-se o homem) é uma máquina viva formada por elementos energéticos (minerais), com experiências obtidas no Reino Vegetal. No animal, o processo é um tanto mais complexo que no mineral e no vegetal. O corpo animal representa, Em si, a onipresença divina, onde quer que exista vida animal.

 

O indivíduo animal de qualquer espécie tem consciência da força que pode aplicar para exercer atividades necessárias à procriação e sobrevivência. Dotado de potente meio para prover a sua subsistência e preservar as espécies, nele isso representa a expressão do Por si, o que equivale à onipotência do Criador.

 

No animal, o instinto tem características de inteligência, fazendo-o reconhecer a si próprio como indivíduo e tornando-o capaz de liderar um grupo de sua espécie, verificando-se entre eles certa hierarquia e dominância de determinados elementos sobre os demais membros de um grupo. Os animais exibem comportamentos comuns a todos os indivíduos da mesma espécie, adquiridos por herança genética ou ainda aprendidos sob adestramento. Nisso, podemos reconhecer as características que indicam a manifestação da onisciência de Deus nessas suas criaturas, o De si.

 

Reino Hominal

 

“O homem, tendo tudo o que há [nos minerais,] nas plantas e nos animais,

domina todas as outras classes por uma inteligência especial, indefinida, 

que lhe dá a consciência do seu futuro, a percepção das coisas extra materiais 

e o conhecimento de Deus.”

Allan Kardec, O Livro dos Espíritos,

questão 585 e comentário (trecho).

 

“Vós sois deuses”, disse Jesus, referindo-se a todos nós, indivíduos da espécie hominal, e acrescentou: “Podeis fazer tudo que faço e muito mais”. Porém, para sermos reconhecidos como deuses, precisamos ser dotados dos atributos divinos fundamentais: onipresença, onipotência e onisciência. Nesse caso, somos deuses porque, em função do nosso estado evolutivo, o mais avançado entre as espécies viventes em nosso planeta, somos responsáveis pela vida, pela reprodução e manutenção de todas as coisas existentes no Universo criado por Deus Impessoal, Infinito e Eterno, o que não tem começo nem fim; enquanto nós somos perpétuos, criaturas eternizadas, aquilo que tem começo, mas não tem fim. Essa é também a natureza de Deus Personificado, a quem Jesus se referiu como sendo o Pai. Isso ficou claro quando Ele declarou: “Eu e o Pai somos um”, João, 10:30.

 

Relativas onipresença, onipotência e onisciência do ser humano em evolução


A chave para entendermos a nossa onipotência e onisciência está na consciência da nossa relativa onipresença em todo o Universo. Relativa inclusive para o Deus Personificado, o Pai, para Deus-Jesus, para todos os santos-deuses, deuses-espíritos relativamente bem evoluídos etc.

 

Ser onipresente na condição de ser humano, ou mesmo de supra-humano (o Pai, espíritos, almas e espectros que já alcançaram elevados níveis de evolução), não é poder estar de corpo presente em todos os lugares. Isso vale para qualquer de nós, em qualquer grau evolutivo, até mesmo na condição em que se encontra o Pai, Deus Personificado.

 

Para nós aqui na Terra e para as entidades evoluídas que ocupam os espaços celestiais de forma hierarquicamente organizada, ser onipresente é, antes de tudo, ter consciência de que aquilo que faço aqui e agora repercute em todo o Universo, sem limite preestabelecido. Ser onipresente, para as entidades em eterno processo de evolução, é, por assim dizer, ter consciência do "efeito borboleta", que não pode ser facilmente detectado, mas tão somente intuído. Ser onipresente é respeitar o nosso semelhante, é compreender que somos indivíduos, sim, mas não precisamos nem devemos ser individualistas. Ser onipresente é ter a consciência de que fazemos parte da Humanidade e saber que, quando qualquer parte de um todo se submete a processo de transformação, o todo terá, de certa forma, se transformado. 

 

Ter a consciência de que somos dotados dessa forma de ser onipresente pode nos imbuir da sensação de o quanto somos, igualmente de forma relativa, oniscientes e, daí, nos aflorar a sensação de onipotência. A partir desses reconhecimentos, basta nos impregnar do sentimento de humildade, concluindo que nossa onipresença tanto quanto a onipotência e a onisciência são relativas ao estado evolutivo de nossa consciência.

 

Tudo parte da perfeição aparentemente inerte ("Em si", onipresença) para a perfeição dinâmica ("Por si", onipotência), passando por múltiplos estágios, que se caracterizam como recursos imprescindíveis ao processo evolutivo do ser humano, revelando, finalmente, o De si, a onisciência relativa que nunca esteve fora do ser humano.

 

A imagem de Deus impessoal (Inteligência Suprema, Causa Primária de Todas as Coisas) nos é praticamente incompreensível. Os espíritos altamente evoluídos que participaram da elaboração dos cinco livros básicos, conhecidos como Pentateuco Kardequiano, a Codificação Espírita, deixaram isso bem claro. Por essa razão, muitos de nós só assimilam a figura do Deus Personificado e trata-o como um ser perfeitamente imperfeito, pois a imperfeição de Deus Personificado diz respeito à sua (nossa) eterna busca pela perfeição. Ou seja: Deus-Personagem evolui naturalmente, como qualquer um de nós, mesmo que isso ocorra em diferentes estágios entre tais indivíduos.

 

A palavra "deus" também pode nos soar com o sentido de “finito”, “final”, quando acreditamos que, após o nosso desencarne, chegaríamos diante d’Ele, contemplando-o. A humanidade em geral ainda não concebe o Deus Impessoal. Neste estágio evolutivo em que nos encontramos, preferimos um deus pessoal, ou, melhor, personificado, que nos sirva de espelho, de forma que possamos nos considerar à sua semelhança. Somos, sim, a semelhança de Deus, desse Deus sobre o qual, apesar da imensa distância que nos separa dEle, no que tange ao processo evolutivo, podemos aspirar à condição de um dia nos colocarmos ao seu lado, ou simplesmente viver no mesmo ambiente celestial (cósmico) em que Ele habita. Somos, sim, a semelhança desse Deus Personificado.


Até aqui, temos dado a entender que a matéria e o imaterial (o etéreo) são indissociáveis. Na matéria densa, o seu calor natural, elemento etéreo, gera movimento vibratório de sua massa e, dessa forma, representa o espírito que movimenta a matéria, aquilo que lhe confere o “sopro de vida”.

 

― “Dominus vobiscum”. ― “Et cum spiritu tuo”.

 

Quando a missa católica era celebrada em latim, a frase “Dominus vobiscum” (“O Senhor esteja convosco”), era respondida pelos fiéis com “Et cum spiritu tuo” (“E com o teu espírito”).


Somos espíritos-deuses em evolução e nos manifestamos utilizando algum meio material, em alguma de suas formas, que vão da matéria altamente densa à energética. Grande parte da população terrestre tem conhecimento desse fenômeno, até mesmo por intuição, mas apenas uma ínfima parcela tem consciência de que pode acionar dispositivos mentais que lhe permitam manipular tais energias. 

 

A partir do momento em que nos determinamos a encontrar Deus na condição de eminente personagem orientadora de nossas atividades anímicas e físicas, Ele, apesar de sua infinita abrangência, só é encontrado dentro de nós quando vislumbramos um minúsculo sinal luminoso na parte mais profunda da nossa dimensão psíquica. Esse é o momento mais importante de toda a nossa existência, pois é a partir daí que enxergamos Deus não apenas pelas vias semióticas, como na contemplação de uma imagem, ou pela compreensão de um conceito. Deus, agora, é você mesmo, você é o Próprio.


Quando algum de nós se descobre corresponsável pela criação e manutenção do Universo, nele emerge a consciência de sua própria divindade congênita, dotada dos caracteres essenciais à identificação da existência e presença de Deus em nosso íntimo, inseparável da essência material, o corpo somático, este que nos permite manifestar os atributos que definem a perfeição divina. Inicialmente, ainda incapaz de identificar em si próprio a plenitude de tão elevada condição, ele não consegue distinguir com precisão aquilo que possa ser finito ou infinito, começo e fim, os intervalos de tempo e a eternidade, o Bem e o Mal (sobre estes, pode ocorrer de imaginarmos os seus significados atribuindo-lhes os sentidos daquilo que nos parece “bom” ou “mau”, trocando o ser pelas suas possíveis qualidades).

 

Em estado de semiconsciência, confundimos o caráter daquilo que relativamente venha a ser onipresença, onipotência e onisciência, tratando tais atributos divinos, latentes em nosso íntimo, como se fossem teorias metafísicas engendradas com o propósito de funcionar como instrumentos de vigilância e controle social. Em vista disso, a onipresença do ser humano encarnado pode nos parecer apenas presença local, fixa, inerte. A onipotência é entendida apenas como força de trabalho para a sobrevivência, em vez de energia potencial para manter a vida. E não nos reconhecemos como oniscientes; apenas como cientes, meros conhecedores daquilo que esteja ao nosso alcance e possa nos interessar. Em si, Por si e De si parecem emaranhados no âmbito da psique, mas bem distintos no universo da matéria. Nesse estado, o De si discrimina o Por si (a força), considerando-o uma condição inferior, mas aceita manifestá-lo como recurso em favor de sua sobrevivência e da preservação de sua espécie. Porém não quer admitir que seja, também, o Em si (matéria bruta), uma condição aparentemente rudimentar, que, para ele, o mais inferior estado em que se pode encontrar os objetos na Natureza.

 

Apesar de o ateu considerar-se como sendo constituído exclusivamente de matéria, é provável que ele não perceba a matéria manifestando-se de forma inteligente: o design inteligente, a mobilidade inteligente, as emoções submetidas a controle inteligente, os sentidos básicos (audição, visão, tato, olfato e gustação) interagindo entre si inteligentemente; tudo isso entre tantas outras formas de manifestação da Inteligência Divina, criadora, não personificada, Inteligência Suprema, Fonte da Vida, pulsando em si.

 

O ateu não reconhece o fenômeno natural em que, após o falecimento do corpo somático, a nossa consciência sobrevive em outras dimensões cósmicas utilizando-se de um corpo constituído por matéria tida como “quintessenciada”, refinada, sutil.

 

Com o falecimento do corpo humano, dá-se início ao seu processo de decomposição, em que ocorre uma série de fenômenos que resultam no colapso do tecido corporal e consequente liquefação dos órgãos. Toda a sua integridade física desagrega-se, e seus constituintes buscam ambientes adequados a novas combinações. Dessa forma, ressurgem em novos formatos, como indivíduos pertencentes a um dos reinos da natureza a que cada elemento pertença. 

 

Quanto ao espírito, o ser etéreo sobrevive envolvido por um corpo de matéria sutil, em que constam todos os registros de suas vivências na Terra, ou em outros planetas, ou mesmo em paralelas dimensões cósmicas. 

 

Para ler a Parte 1, clique aqui: Deus e o Universo Holográfico

 

Fernando Soares Campos é autor de "Saudades do Apocalipse - 8 contos e um esquete", CBJE, Câmara Brasileira de Jovens Escritores, Rio de Janeiro, 2003; "Fronteiras da Realidade - contos para meditar e rir... ou chorar", Chiado Editora, Portugal, 2018; e (em parceria com Sérgio Soares de Campos) "Adeildo Nepomuceno Marques: um carismático líder sertanejo", Grafmarques, Maceió, AL, 2022.

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