Mistério: Um morto vivaldino

Por que a corruptália resolveu estocar propina em apartamento, em vez de depositar em contas no exterior como nos velhos tempos?

Talvez a resposta possa vir da análise de determinados casos. 

por Fernando Soares Campos

 

Suspeito de participar de esquemas de corrupção, o ex-deputado José Janene (PP-PR) seria julgado no processo do "mensalão" petista, aquele em que Dirceu, Genoino e Delúbio foram condenados em 2012, porém, para todos os efeitos, Janene teria morrido em 2010.

Em 2015, o presidente da CPI da Petrobras, deputado Hugo Motta (PMDB-PB), surpreendeu os membros da Comissão dizendo que iria pedir a exumação do corpo do ex-deputado paranaense José Janene, supostamente morto em 2010. Hugo Motta, que, além de deputado e presidente da CPI, é médico, tentou justificar o pedido de exumação, disse que a viúva de Janene, Stael Fernanda Janene, falou que não viu o corpo do marido após a sua anunciada morte, em 14 de setembro de 2010. Segundo o presidente da CPI, a viúva contou que o caixão de Janene chegou lacrado e assim permaneceu durante o velório em Londrina (PR). Ela não teria visto o corpo do "falecido".

Reportagem da Folha de S.Paulo informava que o ex-deputado poderia estar vivo e que a suspeita teria partido da própria sua viúva, Stael Fernanda, que teria dito que o caixão chegou lacrado e ninguém viu o corpo do marido. 

 

Isso causou grande rebuliço, apareceu deputado de tudo o quanto é estado dizendo que a exumação do corpo de Janene seria um absurdo, que o deixassem "descansar em paz". "Profanação!", gritou um dos antigos parceiros do talvez falecido deputado.

Mas... quem reconheceu o corpo no IML? Quem assinou a certidão de óbito na condição de declarante?

"Apesar da semelhança nos nomes, "atestado de óbito" e "certidão de óbito" são documentos diferentes. Enquanto o atestado é emitido por um médico para comprovar a morte de uma pessoa, a certidão é emitida por um cartório de registro civil e só pode ser obtida com o atestado de óbito. Na certidão, entre outras informações, deve constar a hora e a data do falecimento, se a pessoa era casada e deixa filhos, com nome e idade de cada um, se deixa bens e herdeiros, se era eleitor, se a morte foi natural ou violenta e a causa conhecida. A certidão de óbito geralmente é feita a pedido de familiares diretos, mas, na ausência destes, pode ser feita pelo administrador, diretor ou gerente de qualquer estabelecimento público ou particular - como hospitais ou presídios onde ocorreram as mortes. Na falta de pessoa competente, pode ser feito por quem tiver assistido aos últimos momentos do finado, o médico, o sacerdote ou vizinho e ainda pela autoridade policial, no caso de pessoas encontradas mortas." (Resumo de informações obtidas no site do CNJ - Conselho Nacional de Justiça - artigo "Entenda a diferença entre certidão de óbito e atestado de óbito", publicado em 22/06/2015.)

No caso de Janene, quem requereu e assinou a certidão de óbito foi o doleiro Alberto Yousseff, esse que pegou uns anos de cadeia na Lava Jato, mas que já está andando livre pelas ruas e campos do País. 

Stael Fernanda, a viúva, confirma o relacionamento do casal com o doleiro Youssef, preso na Operação Lava Jato, mas garantiu que se tratava apenas de um compadrio, um relacionamento social, nada profissional, disse que Youssef é padrinho de batismo do filho mais novo dela com Janene.

 

Danielle Janene, filha de José Janene, rodou a baiana

Depois do anúncio do presidente da CPI, dizendo que pediria a exumação do cadáver de Janene, a fim de confirmar se o morto está vivo, Danielle Janene, filha do suposto falecido deputado, entrou na discussão. Ela garantiu que o doleiro é amigo da família de longa data e participou do reconhecimento do cadáver, ficando responsável pelos trâmites burocráticos. 

 

Danielle, desmentiu a madrasta, Stael Fernanda, afirmando que o velório foi feito com o caixão aberto e que os membros da CPI queriam apenas "cinco minutos de fama". 


O Globo, em 20/06/2015: "Filha de Janene diz que presidente da CPI da Petrobras prometeu se retratar"

Danielle telefonou na noite desta quarta-feira para Hugo Motta (PMDB-PB) para pedir explicações sobre pedido de exumação de seu pai

(...)

Segundo Danielle, Motta disse que fará uma retratação pública amanhã.

- Ele negou que tivesse dito o que está na imprensa e falou que vai se retratar amanhã - afirmou Danielle ao GLOBO.

Para a filha de Janene, o que houve foi de "extrema irresponsabilidade" e ela quer saber de onde surgiu a informação de que o pai dela poderia estar vivo.


Stael Fernanda, madrasta de Danielle, esqueceu-se de combinar com a enteada, que disse que "o velório foi feito com o caixão aberto e que os membros da CPI queriam apenas cinco minutos de fama", assim, em nota à imprensa, a viúva disse: "Ao contrário do que leio de que seu corpo estaria em caixão lacrado, não havia caixão algum, pois seu enterro se deu sob os costumes muçulmanos, onde nem ao menos existe um caixão, quanto mais, lacrado." 

 

Porém, reportagem do G1, de 20/05/2015, intitulada "'É um absurdo', diz viúva de Janene sobre exumação do corpo do marido, traz foto do momento em que homens transportam o caixão do suposto defunto. Confira AQUI 

 

Criticado por familiares de José Janene e por alguns deputados, o presidente da CPI da Petrobras disse que só votaria o requerimento de exumação do corpo do ex-deputado após ouvir a viúva Stael Fernanda. 

 

A pressão sobre Hugo Motta foi tanta que, quando ele dava a realização da exumação como certa, precisou dar um tempo.

Acusado pelo deputado Júlio Delgado (PSB-MG) de querer desviar o foco da CPI e procurado pelo advogado da família de Janene, Hugo Motta disse que, antes de colocar o pedido de exumação para ser votado pelos membros da CPI, primeiro ouviria a viúva.

"Se a prova [de que Janene está morto] for contundente, não nos cabe ficar alimentando essa história. Não quero agredir a história de ninguém", afirmou Motta. Na condição de médico que é, o presidente da CPI disse ser a exumação a medida "mais garantidora" da real situação de Janene, que teve a morte oficialmente anunciada em 2010. E ainda afirmou que ele mesmo apresentaria o requerimento de exumação, mas que aguardaria para a votação. "Vamos ouvir a senhora Staelpara fazer os esclarecimentos, as denúncias de contas no exterior e acredito que, nesta oportunidade, vamos tratar de exumação", afirmou o parlamentar.


Antes disso, o deputado Hugo Motta havia declarado firmemente: "Vai ter a exumação do corpo. Vou montar uma comissão de deputados para acompanhar a exumação, colher o DNA da família e ver se é ele mesmo que está lá sepultado". Tal declaração foi feita ao jornal O Estado de S. Paulo.

Embora tenha sido convocada na condição de testemunha na CPI da Petrobras, a viúva conseguiu na Justiça um habeas corpus que lhe garantiu o direito de permanecer em silêncio, não dizer nada que pudesse incriminá-la. Apesar dessa decisão judicial, esperava-se que Stael Fernanda explicassea movimentação de contas bancárias no exterior após a morte do marido.

Segundo o deputado Altineu Côrtes (PR-RJ), autor do requerimento de convocação de Stael Fernanda, cerca de 85 milhões de euros (aproximadamente R$ 294 milhões) foram sacados de uma conta localizada em Luxemburgo por intermédio do doleiro Alberto Youssef, que, de acordo com  declarações da viúva, mantinha relações meramente de amizade e compadrio com a família do suposto falecido.

A exumação do corpo não foi realizada, mas havia informações de que ele estaria vivo, desfrutando toda aquela fortuna num país da América Central.

 

Mesmo sem o esclarecimento desse caso, podemos acreditar que existam pessoas dispostas a morrer aqui e renascer em qualquer outra parte do Planeta, contanto que isso lhe renda R$ 294 milhões de uma conta e, certamente, outros milhões de outras contas, além de escapar da Justiça e evitar a partilha do butim com alguns de seus comparsas.

 

Para a corruptália, agora é mais seguro guardar a propina embaixo do colchão 

 

O caso José Janene faz lembrar a morte de muita gente, casos em que as famílias não se incomodaram em investigar se o falecido foi vítima de acidente comum ou assassinado por sabotagem de equipamento de veículo, embarcação, aeronave, inoculação de vírus letal etc. O que interessou a algumas viúvas foi saber quanto o marido deixou nos paraísos fiscais. 

 

Dizem que, depois da morte de Sérgio Motta, o Serjão, operador de propina da privataria tucana, a sua viúva foi procurada por caciques políticos, que exigiam que ela entregasse milhões de dólares depositados no exterior. A japonesa fez que não entendeu, fez que nem sabia da existência dessa grana toda. Muita gente deve ter ficado sem receber sua parte, que deveria ser entregue durante campanhas eleitorais ou, como no caso da compra de votos para aprovação da reeleição para presidente, quando dos pagamentos de mensalões para aprovar matérias de interesse do governo. 

 

Casos como o de José Janene, Sérgio Motta e de outros operadores de propina que bateram as botas devem ter servido de exemplo para os corruptos que esperavam receber suas cotas mas ficaram a ver navios. Daí, provavelmente, muitos decidiram que as propinas deveriam ser estocadas em casas e apartamentos, em vez de depositar em contas no exterior.


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Vídeo 


Partido dos Trabalhadores

19 de maio de 2015

MEMÓRIA FRESCA

Que tal relembrar o que o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa disseram, em delação premiada, sobre o PSDB?

Costa revela detalhes do pagamento de propina no valor de 10 milhões de reais ao então presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE), já falecido, para impedir uma CPI no Congresso com recursos desviados da #Petrobras.

E Youssef fala sobre a #ListaDeFurnas, documento que relaciona o pagamento pela estatal de quase R$ 40 milhões em propinas para os então candidatos do PSDB Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin, nas eleições de 2002. [Nessa delação, ele diz o seu compadre José Janene operava uma diretoria em comum acordo com Aécio Neves.] 

  

Assista AQUI 

https://www.facebook.com/pt.brasil/videos/841568239262886/?fref=nf

 

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Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey