Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Braga Horta: contos, poemas e mantras

 Adelto Gonçalves (*)

I

Predominantemente poeta, com uma relação de onze títulos publicados desde 1971, Anderson Braga Horta (1934) tem ainda se destacado não só como tradutor, ensaísta e crítico literário, mas como contista. É o que mostram seus dois livros mais recentes, Pulso Instantâneo (Brasília: Thesaurus Editora) e Cinco Histórias de Bichos (Brasília: Thesaurus Editora), que saíram à luz ao final de 2008, menos de um ano depois de colocado no mercado Criadores de Mantas: Ensaios e Conferências (Brasília: Thesaurus Editora, 2007).

Ao ler Cinco Histórias de Bichos, não há como deixar de recordar Bichos (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996), de Miguel Torga (1907-1995), pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha, um dos maiores escritores portugueses do século XX. Escrito em 1940, Bichos é um clássico da literatura portuguesa, em que o escritor -- também poeta, teatrólogo, contista e memorialista -- inventa um mundo de bichos humanizados.

Embora fosse médico otorrinolaringologista de profissão, com consultório na Portagem, em Coimbra, à beira do rio Mondego, sempre a lidar com pacientes, Torga era pessoalmente um homem extremamente arredio, rude e seco de palavras, mas terno com os animais, embora fosse também adepto de caça a coelhos nos campos.

Nascido em São Martinho de Anta, Vila Real, era proveniente de uma família humilde, trasmontana, que vivia na área rural e lhe deu a conhecer a realidade do campo, sem bucolismos, feita de árduo trabalho. Após breve passagem pelo seminário de Lamego, emigrou com 13 anos para o Brasil, onde durante cinco anos trabalhou na fazenda de um tio, em Minas Gerais, como capinador, apanhador de café, vaqueiro e caçador de cobras, que foi quem lhe patrocinou os estudos em Coimbra.

Como Torga, Braga Horta também humaniza os bichos que retrata na literatura, passando uma alegria de ser e de viver em comunhão total com a natureza. Mas, ao contrário de Torga, não teve uma vida dura no campo, embora nascido em Carangola, no interior de Minas Gerais. Nem nasceu entre iletrados, como Torga. Seus pais foram poetas e professores, pessoas ilustradas. Seu apego aos animais não teria nascido de uma vida com as mãos na terra, mas herdado do pai, “que tinha um jeito especial de lidar com os bichos, que o respeitavam e o amavam”, como se lê em “Meu pai e os bichos”, a primeira das Cinco Histórias de Bichos.

Fazendo parte da coleção Biblioteca do Cidadão/O Livro na Rua, Cinco Histórias de Bichos vem acompanhado de traduções para o alemão do quase centenário Curt Meyer-Clason (1910), grande divulgador da literatura brasileira na Alemanha e Suíça, conhecido especialmente pelas traduções que fez de obras de Guimarães Rosa (1908-1967), mas que igualmente traduziu Machado de Assis (1839-1908), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Jorge Amado (1913-2001), Adonias Filho (1915-1990) e João Cabral de Melo Neto (1920-1999).

II

Filho de intelectuais, Anderson Braga Horta, por volta dos 14 anos, resolveu tentar também o caminho das letras. Datam de 1949 seus primeiros escritos, mas apenas no ano seguinte sentiu-se capaz de produzir um texto que pudesse ser submetido à análise dos outros. Eram versos. Os contos começariam em 1954, um deles, inclusive, que foi recolhido em Pulso Instantâneo.

O contista estreou em livro antes do poeta, a não ser pela participação em obras coletivas: O Horizonte e as Setas, em parceria com Joanyr de Oliveira, Elza Caravana e Izidoro Soler Guelman. Alguns dos contos que integram Pulso Instantâneo faziam parte de Contos Passageiros, livro nunca editado, embora tenha conquistado o Prêmio Machado de Assis, do antigo Estado da Guanabara, em 1966.

Como observado, predominam em sua obra títulos de poesia, como Altiplano e Outros Poemas, de 1971, seguido de Marvário, Incomunicação, Exercícios de Homem, O Pássaro no Aquário, reunidos, com inéditos, em Fragmentos da Paixão (São Paulo: Massao Ono, 2000), que obteve o Prêmio Jabuti de 2001, mais Pulso (São Paulo: Barcarola, 2000), Quarteto Arcaico (Guararapes, 2000) e 50 Poemas Escolhidos pelo Autor (Rio de Janeiro, Galo Branco, 2003).

Na linha da crítica e da ensaística, publicou pela Editora Thesaurus o opúsculo Erotismo e Poesia (1994) e Aventura Espiritual de Álvares de Azevedo: Estudo e Antologia (2002), Sob o Signo da Poesia: Literatura em Brasília (2003), Traduzir Poesia (2004) e Testemunho & Participação: Ensaio e Crítica Literária (2007).

Com Fernando Mendes Vianna e José Jeronymo Rivera, assina as traduções de Poetas do Século de Ouro Espanhol (2000); Victor Hugo: Dois Séculos de Poesia (2002), publicados pela Thesaurus; O Sátiro e Outros Poemas de Victor Hugo, pela Galo Branco (2002), Antologia Poética Ibero-americana, organização de Gustavo Pavel Égüez (Cuiabá: 2006); com Rumen Stoyanov, a de Contos de Tenetz, do búlgaro Yordan Raditchkov (Thesaurus, 2004).

III

Em Criadores de Mantras, Braga Horta reúne ensaios e conferências sobre autores brasileiros, de Álvares de Azevedo (1831-1852), Castro Alves (1847-1871), Vicente de Carvalho (1866-1924), Augusto dos Anjos (1884-1914), Medeiros e Albuquerque (1867-1934), Alphonsus de Guimaraens (1870-1921) e Cruz e Sousa (1861-1898) a poetas mais modernos, como Carlos Drummond de Andrada, Mário Quintana (1906-1994) e Mauro Motta (1911-1984), passando por Cassiano Ricardo (1895-1974), Jorge de Lima (1893-1952), Augusto Frederico Schmidt (1906-1965) e Manuel Bandeira (1886-1968).

No texto de abertura, “Notas Românticas”, talvez para explicar o título do livro, Braga Horta observa que “o poema é uma espécie de mantra, ou a palavra mágica pela qual o poeta se põe em comunicação com as esferas do indizível”. Para o ensaísta, “a espécie de mantra que é o poema atua em duas direções, conforme a qualidade, o temperamento do poeta, conforme o momento do poeta: ou é – primeiro, o objeto em que este tenta cristalizar algo íntima e intensamente vivido, ou – segundo, o instrumento por meio do qual procura atingir a mais alta vibração interior, correspondente a um estado pressentido ou já antes experimentado, ou pelo menos latente de seu espírito (e nesta segunda condição melhor se lhe ajusta o conceito de mantra”.

Segundo Braga Horta, pode-se, com o cuidado de não adentrar o perigoso terreno do esquematismo, reconhecer poetas em que é mais evidente o primeiro aspecto – em geral, de tendência romântico-simbolista – e poetas em que se nota melhor o segundo – de tendência clássico-parnasiana.

IV

Nos 21 contos de Pulso Instantâneo, há como pano de fundo a presença das pequenas cidades mineiras ou a paisagem do interior de Minas, ainda que em pelo menos um deles haja a evocação de um Rio de Janeiro que já não existe. Em “Jardineira”, o autor conta a história da última viagem de uma jardineira, espécie de ônibus já antigo e mambembe que costuma circular pelas cidades do sertão brasileiro. Nesse caso, é o sertão de Minas que a jardineira cruza trepidante, passando por uma ou outra cidadezinha: “bares vazios, uma que outra mulher à janela, meninada jogando gude – a estereotipada paisagem das cidades de Minas”.

O autor recupera vidas e as esperanças daqueles passageiros que tiveram a pouca sorte de viajar na companhia de um grandalhão de bigodes que sente prazer em contar em alta voz histórias pavorosas de desastres e mortes. O final é surpreendente, tal como recomenda a receita do escritor argentino Ricardo Piglia (1941) que, certa vez, no texto “Teses sobre o conto” publicado no caderno Mais da Folha de S.Paulo, de 30/12/2001, observou que o segredo do conto bem escrito é o de contar duas histórias: uma visível e outra subjacente para, no final, a história submersa emergir à superfície e surpreender o leitor.

É isso o que o contista Braga Horta faz, ao entrelaçar essas duas histórias para só ao final deixar aflorar aquela que seguiu subjacente. É o que se pode constatar também no curto conto que dá título ao livro, “Pulso instantâneo”, que beira o fantástico. Portanto, o leitor que se interessar pela literatura praticada por Braga Horta em qualquer gênero, com certeza, nunca terá do que se arrepender.

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PULSO INSTANTÂNEO, de Anderson Braga Horta. Brasília: Thesaurus Editora/Fundo da Arte e da Cultura (FAC) da Secretaria de Estado de Cultura do Distrito Federal, 142 págs., 2008.

CINCO HISTÓRIAS DE BICHOS, de Anderson Braga Horta, tradução para o alemão de Curt Meyer-Clason. Brasília: Thesaurus Editora, 31págs., 2008.

CRIADORES DE MANTRAS: ENSAIOS E CONFERÊNCIAS, de Anderson Braga Horta. Brasília: Thesaurus Editora/ Fundo da Arte e da Cultura (FAC) da Secretaria de Estado de Cultura do Distrito Federal, 380 págs, 2007.

E-mail: editor@thesaurus.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br