Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Fernando Pessoa e os modernistas anglo-americanos

O que aproxima Fernando Pessoa (1888-1935) do poeta norte-americano Hart Crane (1899-1932)? Como ambos são herdeiros legítimos de Walt Whitman (1819-1892), obrigam-nos a olhar a tradição poética ocidental como uma tradição de cruzamentos atlânticos e referências mútuas. É o que defende em Poetas do Atlântico: Fernando Pessoa e o modernismo anglo-americano (Belo Horizonte, Editora UFMG, 2007) a ensaísta Irene Ramalho Santos, professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e professora visitante de Literatura Comparada da Wisconsin University, Madison, EUA.

Adelto Gonçalves (*)

I

Escrito originalmente em inglês e publicado pela University Press of New England em 2003, este livro parte do pensamento do norte-americano Harold Bloom (1930), o crítico literário mais famoso do mundo e professor da Yale University, autor de O Cânone Ocidental (Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 1995, tradução de Marcos Santarrita), que investiga alguns expoentes da literatura ocidental, como Shakespeare (1564-1616), Joyce (1882-1941), Beckett (1906-1989), Proust (1871-1922), Neruda (1904-1973), Borges (1899-1986) e o dramaturgo contemporâneo Tony Kushner (1956) e é considerado uma obra-prima pela crítica especializada.

Segundo a autora, a gênese de Poetas do Atlântico deve ser procurada nos seminários de poesia e poética que Bloom deu na década de 1970 em Yale aos quais ela teve oportunidade de assistir. O próprio Bloom avaliza esta obra com um prefácio curto, mas altamente esclarecedor, considerando magnífica a visão atlântica de Pessoa apresentada por Irene Santos, sem, porém, deixar de localizar o centro dessa visão em Álvaro de Campos, heterônimo “que é Walt Whitman renascido em Pessoa”.

Para Irene Santos, Poetas do Atlântico parte também do princípio teórico de que não há literatura, mas apenas inter-literatura, e de que não há cultura, mas apenas inter-cultura. “Olhando a teoria da intertextualidade bloomiana do ponto de vista da cultura, este livro parte igualmente do princípio de que não há poesia, só inter-poesia”, diz, ao justificar que os poemas “Mensagem”, de Pessoa, e “The Bridge”, de Crane, “reinventam o sistema mundial de que as duas nações são parte”.

II

Como aponta Irene Santos, há entre os poemas “Mensagem” e “The Bridge” notáveis semelhanças de inspiração, concepção e execução, embora os dois poetas, ainda que contemporâneos, provavelmente, nunca tenham ouvido falar um do outro. Mas há outras afinidades entre os dois. Ambos se envolveram com as vanguardas poéticas das primeiras décadas do século XX, viveram sempre isolados, dedicados integralmente ao desenvolvimento de sua obra, e alimentaram objetivos ambiciosos, resultado de uma fé desmedida em seu próprio talento e fazer poético.

O poeta lírico norte-americano Hart Crane é, praticamente, desconhecido no Brasil. Seu poema “Louvor para uma urna” foi traduzido primeiro por Oswaldino Marques (1916-2003) e, depois, por Augusto de Campos (1931) e Bruno Tolentino (1940-2007), tendo-se tornado mais motivo de affaire do que propriamente uma discussão proveitosa na divulgação de sua poética, como diz Eric Ponty (1968) no ensaio “Contemplação do urbano: ensaio sobre a poesia de Hart Crane”, que pode ser lido na Internet (www.paginas.terra.com.br/arte/PopBox/hcrane.htm - 29k). Nesse ensaio, Ponty apresenta algumas estrofes dos mais importantes poemas de Crane, traduzidas por ele mesmo.

Crane, diga-se de passagem, nasceu em Garrettsville, Ohio, mas teve de morar com a avó materna em Cleveland de 1909 até o divórcio dos pais em 1916, quando deixou a escola secundária e foi para a cidade de Nova York, onde encontrou estímulo para a atividade literária. Finalmente, em 1921, separou-se do pai. Por essa época, escrever poesia passou a ser seu principal objetivo. Sempre encontrou dificuldades para viver da literatura e até mesmo para sobreviver, lutando contra fases de depressão em que se entregava ao alcoolismo.

Da vida de Fernando Pessoa, não é preciso dizer muito porque é excessivamente conhecida, ao menos entre os leitores de língua portuguesa. E apresenta situações semelhantes. Só se deve acrescentar, até porque é uma aproximação a mais, que sua formação inicial foi em Durban, na África do Sul, o que lhe deu íntimo contato com a língua e cultura inglesas, levando-o até a versejar nesse idioma. Mas, acima de tudo, o que marca esses dois poetas é que são herdeiros da tradição romântica anglo-americana, em que Whitman é figura central.

Obviamente, não há muito que comparar entre o pequeno Portugal e o gigantesco país da América do Norte, mas não se pode deixar de estabelecer uma relação entre ambos como nações imperialistas, ainda que as diferenças sejam gritantes. Na verdade, o imperialismo português sempre foi um imperialismo de pobres, na definição do pensador luso Eduardo Lourenço (1923) em O Labirinto da Saudade , mas serviu para que poetas como Camões (c.1524-1580) e pensadores como o padre jesuíta António Vieira (1608-1697) hiperbolizassem as “descobertas”, considerando-as como resultado de um período de fausto e da ação de uma potência pretensamente rica e poderosa. Portugal fez tudo isso sem nunca ter sido potência e sempre na iminência de sua absorção por um vizinho mais poderoso, Castela, o que, finalmente, deu-se em 1580, depois do desastre na batalha de Alcácer Quibir, em agosto de 1578.

Sejamos claros: Portugal costuma mitificar o seu passado porque sempre teve (e tem) um futuro incerto, diante de sua exigüidade de forças e tamanho, do mesmo modo que o Brasil mitifica um futuro (que nunca chega) diante de um passado e um presente de pobreza, dificuldades e distorções sociais, apesar de toda a potencialidade da terra. No caso de Portugal, essa mitificação, que acompanha todo cidadão português desde os bancos escolares, foi o que levou Fernando Pessoa, provavelmente também influenciado por uma época de mitificação do passado empreendida pela máquina de propaganda do regime ditatorial de António Salazar (1889-1970), a idealizar em “Mensagem” o “destino manifesto” que teria Portugal no século XX como missão civilizadora do Ocidente. Um arroubo poético.

Essa mitificação, que parece ter contaminado também até a própria autora, tem servido para ludibriar alguns historiadores incautos, como o norte-americano Laurence Bergreen (1950), autor de Viagem a Marte (Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2002) e Over the Edge of the World: Magellan´s Terrifying Circumnavigation of the Globe (HarperCollins, 2003), que se refere à Escola de Sagres como “uma diversificada escola de construtores de navios, cartógrafos e marinheiros para explorar a costa ocidental da África”, comparando-a à equipe de Marte da Nasa.

Como já reconheceu a própria Academia Portuguesa da História, não se tem notícia de documento nem de ruínas que provem que, algum dia, a Escola de Sagres possa ter existido no sentido do que se entende o que seria uma escola: um grupo de sábios elaborando teorias para se chegar ao fim do mundo. Aliás, nada impede que se faça a comparação dos Descobrimentos com a corrida espacial, mas é preciso que se diga que, quando o Infante Dom Henrique instalou-se em Sagres, o saber marítimo português era absolutamente empírico, pré-científico. Nem eram os portugueses os mais avançados na arte da navegação. Nada disso invalida a importância das “descobertas”, mas é preciso ir mais devagar com o andor.

III

Como se tratam de dois poetas, ficamos, portanto, no plano da idealização. E nesse sentido tudo é possível, inclusive o sonho pessoano de considerar o Oceano Atlântico um centro definidor das nações que aparentemente lideradas por Portugal dariam forma ao futuro: a Península Ibérica, a Irlanda e as Américas. Ou seja, Pessoa acreditava firmemente na restauração do novo império português, o que nunca foi muito bem recebido por admiradores menos nefelibatas de sua obra, como João Gaspar Simões (1903-1987), que escreveu a sua primeira biografia, Jorge de Sena (1919-1978) e Adolfo Casais Monteiro (1908-1972).

Segundo Irene Santos, tanto “Mensagem” como “The Bridge” aspiram a traduzir o império material de uma nação, seja ela uma potência em declínio ou em ascensão, no império espiritual da poesia. “Crane teve de lidar com o embaraço de tornar digno da poesia o materialismo crasso do emergente império americano. Pessoa, por sua, vez, poeta bilíngüe educado em escolas inglesas na África do Sul até aos 17 anos, por isso herdeiro, não de um, mas de dois impérios, teve de se dar conta de que o império português era praticamente inexistente ao final do século XIX, dada a sua dependência do império britânico, antes de poder re-inventar a poesia portuguesa como imperialismo cultural”, escreve.

Deve-se reconhecer, porém, que Crane nunca embarcou nas celebrações eufóricas de Whitman, deixando claro que não via com bons olhos a expansão a qualquer preço que a industrialização e a acumulação capitalista traziam. Até porque ele mesmo nunca foi um usufrutuário das benesses do capitalismo, tendo militado sempre nas classes subalternas, como Pessoa. Isso não o impediu de ver na Ponte de Brooklyn a metáfora ou o mito originário da América como a Terra Prometida, a Canaã. Se tivesse vivido até este começo de século XXI, talvez imaginasse agora que essa ponte começa a balançar perigosamente para, quem sabe, um dia, ruir...

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POETAS DO ATLÃNTICO: FERNANDO PESSOA E O MODERNISMO ANGLO-AMERICANO , de Irene Ramalho Santos, com prefácio de Harold Bloom. Belo Horizonte: Editora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), 421 págs., 20007.

E-mail: editora@ufmg.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br