Camilo Pessanha: os mitos destruídos

Adelto Gonçalves (*)

I

Que as histórias de vida de nossos grandes poetas sempre andaram mal contadas, ninguém duvida. Que muitos foram vítimas de historiadores literários apressados, que preencheram com a imaginação as lacunas que a falta de documentos deixava, também já se sabia. Agora, que outros foram alvo de picuínhas ou vinganças tardias de que já não puderam se defender só o tempo, senhor da razão, vai deixando perceber.

É caso de Camilo Pessanha (1867-1926), um dos maiores representantes do Simbolismo português, de quem Paulo Franchetti, professor titular de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), acaba de lançar um esboço biográfico (vida e obra) pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de Lisboa: O essencial sobre Camilo Pessanha, dentro de uma coleção que vem recolhendo o fulcro do pensamento de várias personalidades intelectuais da vida portuguesa.

De Camilo Pessanha, antes de prosseguir, é preciso lembrar que, nascido em Coimbra, filho de um estudante de Direito e de sua governanta, embora registrado como de pai incógnito, viveu com os progenitores nos Açores e, depois, no Lamego. Formado em Coimbra em 1891, foi aprovado em concurso para lecionar no recém-criado Liceu de Macau, para onde viajou em 1894, lá ficando até a morte. Desde então, em Portugal só esteve durante apenas quatro curtos períodos, valendo-se de licenças médicas.

II

Que muitas informações de que se tinha conhecimento não batiam com outras que andavam espalhadas por testemunhos dispersos, já se sabia. E, portanto, tudo isso causava desconfiança. Tanto que todo crítico consciencioso sempre procurava ressaltar esses dois ângulos antagônicos: de um lado, a personalidade abúlica que se atribuía ao poeta, alguém que, no exílio voluntário em Macau, precisava do estímulo do ópio para fugir de um meio medíocre; de outro, o homem realizado profissionalmente que, influente e reconhecido na fechada sociedade portuguesa da colônia, chegara a juiz e a membro de uma loja maçônica e que, a um ano de sua morte por tuberculose, fora nomeado reitor substituto do Liceu Português.

Convenhamos que alguém andasse pelas ruas de Macau com sua figura esquálida, de saúde frágil e longas barbas negras, como um molambento, certamente, não chegaria tão longe. Portanto, algo devia andar errado nos estudos biográficos que se conhecia.

Foi, portanto, para passar a limpo algumas dessas informações equivocadas que Franchetti colocou-se a campo. Autor de vários estudos sobre a obra do poeta, como “Camilo Pessanha e a China” (In: Estudos Portugueses e Africanos, nº 11, Campinas, IEL/Unicamp, 1989), “Camilo Pessanha -- algumas considerações em contributo à sua biografia” (In: Estudos Portugueses e Africanos, nº 21, Campinas, IEL/Unicamp, 1993), “Camilo Pessanha e o Liceu de Macau” (In: Voz Lusíada, nº 5, São Paulo, Academia Lusíada de Ciências, Letras e Artes, 1995) e Nostalgia, Exílio e Melancolia -- Leituras de Camilo Pessanha (São Paulo, Edusp, 2001), o crítico atirou-se a uma tarefa nada fácil.

Afinal, ao contrário do poeta Wenceslau de Moraes (1854-1929), que viveu a maior parte de sua vida no Oriente, mais especificamente no Japão, prolífico escritor de cartas, Pessanha não teria sido muito amante da epistolografia, arte que, como se sabe, foi, nos últimos tempos, praticamente, condenada à morte pela revolução digital. Mas se foi um grande epistológrafo, é bem possível que as cartas que escreveu ao longo da vida tenham-se perdido para sempre.

Portanto, aqueles que se dedicaram a levantar traços biográficos de Pessanha acabaram limitados a testemunhos não só confusos e fantasiosos como pouco confiáveis, em razão das muitas inimizades que o poeta disseminou por Macau, até mesmo por força das funções que exerceu como juiz e advogado. Aliado a isso, é de lembrar que a aura de poeta amargurado, que preferira as agruras do desterro voluntário ao Portugal acanhado de seu tempo, era tudo o que o esfumaçado ambiente de décadence do seu tempo valorizava.

III

Um desses mitos contra os quais Franchetti investe é o de que não teria sido um bom conhecedor da língua e da cultura chinesas. Aliás, pode-se até aceitar que Pessanha tenha tido a colaboração do sinólogo José Vicente Jorge ou outro letrado chinês para traduzir/recriar as peças que compõem “As Oito Elegias Chinesas”, que publicou no semanário O Progresso, de Macau, nas edições de 13 e 20 de setembro e 4 e 18 de outubro de 1914. Mas a questão, como argumenta Franchetti, é que aqueles que fizeram tal tipo de avaliação também nunca deram nenhuma prova de que sabiam o que estavam a avaliar. A partir daqui, o autor desfila uma série de argumentos que mostram que a biografia de Pessanha tem sido tecida por uma longa lista de fantasias insustentáveis.

Um desses críticos nada rigorosos, acusa Franchetti, é Francisco de Carvalho e Rego, que, sob o pseudônimo Francisco Penajóia, escreveu uma pretensa biografia do poeta, publicada na revista Renascimento, de Macau, v.4, nº 4, em 1944. Outro é Guilherme de Castilho, que escreveu “Apontamentos dum caderno de viagem -- Camilo Pessanha em Macau”, artigo publicado n´O Comércio do Porto, de 13/4/1954, e “Dois elementos para a ‘pequena história’ de Camilo Pessanha”, que saiu n´O Primeiro de Janeiro, do Porto, de 15/8/1962, textos, aliás, que serviram de base para a parte biográfica do livro Camilo Pessanha, de João Gaspar Simões (Lisboa, Arcádia, 1967).

Além de chamar Pessanha de medroso, mostrando-o como homem displicente com seus trajes, desprovido de pontualidade e senso de obrigação, Penajóia não só colocou em dúvida a sua capacidade oratória como jurista como lhe atribuiu uma personalidade abjeta a quem, ao morrer, “quase abandonado, coberto de chagas”, poucos amigos teriam acompanhado em seu enterro. Nada disso, porém, é confirmado por outros testemunhos.

Pelo contrário. Franchetti lembra o testemunho do sinólogo José Vicente Jorge, preservado por Danilo Barreiros, seu genro, segundo o qual “o poeta tinha profundo conhecimento teórico da língua chinesa e um apreciável manejo da língua falada”. Argumenta ainda que basta olhar fotos de Camilo Pessanha, num rigoroso figurino de época, para certificar-se de que, pelo menos até 1915, a sua figura externa estava muito mais próxima do dândi “do que do mendigo sujo que alguma tradição tentou fixar”.

Quanto à abulia que se costuma atribuir a Pessanha, o biógrafo admite que o poeta podia alternar momentos de grande atividade e energia com outros de fraqueza e prostração. “Mas não há por que tomar por mais legítimo e definir a personalidade do poeta apenas por um desses momentos”, diz.

IV

Outro mito contra o qual investe é o de que o autor seria um poeta sem escrita, fantasia que começou a ganhar corpo a partir de uma entrevista que a escritora Ana de Castro Osório deu ao Diário de Lisboa, de 21/4/1921, pouco meses depois que sua casa editora, a Edições Lusitânia, havia publicado Clepsidra, único livro de versos de Camilo Pessanha. Nessa entrevista, depois de chamar o poeta de tímido e misantropo, afirmou que ele não escrevia seus versos, guardando-os de memória. A fim de que não se perdessem, disse, resolveu pedir-lhe que ditasse algumas de suas poesias para que as anotasse.

Segundo Franchetti, João de Castro Osório, filho de Ana de Castro Osório, assumindo-se como herdeiro do espólio literário de autor, também procurou mostrar-se como “salvador” da obra, mas o que os documentos mostram é que sua participação foi modesta: um poema anotado a partir do ditado de Pessanha, corrigido depois pelo poeta. Teria também, ao longo dos anos, trabalhado na fixação do texto e da ordem dos poemas no livro.

Mas, diz Franchetti, deixou muito a desejar quanto ao rigor e confiabilidade dos registros de variantes. Felizmente, restaram um caderno de Camilo Pessanha, que foi depositado no Arquivo Histórico de Macau, e a documentação que consta do acervo da Biblioteca Nacional de Lisboa. É com base nessa documentação que tanto Franchetti quanto Daniel Pires, responsável pelo prefácio e fixação do texto de Clepsidra e outros poemas (Lisboa, Livros Horizonte, 2006), tem desenvolvido seus últimos trabalhos sobre o poeta.

No caderno de Macau, o poeta colou vários recortes de publicações de poemas seus, corrigindo-os. A reprodução em 1984 das páginas desse caderno, observa Franchetti, serviu para colocar um ponto final na imagem pouco crível, mas persistente e amplamente divulgada, de Pessanha como um poeta sem escrita. Mesmo assim, por força da repetição, a imagem continuou a vigorar por mais tempo.

Seja como for, a verdade é que ainda falta um trabalho mais profundo de reconstrução da biografia de Camilo Pessanha, que tanto Franchetti como Pires reúnem todas as condições de levar a efeito. Como diz o próprio título da coleção da IN-CM, este livro procurou trazer à luz apenas o “essencial” sobre a vida e a obra de Camilo Pessanha, tratando de destruir de vez alguns mitos e equívocos que ainda podem levar historiadores literários ou investigadores acadêmicos menos atentos a repetições indevidas. Com certeza, todas essas fantasias levantadas a respeito de um poeta mitificado pela distância pertencem a uma maneira romântica de conceber a vida dos escritores, que hoje já perdeu o sentido.

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O ESSENCIAL SOBRE CAMILO PESSANHA, de Paulo Franchetti. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda,112 págs., 5 euros, 2008. Site: incm.pt

E-mail: [email protected]

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: [email protected]

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Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey