Simbolismo e hermetismo

Adelto Gonçalves (*)

I

Responder ao que Anna Balakian (1915-1997), antiga diretora do Departamento de Literatura Comparada da Universidade de Nova York e reconhecida scholar na área de Simbolismo e Surrealismo, questionou há quase quatro décadas foi o que moveu os participantes do Simpósio Hermetismo e Simbolismo, realizado nos dias 9 e 10 de dezembro de 2004, na Universidade de Saragoça, Espanha, sob a coordenação dos professores Luis Beltrán Almería e José Luis Rodríguez García.

E o que questionou Anna Balakian? Quem conhece o seu livro El movimiento simbolista (Madri, Guadarrama, 1969) sabe que a teórica tentou encontrar respostas para várias questões, como saber se o Simbolismo constituiu uma reação ao Romantismo. Ou se foi uma continuação da estética do Romantismo. Ou ainda se foi um movimento paralelo ao Naturalismo ou sua síntese.

Mais: quais foram os seus pontos de contato com outros conceitos similares, como decadente, impressionista, hermético e imagista? Até que ponto teve uma origem comum com o Surrealismo? Como e onde manteve melhor sua originalidade frente a outros movimentos literários? Qual foi a contribuição do Surrealismo e do Modernismo?

Além dos dois professores organizadores, mais oito estudiosos foram convidados para dar respostas a tais questões, sete espanhóis e um brasileiro, Massaud Moisés, professor titular aposentado de Literatura Portuguesa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e autor de uma vintena de obras, entre as quais se destacam os três volumes de As estéticas literárias em Portugal (Lisboa, Caminho, 1997-2002). As respostas a tantas interrogações podem ser encontradas nos dez ensaios reunidos em Simbolismo y Hermetismo: aproximación a la modernidad estética, publicado por Prensas Universitarias de Zaragoza em janeiro de 2008.

No ensaio que abre o volume, “Hermetismo y Simbolismo. Aproximaciones”, Massaud Moisés observa que é difícil afirmar que a poesia de William Butler Yeats (1865-1939) e Fernando Pessoa (1888-1935) seja fruto da crença esotérica e não produto de uma inclinação do intelecto e da sensibilidade que encontra no hermetismo a atmosfera mais adequada para a sua eclosão. “A mais de um século de distância, tem-se a impressão que o progresso da arte poética desde o Romantismo se encaminhara, de algum modo, para o que mais tarde se converteria na arte simbolista. Isto aconteceria, antes ou depois, por uma espécie de imperativo histórico que substituía a ordem clássica pela aventura romântica como já observara Guillermo de Torre (1900-1971), e que refutava o absoluto inerente à arte vinculada aos clássicos greco-latinos em favor do individualismo procedente da ascensão da burguesia à pirâmide social, em conseqüência do declínio das velhas monarquias”, diz (pp.43-33).

II

Dentro dessa mesma linha de pensamento, em “Ficcionalidad y Hermetismo”, Antonio Garrido Domínguez, professor de Teoria Literária da Universidade Complutense de Madri, lembra que o Simbolismo constitui uma realidade inerente à literatura hispano-americana contemporânea, fato a que não é alheia a atração que sentem seus cultivadores pelo fantástico em suas diversas manifestações, como os argentinos Jorge Luis Borges (1899-1986), Adolfo Bioy Casares (1914-1999), Julio Cortázar (1914-1984) e guatemalteco Augusto Monterroso (1921-2003).

Como exemplo, porém, Garrido Domínguez cita quatro textos curtos do mexicano Juan José Arreola (1918-2001), La mijada, El prodigioso miligramo, El guardagujas e Parábola del trueque, que constam de Confabulario (México, Editorial Joaquín Mortiz, 1975), livro que apareceu pela primeira vez em 1952. E o fez muito bem. Porque ninguém mais que Arreola pode bem representar o realismo fantástico, esse ramo do Simbolismo, na literatura hispano-americana, movimento que, diante da impossibilidade do homem de aceder ao conhecimento de si mesmo, procurou radicalizar a busca do lado oculto da realidade.

Diz o ensaista que, para aceder a nós mesmos, é preciso recorrer ao “êxtase”, ou seja, situar-nos fora de nós mesmos, e tal estágio só se consegue partindo do real, mas transgredindo-o por meio do “como se” ou, o que é o mesmo, extendendo-nos mais além de nós mesmos e projetando-nos de nossas possibilidades. Foi o que sempre fez Arreola, um contista de uma originalidade sem par nas literaturas espanhola e hispano-americana, que, na brasileira, só poderia ser comparado a Murilo Rubião (1916-1991), autor de O ex-mágico (1947), O pirotécnico Zacarias (1974), O homem do boné cinzento e outras histórias (1991) e outras obras que foram rotuladas como realismo fantástico.

III

Para bem ilustrar o que afirma, Garrido Domínguez faz um resumo de El prodigioso miligramo, que, em linhas gerais, conta como o autoritário regime das formigas se encontra primeiro com a dissidência de uma formiga que decide transportar um chamativo miligramo (milésima parte do grama), em vez de levar a carga assinalada para o sustento coletivo. O castigo imposto é a morte da formiga dissidente, mas, como ocorre aos mártires de uma causa, a morte da formiga que preferiu não renunciar as suas convicções desperta em suas irmãs de raça o imperioso desejo de imitar o seu comportamento até o ponto que a hierarquia se vê obrigada a condescender para evitar males maiores. Qualquer semelhança com agrupamentos humanos, obviamente, não é mera coincidência.

Em La migala, conto de pouco mais de duas páginas, um dos protagonistas também não é humano, mas animal, ou melhor, uma aranha gigantesca, pela qual o narrador se sente atraído a ponto de comprá-la de um saltimbanco numa imunda feira de rua. Levando-a para casa, certo dia, sente-se instado a libertá-la da caixa de madeira em que a comprara. Desde então, vive dias de horrores, pois não sabe nunca quando a gigantesca aranha pode aparecer para picá-lo. Compara-a, assim, a sua mulher Beatriz, companhia tão buscada quanto temida, exercitando uma problemática que Arreola sempre teve presente em seus relatos: a questão do relacionamento do casal dentro do matrimônio.

Já em Parábola del truque, são humanos os personagens do conto, embora as mulheres a que se refere o narrador mais pareçam andróides. Seja como for, o conto mantém a dimensão alegórica que caracteriza a maioria dos relatos de Arreola. Nesse conto, o povoado onde reside o narrador vê sua normalidade alterada com a chegada de um mercador que oferece um “produto” muito apreciado -- mulheres de grande beleza que brilham ao sol --, disposto a fazer um negócio aparentemente vantajoso para todos: trocar estas mulheres novas pelas esposas de cada um dos homens do lugar.

O resultado é previsível: não houve quem, seduzido pela novidade e pela promessa de prazeres infindos, não quisesse trocar sua mulher (já marcada pela passagem dos anos) por um daqueles seres novinhos em folha que o mercador oferecia. A única exceção é o próprio narrador, que prefere ficar com Sofia, sua mulher, arrastando, assim, a ira dos demais homens do povoado, todos inconformados com sua fidelidade à esposa.

Até mesmo Sofia desconfia dos motivos que teriam levado o marido a não trocá-la, considerando que não havia sido carinho o que o havia motivado a permanecer perto dela, mas apenas covardia e medo do futuro. Assim segue o curto relato até que os homens descobrem que haviam sido vítimas de um logro: logo as mulheres que haviam adquirido começam a perder a cor e a oxidar-se, feitas que eram de material ordinário.

A verdade simbólica que se esconde atrás desta parábola é que as aparências sempre enganam e que as conseqüências para quem se deixa seduzir por elas, sem levar em conta outras considerações, podem chegar a ser funestas.

IV

El guardagujas, o mais extenso dos relatos escolhidos por Garrido Domínguez, é também o mais ambíguo e o mais rico de conteúdo, ou seja, aquele que dá ensejo a um maior número de interpretações ou conclusões. A história -- que já foi chamada de kafkiana por alguns críticos -- representa um mundo às avessas, de sinais trocados, ao mostrar como funciona uma companhia ferroviária em que é ela mesmo quem decide o destino de cada passageiro.

Conclui-se, portanto, que é a Providência -- à falta de melhor definição -- que decide se o comboio virá ou não, que rumo seguirá, se levará os viajantes à estação desejada ou os abandonará no meio do caminho. Tem ainda esta todo-poderosa companhia agentes infiltrados que ouvem o que conversam os passageiros e acompanham todos os seus movimentos. Qualquer semelhança com aqueles regimes autoritários que infelicitaram por tantos anos não só as nações hispano-americanas, portanto, não é mera coincidência.

V

Salvo engano, dos livros de Arreola, em português do Brasil só apareceu um: Confabulário Total, publicado em 1968 pela Edinova, hoje obra rara. Se a memória não me trai, o conto Parábola del trueque também saiu numa edição especial dedicada ao conto hispano-americano pela extinta revista Status, de São Paulo, ao final da década de 70, dirigida por Gilberto Mansur.

Pela escolha de Garrido Domínguez -- que não é a de um mercador de letras, mas a de um professor que vê as letras com os olhos da paixão --, percebe-se com facilidade que o fato de Arreola não ter tido os seus demais livros, como Palíndroma, Varia invención, Bestiario, La feria, Arte de letras menores, Memoria y olvido, Hombre, mujer y mundo e Poemas y dibujos, entre outros, traduzidos ao português, constitui uma prova da indigência mental da maioria daqueles que se ocupam (ou se ocuparam) da atividade editorial no Brasil.

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SIMBOLISMO Y HERMETISMO: APROXIMACIÓN A LA MODERNIDAD ESTÉTICA, de Luis Beltrán e José Luis Rodríguez García (coordenadores). Saragoça: Prensas Universitarias de Zaragoza,184 págs., 2008.

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: [email protected]

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Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey