Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Imprensa e história no Rio de Janeiro dos anos 1950

Mais informações sobre o livro em http://www.e-papers.com.br

Segue a apresentação do livro que, assim como o sumáio, está disponível no site.

Apresentação

Imprensa e história no Rio de Janeiro dos anos 1950

de Ana Paula Goulart Ribeiro, professora da Escola de Comunicação da UFRJ.

Relacionar imprensa e história parece, aparentemente, tarefa simples. Realizar estudos que procuram interpretar um dado período do passado, no qual a imprensa figura como ator central, aparentemente também se coloca como um viés temático recorrentemente enfocado. Entretanto, complexificar a análise visualizando as relações de poder, as operações memoráveis e, sobretudo, interligando o texto ao contexto se transforma numa tarefa que apenas poucos pesquisadores são capazes de realizar. E é exatamente isso que este livro, que estuda o cenário de modernização porque passou a imprensa do Rio de Janeiro nos anos 50, faz com maestria.

Ao analisar em profundidade as mudanças ocorridas nos grandes jornais diários do Rio de Janeiro nos anos 50, jornais esses que passaram a história como atores principais do movimento de modernização da imprensa carioca, mostra os passos fundamentais para a implantação dos cânones do chamado "jornalismo objetivo", pautados nas reformas redacionais, editoriais e administrativas que deram uma nova feição aos jornais diários da cidade.


Mostrando as correlações, ingerências e discursos míticos desse processo, a autora enfatiza o fato de a modernização do jornalismo da década de 1950 ter sedimentado uma série de mudanças que já vinha sendo implementada desde a primeira década do século e que encontra na conjunta história dos anos 50 eco favorável ao discurso da neutralidade.
O que se procura construir naquele momento é a autonomização do campo jornalístico em relação ao literário, fundamental para a autoconstrução da legitimidade da própria profissão. Assim, as reformas dos jornais da década de 1950 devem ser lidas como o momento de construção, pelos próprios profissionais, do marco-fundador de um jornalismo que se fazia moderno e permeado por uma neutralidade fundamental para espelhar o mundo. A mítica da objetividade - imposta pelos padrões redacionais e editoriais - é fundamental para dar ao campo lugar autônomo e reconhecido, construindo o jornalismo como a única atividade capaz de decifrar o mundo para o leitor.

Como enfatiza autora, a modernização gráfica, editorial, lingüística e empresarial dos jornais diários do Rio de Janeiro representa para a imprensa a instauração de um lugar institucional que lhe permite, a partir de então, enunciar as verdades dos acontecimentos de forma oficializada e se constituir como registro factual por excelência. A partir desse momento, o jornalismo se afirma enquanto fala autorizada em relação à constituição do real. O discurso jornalístico se reveste da aura de fidelidade aos fatos, o que lhe confere considerável poder simbólico.
Através de uma pesquisa de fôlego - em que centenas de edições de jornais são analisadas, além de outras publicações especializadas, arquivos de jornalistas, entrevistas com os profissionais que participaram do processo, entre outras fontes - mostra com lucidez que o espírito do tempo dos anos JK, em que desenvolvimentismo e modernização são palavras de ordem, contagiaram os jornais diários mais importantes da cidade que se apressam em se transformar e, o mais importante, construir aquele momento como marco fundador de transformações decisivas no campo jornalístico.
A década de 1950 passa à história pelas narrativas dos próprios homens de imprensa como o momento mais singular de sua trajetória, quando uma série de mudanças introduzidas no processo de produção dos jornais diários transforma inteiramente a face do jornalismo que se faz no País. Começa aí, no dizer desses atores sociais, a nova imprensa brasileira. Constrói-se, portanto, um discurso pós-fato, que sedimenta a mítica da modernização dos anos 50.


São muitos os méritos desse trabalho do ponto de vista da construção de uma pesquisa fundadora de uma história da imprensa no Brasil enfocando um período de enorme importância pela singularidade como foi construído como evento memorável. Entre eles, figuram o fato de a pesquisa visualizar o aspecto processual fundamental quando se quer construir uma re-interpretação do passado. Ao se debruçar sobre o passado o que se produz não é a reconstrução dos fatos tal como eles se deram, na sua inteligibilidade absoluta, já que o passado está irremediavelmente perdido nas fimbrias da sua própria narrativa. Também não se deve focar o passado permeado pelos horizontes de expectativas do futuro que se tornam presentes.


Fazendo isso estaríamos imputando ao passado uma espécie de dívida que o presente constrói. O valor do estudo do passado está no fato de que a re-interpretação que produzimos poder fornecer perspectivas que permitam compreender o mundo que se coloca a nossa frente. Afinal, aquele que dirige o olhar para o passado - o pesquisador - está ele mesmo inserido no presente.

É esse olhar que visualiza a história como um processo e, sobretudo, a imprensa na sua relação com o social que este livro privilegia. Ao mesmo tempo, visualiza-a como integrante de um processo comunicacional, no qual tem importância o conteúdo, o produtor da mensagem e a forma como o leitor entende os sinais emitidos pelos impressos. Procura destacar, também, a dimensão histórica de um mundo pleno de significados, no qual se localizam os meios de comunicação. Portanto, a dimensão interna e externa são contempladas e, dessa forma, visualiza a história a partir de um espaço social considerado, interpretando os sinais que chegam até o presente a partir das perguntas subjetivas e do olhar, igualmente subjetivo, que se pode
dirigir ao passado. Trata-se, portanto, de um livro fundamental, completo e definitivo para o entendimento dos processos culturais envolvendo a mídia no período.
Mas o leitor que se aventure nessas páginas que vão reconstruir os processos comunicacionais dos anos 50 talvez se pergunte ainda: Por que estudar o passado? Por que refletir sobre processos comunicacionais à luz de sua condição passada e não presente, onde afinal existem fatos que se oferecem imediatamente à contemplação?

Responder as essas questões, tão subjetivas quanto qualquer análise, pressupõe inserir na reflexão a questão do tempo. Cabe a história fornecer uma dimensão temporal à consciência que homem possui de si mesmo. O mundo presente neste início de século XXI, na verdade já existiu sob a forma de futuro desconhecido e muitas vezes ameaçador para outros homens que, numa linha fictícia e ilusória de um tempo linear e orientado, estavam em relação ao "hoje" localizados no passado.
Existem variadas maneiras de se fazer história e sua forma narrativa assume um aspecto ou outro em função da trama engendrada e dos objetivos do pesquisador. Pode-se salientar a mudança e a transformação no processo histórico, como se pode privilegiar a sincronia, acentuando o fato na continuidade estrutural. O pesquisador pode achar também que sua tarefa é evocar um certo espírito do passado ou acreditar que lhe cabe desvendar o que está por detrás dos acontecimentos a fim de revelar princípios inalienáveis de uma época. Qualquer que seja a relação do historiador com o seu objeto não se pode eliminar o sujeito histórico que procede a uma reconstrução do passado ao contar aquela história.
Qualquer que seja esta relação não podemos esquecer também que estamos tentando "conversar com os mortos" e nesta tarefa escolhendo entre possibilidades numa vida que sempre é permeada por contradições. Impor uma coerência a esse feixe de contradições também faz com que o pesquisador que procura no passado o objeto de sua reflexão, como qualificou magnificamente Robert Darnton, esteja na verdade brincando de "ser Deus".

Marialva Barbosa