Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Gripe aviária: Vacina é a melhor arma

A partir deste mês, o Brasil estará apto a iniciar a produção da vacina contra o vírus H5N1, causador da atual epizootia* de gripe aviária. As doses serão fabricadas na unidade piloto instalada no Instituto Butantã, em São Paulo, em caráter experimental, a partir de recursos aplicados pelo Ministério da Saúde. Depois de produzida, a vacina será submetida a testes para aferir sua segurança e eficácia, constituindo-se em um importante aprendizado para que o país possa, no futuro, produzir a vacina contra a cepa do vírus que vier a ser responsável pela pandemia de influenza. A iniciativa é uma das ações do governo federal para se combater uma possível pandemia da doença. Até o momento, a epizootia de gripe aviária já causou a morte de mais de 200 milhões de aves.

O subtipo H5N1 além de se propagar rapidamente entre as aves, também acometeu pessoas que tiveram contato direto com os animais doentes, registrando-se a morte de 101 pessoas no leste da Ásia e no Oriente Médio. No Brasil, não há registro de casos da doença em aves ou em seres humanos, mas, desde o ano passado, o governo vem se preparando para enfrentar a entrada do vírus no país e para a possibilidade de um cenário futuro, onde esse subtipo do vírus da influenza aprenda a se transmitir entre pessoas.

Nesta entrevista ao Em Questão, o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa, fala como o governo vem atuando para proteger a população brasileira de uma futura pandemia de gripe, com a compra antecipada de medicamentos, investimento na produção de vacinas, orientações em pontos de entrada e saída do país, fortalecimento da capacidade de detecção precoce de casos etc. O secretário também explica como as campanhas de vacinação já realizadas anualmente pelo Brasil podem contribuir, em outros países do mundo, para se evitar uma futura pandemia de gripe aviária.

Em questão - Como o Brasil está se preparando para uma possível pandemia de gripe no mundo?

Jarbas Barbosa – As medidas internacionalmente reconhecidas como eficazes já foram adotadas no país. O Ministério da Saúde fez uma compra do medicamento anti-viral oseltamivir (Tamiflu), que tem efetividade contra qualquer um dos subtipos do vírus da influenza. O Brasil adquiriu noventa milhões de doses do Tamiflu, medicamento que será usado tanto para tratar as pessoas que adoeceram como para bloquear a transmissão do vírus. Pessoas que tiverem contato com alguém infectado e tomarem duas doses do Tamiflu em até 48 horas, têm uma grande chance de não vir a adoecer porque o vírus seria inativado e também não ocorreria transmissão do vírus. Outra ação importante diz respeito à vacina. O Brasil começou a construir, em 2003, uma fábrica de vacinas contra a gripe que pode produzir tanto vacina contra a gripe pandêmica como a vacina contra a gripe sazonal que utilizamos todos os anos para proteger os idosos. Essa fábrica, que é um investimento de R$ 30 milhões do governo federal e cerca de R$ 20 milhões do governo de São Paulo, será a primeira localizada num país não desenvolvido e coloca o Brasil numa situação diferenciada para responder à ameaça de uma pandemia. Como a fábrica só estará pronta em 2007, o Ministério da Saúde passou recursos adicionais para o Instituto Butantã e nós já temos uma unidade piloto pronta para começar a fabricar vacinas contra a gripe a partir do mês de abril. É lá que nós vamos fabricar as primeiras 20 mil doses contra o vírus H5N1 e depois testá-las para avaliar a sua efetividade. O Ministério da Saúde, em seu Plano de Preparação, elaborou, em conjunto com especialistas, normas técnicas para atendimento em hospitais de pacientes que possam ter contraído a doença, medidas de biossegurança, orientações para os médicos de como tratar os casos que sejam identificados, entre outras medidas importantes para antecipar as respostas a uma pandemia de influenza.

EQ - A vacina será a forma mais eficaz de se combater uma pandemia de gripe aviária? Como o Brasil vai atuar caso seja necessária uma vacinação em massa?

JB – Sim, a vacina será a melhor arma. O problema é que a vacina contra a gripe é específica para cada subtipo do vírus. Assim, só poderá ser iniciada a fabricação quando for conhecido qual o subtipo que está provocando a pandemia. O Brasil tem muita experiência em vacinações de grandes contingentes populacionais, tendo realizado campanhas de vacinação que imunizam milhões de pessoas ao mesmo tempo. Há países desenvolvidos que precisarão fazer simulações para aprender como se vacina milhões de pessoas em curto período de tempo. A Organização Mundial de Saúde recomendou, em novembro de 2005, aos países desenvolvidos que oferecem vacina contra a gripe para os idosos, que procurassem atingir uma cobertura vacinal de 75% até o final de 2005. O Brasil já atingiu, no ano passado, 86% de cobertura vacinal, o que demonstra a vitalidade do Sistema de Saúde brasileiro. Outra vantagem da alta cobertura vacinal contra a gripe sazonal é reduzir as possibilidades do H5N1 aprender a se transmitir entre seres humanos. Um dos caminhos que o H5N1 pode percorrer para realizar esse aprendizado é infectar uma pessoa que esteja também infectada com o vírus de influenza humana. A troca genética entre os dois vírus pode produzir umterceiro que seja capaz de se transmitir entre pessoas. Assim, quanto menos gente estiver infectada com o vírus da influenza humana, diminuem as chances de ocorrer esse fenômeno.

EQ - Existe alguma medida de identificação precoce do vírus H5N1, caso ele chegue ao Brasil?

JB – O caminho mais provável da chegado do vírus H5N1 ao Brasil é por meio de alguma ave silvestre que migre de um local onde haja ocorrência do mesmo. Nesse caso, a medida principal será realizada pelo Ministério da Agricultura e Secretarias Estaduais de Agricultura, que é a rápida contenção, com a eliminação de todas as aves num raio de 3 Km, para impedir que o rebanho avícola brasileiro seja contaminado. Para o monitoramento da influenza humana, o Brasil já tem 46 unidades sentinelas que fazem continuamente a busca de identificação viral, numa amostra das pessoas que procuram essas unidades com sintomas de síndrome gripal. Essas unidades colhem o material, mandam para o laboratório e é feita a identificação do vírus. Essa rede é importante por dois motivos. Primeiro, com essa ação, garantimos que a vacina aplicada todos os anos contra a gripe sazonal tenha os três subtipos que efetivamente correspondam aos que mais circulam no Brasil, aumentando sua eficácia. E, por outro lado, essa rede apóia a identificação de surtos de influenza em ambientes fechados como quartéis, creches, asilos que geralmente tem uma gravidade maior. Se ocorrer algum subtipo inusitado, ele será rapidamente detectado.

EQ - Existe alguma medida adotada pelo governo em portos, aeroportos e fronteiras em relação à doença? Deve-se evitar viajar para países onde foram detectados casos da gripe aviária?

JB - Estamos adotando nesse momento uma comunicação para os viajantes que vão se dirigir aos países onde há casos de gripe aviária para que evitem contato com aves. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ligada ao Ministério da Saúde, já está realizando essa divulgação nos aeroportos. São panfletos que orientam as pessoas que vão a esses países para não freqüentarem locais como fazendas de aves e mercados onde se faz abates desses animais. Não há nenhum sentido em não realizar viagens para qualquer país do mundo por conta de gripe aviária, nem evitar a alimentação com frango, desde que o mesmo seja devidamente cozido ou assado.

EQ – Em épocas diferentes, o mundo já passou por três pandemias de gripe. É possível se projetar um cenário da gripe aviária a partir da experiência que já tivemos com esses outros tipos de gripe?

JB – Não, porque as doenças ocorreram em contextos muito diversos. A gripe espanhola (1918/1919) foi uma pandemia de alto impacto na morbidade e na mortalidade do mundo naquela época. Era uma época específica, Primeira Guerra Mundial, fome na Europa, populações migrando aos milhões por conta da guerra e tínhamos uma escassez de recursos tecnológicos, por exemplo, não havia antibióticos naquela época. Grande parte das mortes que ocorreram na gripe espanhola foram relacionadas com as pneumonias bacterianas que podem ocorrer posteriormente a uma gripe e para a qual na época não se tinha muito recurso. A gripe asiática e a gripe de Hong Kong ocorridas nos anos 50 e 60, respectivamente, foram incomparavelmente mais benignas do que a gripe espanhola. No Brasil, por exemplo, essas pandemias sequer chegaram ser percebidas como um problema grave de saúde pública. Assim, não é possível prever quando nem com que gravidade ocorrerá a próxima pandemia e, por isso, temos que estar bem preparados.

*doença que ocasionalmente se encontra em uma comunidade animal, mas que se dissemina com grande rapidez e apresenta grande número de casos.