Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Vestimentas e vacinas

Vestimentas e vacinas

  

Adilson Roberto Gonçalves

 

Colocar a mão em roupas íntimas que protegem órgãos também íntimos não é higiênico, ainda mais de forma contínua, sem lavar e continuar a tocar outras coisas, certo? Então, pensemos a máscara para nos proteger da transmissão viral como tais vestimentas íntimas e os órgãos a proteger sejam o nariz, a boca e o queixo. Não ajeitamos as roupas íntimas a todo instante, então não repitamos com a máscara, ainda mais tocando-a pela frente. Abaixamos a roupa quando há necessidade, ou seja, exclusivamente para ir ao banheiro, para a higiene, na individualidade e na intimidade. A máscara segue o mesmo ritual, retirada quando da alimentação, ingestão de líquidos e higiene do rosto como um todo. O grande diferencial é na fala, que também deve ser mantida em seu lugar, nunca ser removida caso não esteja na intimidade do lar ou isolado de todas as demais pessoas. Um nariz para fora da máscara ou o constante puxar na região da boca deixam uma imagem escatológica, anti-higiênica e perigosa, quase pornográfica, portanto.

 

As vacinas passam a ser a nova forma de proteção contra o novo coronavírus além das máscaras. Os imunizantes, amplamente estudados e testados, são questionados por grupos obscurantistas. Ivermectina, que comprovadamente não funciona para além de tratamento contra vermes, é tida como milagrosa. "Mas fulano se curou tomando". Sim, até um relógio quebrado marca a hora certa duas vezes ao dia. A questão é a certificação com provas e contraprovas, estudos com placebos, seguindo protocolos científicos. Ou seja, ninguém fez o teste se o fulano deixasse de tomar o vermífugo, a cura teria acontecido da mesma forma. Verdades não se coadunam com crenças. O problema é o dano maior que a falta de veracidade causa.

 

Assim, novamente, ex-ministros da saúde de diferentes governos e linhas ideológicas subscreveram artigo em defesa da vida intitulado "Vacina para todos já!". Repetem a manifestação de oito meses atrás (artigo de 5/4), acrescido dos dois recentes despojados do cargo. Precisam dizer o óbvio, como tem sido a tônica para nos defender do desgoverno instalado em Brasília que almeja apenas sua reeleição e a morte da população. A luz do fim do túnel com a vacinação em massa iniciada no mundo, em nosso país se torna difusa. A encenação no lançamento do tal plano de vacinação contou com presidente e ministro sem máscara, aglomeração e discurso minimizando a pandemia em que vivemos. É um descaso criminoso de um lado e ingenuidade continuada de outro. Nessa toada, em textos futuros o único avanço será o número de autores.

 

 

Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador da Unesp, adilson.goncalves@unesp.br