Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Comunidade russa do Rio Grande do Sul – Brasil: costumes, tradições e alma russa

A comunidade russa do Rio Grande do Sul ocupa uma posição bastante emblemática entre as comunidades russas do Brasil, conforme apresentei em artigos anteriores a cidade de São Paulo recebeu uma grande quantidade de imigrantes de diversas nações, que contribuíram para a formação da identidade cultural da cidade de São Paulo, nesse sentido a comunidade russa de São Paulo também pode se desenvolver e contribuir para a formação cultural da cidade.

No Rio Grande do Sul e em outros estados da região sul, Paraná e Santa Catarina o fluxo de imigrantes foi bastante alto, e diferentemente de São Paulo, algumas cidades dessas regiões tornaram-se núcleos de concentração dessas imigrações caracterizando a formação cultural dessas cidades.

As cidades de Santa Rosa, Santo Ângelo e principalmente Campina das Missões tornaram-se as principais em referencia para a imigração russa no Rio Grande do Sul, os registros de imigração russa para o Brasil são datados a partir de 1870, no Rio Grande do Sul a imigração se inicia 1909 com a chegada do imigrante russo Demian Helenko sendo dividida em três ondas distintas: A primeira onda ocorreu no início do século XX e compôs em sua maioria, imigrantes provenientes de áreas rurais, muitos especialistas nas áreas de plantio e trabalho da terra, agricultores, marceneiros e diversas outras formas de culturas e criação de animais. Na segunda onda de 1917, a imigração foi motivada em razão da revolução bolchevista, na composição dos imigrantes a maioria eram técnicos, engenheiros, profissionais das artes, agrônomos, médicos entre outros, a maioria se estabeleceu no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Já a terceira onda e principal em questão de volume, ocorreu por volta de 1945 durante os anos da segunda guerra mundial, onde o fluxo de imigrantes russo foi maior do que em períodos anteriores.

Atualmente a comunidade russa de Campina das Missões é presidida pelo Dr. Jacinto Anatólio Zabolotsky, advogado, mestre em ciência jurídica, juiz conciliador e professor universitário, filho de imigrantes russos, é presidente da Associação cultural russa Volga do Brasil desde sua fundação em 1989. Na mesma época foi eleito vereador (deputado) mais votado no município de Campina das Missões onde passou por diversos cargos chegando a presidência da Câmara municipal de vereadores em 1992. No mesmo ano foi fundado o Grupo Folclórico Russo Troyka II, sendo que em sua trajetória de sucessos, nestes 18 anos já constam no currículo mais de 400 shows, inclusive na Argentina.

No conselho dos compatriotas patrocinado pelo Ministério das Relações Exteriores da Rússia “Россотрудничество” atua como coordenador. Em 1998 publicou o livro “Imigração Russa no Brasil : Nos longos caminhos da esperança”, atualmente o livro encontra-se na quarta edição de 2009 publicado também no idioma russo sob o título “ Русская Иммиграция в Бразилии: в дольгий путь надежды”.

Em entrevista a Dimas Melo correspondente do jornal Pravda em São Paulo, e Relações Públicas do Círculo Cultural Nadejda da Comunidade Russa de São Paulo, o Dr. Jacinto Anatólio Zabolotsky apresenta um pouco da história da comunidade russa do Rio Grande do Sul e do sucesso da repercussão do livro “Imigração Russa no Brasil : Nos longos caminhos da esperança”, livro fundamental como base para a compreensão do desenvolvimento da imigração russa não só no Rio Grande do Sul, mas como em outras regiões do Brasil como São Paulo e Rio de Janeiro.

Dimas – Pravda: Estimado Dr. Zabolotsky, primeiramente agradeço sua atenção em nos conceder essa entrevista, percebemos que, cada vez mais debates e discussões acadêmicas sobre a formação das comunidades russas no Brasil têm ocorrido isso revela tanto o crescimento das comunidades russas no Brasil, como a elevação do estreitamento das relações do Brasil com a Rússia. Como o Sr. avalia o estreitamento das relações do Brasil com a Rússia atualmente e como nossas comunidades se inserem nesse cenário?

Jacinto Anatólio Zabolotsky:

Inicialmente cumpre agradecer a oportunidade em poder manifestar-se para tão importante jornal, que para mim é uma honra muito grande.

Quanto à pergunta, realmente nos últimos anos deu-se um grande avanço nas relações de cooperação mútua, comerciais-diplomáticas, turísticas, Brasil-Rússia. Basta analisar o crescimento bilateral nas relações comerciais e diplomáticas, tanto isto é verdade de que a partir de 07 de junho de 2010 não há mais necessidade de vistos de turistas brasileiros e russos.

Outro exemplo podemos ressaltar de que em maio de 2007 foi realizada a primeira conferência em São Paulo da Coordenação dos Compatriotas com reuniões semestrais e posteriormente ocorreu outra conferência reunindo representantes do Brasil e América Latina. Agora está sendo criado um site associação russo-brasileira, que conterá informações importantes dos trabalhos desenvolvidos pela coordenação dos compatriotas russos no Brasil, radicados nos respectivos estados.

Dimas – Pravda: A cidade de São Paulo recebeu uma grande quantidade de imigrantes estrangeiros ao longo do século XX, particularmente esses imigrantes fragmentaram-se e se estabeleceram em determinados bairros que logo se tornaram referência para essas etnias, no caso russo temos os bairros da Vila Alpina, Vila Zelina, Mooca, São Caetano, bem como outras famílias espalharam-se por outras regiões. Diferentemente Campina das Missões concentra a maior parte do fluxo dos imigrantes russos ocupando uma posição emblemática nacionalmente como referência em unidade e na manutenção das tradições, costumes e religião russos no Brasil. Quais desafios têm encontrado para a manutenção das tradições culturais e religiosas, e como a sociedade cultural Russa Volga tem se desenvolvido ao longo desses anos?

Jacinto Anatólio Zabolotsky:

Os desafios são enormes, mas mesmo assim sempre conseguimos superá-los, mesmo diante das dificuldades. A maior dificuldade é a preservação do idioma russo, pois a língua é a alma do povo. Os avós e os pais mantinham, contudo, os filhos e netos, muitos casaram com outras nacionalidades e foram perdendo aos poucos o legado histórico. Contudo, em que pese as dificuldades, conseguimos ainda manter as tradições, usos e costumes, por exemplo o Grupo Folclórico Russo Troyka, a culinária e a ortodoxia. Temos três igrejas no sul do Brasil, uma em Porto Alegre, outra em Santa Rosa e a de Campina das Missões, a primeira no Brasil, fundada em 1912 pelos pioneiros imigrantes russos, que com a fé na ortodoxia, conseguiram vencer as vicissitudes do dia-a-dia.

O elenco em sua trajetória de sucessos, fundado em julho de 1992, portanto, há 18 anos, em seu vasto currículo constam mais de 400 shows em eventos locais, regionais e nacionais, inclusive constam seis apresentações na Argentina.

Também em fevereiro de 2008, a nossa entidade promoveu o curso de idioma russo.

Em março de 2010 foi designado pelo Santo Sínodo Ortodoxo, para atender as paróquias ortodoxas de Santa Rosa e de Campina das Missões novo sacerdote, o Pe. Dionísio Kazantzev, que certamente dará um nova dinâmica e impulso para os fiéis ortodoxos das duas comunidades, numa demonstração que a Santa Mãe Igreja, não esquece de seus filhos, mesmo há 15mil kilometros de distância.

Dimas – Pravda: Em 2009 realizaram-se em Campina das Missões as festividades para a comemoração dos 100 anos da imigração russa no Rio Grande do Sul, membros oficiais da embaixada e do consulado estiveram presentes bem como representações das diversas comunidades russas de outras regiões do Brasil. Conte-nos um pouco como ocorreram essas festividades e qual a importância que o Sr. atribui para o desenvolvimento da relações Brasil –Rússia.

Jacinto Anatólio Zabolotsky:

A importância foi enorme, porque conseguimos mostrar ao Rio Grande do Sul e ao País, o legado histórico-cultural-religioso, através de reportagens em TV, chamada série Nadiejda, no horário nobre da televisão, ao meio dia, foi ao ar e exibido para todo o Estado, cerca de 5 minutos, a cada dia, durante toda a semana que antecedeu as festividades que culminaram nos dias 9 a 11 de outubro. Também amplas reportagens em jornais e rádio. Os primeiros imigrantes russos fundaram o Município de Campina das Missões a partir de 1909. Em homenagem ao Centenário, na entrada da cidade, nas margens da Rodovia RS 307, foi erguido um Memorial (foto). No centro do monumento, está cravada a cruz ortodoxa de 5 metros de altura. À direita, está o Apóstolo São João Evangelista, patrono da Igreja Ortodoxa Russa de Campina das Missões. A esquerda, está a família russa, o pai, a mãe e a filha.

Prestigiaram a solene inauguração no dia 10 de outubro, o Exmº sr. Embaixador da Rússia no Brasil – Vladimir L. Tyurdenev, o Vice-cônsul Dmitry Dalmatov, a direção da Koordenação Soviet. Deputados Estaduais e Federais, bem como outras autoridades civis, militares e cerca de mil pessoas no evento. A sua eminência Metropolita Dom Platon – do Brasil e América do Sul, presidiu a bênção do memorial. Delegações de compatriotas vindos de São Paulo, Rios de Janeiro e Porto Alegre, também prestigiaram as solenidades. Após foi servido um jantar de confraternização para cerca de 500 pessoas.

No domingo, dia 11 de outubro, foi realizada a divina liturgia em homenagem ao Centenário e a festa do Padroeiro Apóstolo São João Evangelista, presidida por sua Eminência Dom Platon. Após ocorreu a inauguração e bênção do salão paroquial ortodoxo, construido ao lado da Igreja. cerca de duas mil pessoas prestigiaram a festa.

Para homenagear o Centenário, autoridades presentes, plantaram 10 árvores, sendo que cada árvore, simboliza 10 anos de história.

Esteve presente o repórter Igor Varlamov, da agência russa Itar-tass.

Os correios fizeram selos em homenagem ao Centenário.

No dia 09 de outubro, dia do Patrono da Igreja Ortodoxa - Apóstolo São João Evangelista, foi instituído através da Lei Estadual nº 13.156 de 27.04.2009 (aprovado por unanimidade pelos Deputados Estaduais do RS), como sendo o Dia da Etnia Russa no Rio Grande do Sul, que será comemorado a cada ano.

Também neste dia foi lançado a 4ª edição do Livro - A Imigração Russa no Brasil, na versão russa, de minha autoria, com prefácio de Sua Eminência Dom Platon. Na contra-capa encontra-se reproduzida parte da carta que recebí em 2006, firmada pelo Presidente das Relações Exteriores da Igreja Ortodoxa Russa - Metropolita Kirill, na ocasião em que visitou o Brasil, atualmente Santíssimo Patriarca de Moscou e toda Rússia. O livro também é em homenagem aos 181 anos (1818-2009) das relações comerciais e diplomáticas Brasil-Rússia, pois os dois países sempre mantiveram boas relações e cooperação mútua, que a cada ano vem crescendo.

Dimas – Pravda: Dentro da perspectiva do desenvolvimento das relações de ambas as nações movimentos importantes tem ocorrido internacionalmente, como à ocorrência dos debates entre os países que constituem o BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China. No Brasil e na Rússia ainda existe bastante desconhecimento por parte da população em geral sobre ambas as culturas e respectivas economias, isso em grande parte devido ao distanciamento geográfico e cultural entre Brasil e Rússia, mas esse estreitamento está cada vez mais em evidência por conta do aquecimento recente dessas economias internacionalmente. No Brasil ainda temos poucos especialistas em Rússia. Como o Sr. analisa a contribuição de seu livro academicamente, e como foi o desenvolvimento dos materiais que compuseram esse material pioneiro para as comunidades russas do Brasil?

Jacinto Anatólio Zabolotsky:

O livro cuja 1ª edição e lançamento ocorreu em outubro de 1998, revestiu-se de extrema contribuição e importância, visto que preencheu uma lacuna na bibliografia gaúcha e brasileira da imigração. Narra o legado histórico-cultural-religioso dos imigrantes russos em terras brasileiras e também da Argentina. Haviam até então, apenas reportagens esparsas, mas em livro foi o primeiro, sendo fonte de pesquisas em escolas e universidades, portanto, um resgate precioso, um documentário acerca da imigração no Brasil, ilustrado com fotos. Várias pesquisas de pós graduação e de mestrado foram efetivadas baseadas no livro. Agora já está na 4ª edição.

Dimas – Pravda: Estimado Dr. Zabolotsky, foi um prazer entrevistá-lo, o desenvolvimento das relações entre o Brasil e a Rússia desenvolvem-se gradativamente em razão do potencial político e econômico de ambas as nações. Cada vez mais a população brasileira conhecerá a cultura russa bem como os russos gradativamente conhecerão mais a cultura brasileira, o papel de nossas comunidades são fundamentais nesse processo, tanto na divulgação e fortalecimento das tradições russas no Brasil, como na formação de especialistas em Rússia.

Dimas Melo

Relações Internacionais

Comunidade Russa de São Paulo

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