Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Chomsky: Os EUA precisam da Otan para expandir a guerra


No dia do 60º aniversário da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, também chamado "Aliança Atlântica", criada dia 4/4/1949), Noam Chomsky conversou com Robert Harneis, para Russia Today, sobre Kosovo, Afeganistão e Otan – por que ainda existe e o futuro. O professor Chomsky, do MIT, é encarniçado crítico da Otan e da política dos EUA.

Pergunta que se faz cada vez mais frequentemente é "para quê serve a Otan?" Por que, na sua opinião, o pacto sobrevive ainda, 20 anos depois do fim da Guerra Fria?

Chomsky: Sim, essa é a pergunta certa. Pode-se perguntar por que sobreviveu um mês, depois do fim da Guerra Fria. Por que sobreviveu? Se se olha para trás, no colapso da União Soviética, Gorbachev fez uma concessão realmente espantosa. Concordou com que uma Alemanha unificada passasse a integrar a Otan, uma aliança militar. Isso é muito importante à luz do século passado. Primeiro, que a Alemanha, sozinha, virtualmente destruiu a Rússia, duas vezes; e a Alemanha, apoiada por uma aliança militar hostil, centrada no mais fenomenal poder militar da história... isso é uma ameaça real. Pois mesmo assim, Gorbachev concordou.

Mas houve uma condição: em termos bem claros, acertaram que a Otan não poderia ser expandida para Leste, de modo que a Russia tivesse, pelo menos, uma espécie de zona de segurança. E George Bush e o então secretário de Estado dos EUA, James Baker concordaram: a Otan não avançaria uma polegada em direção ao Leste. Gorbachev também propôs uma região livre de armas nucleares na região, mas os EUA nem consideraram a ideia. Acho que sequer responderam à proposta. E foi assim. Acabou a União Soviética. Fim de jogo.

Então... o que fez o governo Bush? Lançou um documento sobre defesa estratégica em que se dizia, efetivamente, que a maior ameaça, então, seria, de fato, o avanço tecnológico dos países do Terceiro Mundo; e que era preciso preservar a superioridade da base tecnológico-militar dos EUA, ameaça que ninguém pensaria em atribuir ao Kremlin. É onde se vê que o tratado original da Otan envolvia uma mentira. São negócios, como sempre, no que tenha a ver com a Otan.

Como o senhor vê a situação atual no Afeganistão?

Chomsky: Em minha opinião, Obama parece mais violento e agressivo que Bush. Praticamente seu primeiro ato implicou ataques no Afeganistão e no Paquistão, nos quais muitos civis foram mortos. Ataques completos, quero dizer, com armamento pesado. Os EUA estão apoiando os taliban e o terror. Obama quer ampliar a face militar da guerra do Taliban contra a grande população pashtun. Isso não é o que os afegãos desejam.

Se se considera a situação do presidente Karzai, sua primeira mensagem a Obama foi um pedido para que parasse de matar afegãos. Interessante que, no instante em que esse pedido foi divulgado, Karzai tornou-se impopular no ocidente. Antes, era muito admirado; comentava-se sua elegância, que era homem agradável etc. De repente, tornou-se incompetente, corrupto... De fato, os EUA planejam derrubá-lo. Isso já está declarado. Os EUA querem agora introduzir lá o que chamam de "um outro administrador". Karzai será provavelmente 'demitido para cima'.

E o que acontecerá? Livrar-se-ão de Karzai?

Chomsky: Os EUA estão claramente expandindo o componente militar da guerra, agora, com mais 21 mil soldados no total. A Inglaterra com certeza acompanhará. Querem controlar os poderes da Otan e aumentaram os ataques com mísseis e outros armamentos no Afeganistão e no Paquistão.

Há um movimento afegão pró-paz – é bastante representativo e é difícil avaliar a extensão desse movimento. Estima-se que seja muito amplo. Pedem o fim da violência e mais atenção à reconstrução e ao desenvolvimento. Se se lêem as declarações de Karzai, e também Zadari, elogiando formalmente a nova abordagem de que Obama fala, se se analisam as próprias declarações... há detalhes importantes. Só falam de ajuda e desenvolvimento – que, me parece, é a direção certa a seguir. Reconciliação entre todos os afegãos não significa que os EUA decidam quem conversará com quem; significa que os afegãos decidam.

Quanto ao Kosovo, os países da Otan repetem que seria caso ‘sui generis’, caso especial, não um precedente a ser seguido por outros possíveis novos países. O senhor concorda?

Chomsky: Kosovo foi caso especial, porque foi a primeira que a Otan – principalmente os EUA – atacaram Estado dentro da Europa, com pretextos, de fato, quase cômicos. O ocidente envolveu-se nessa questão, sobretudo intelectuais ocidentais, como ânimo religioso, de fanatismo religioso. Não se consegue discutir o assunto. Mas os fatos são muito evidentes. Há enormes quantidades de registros do Departamento de Estado, da Otan, de monitores, e todos dizem a mesma coisa. Foi baixo o nível de violência dos ataques do Exército de Libertação do Kosovo (Kosovo Liberation Army, KLA), da Albânia e das forças sérvias, as disputas não eram pesadas e sabiam que, se respondessem, só fariam aumentar muito o nível de atrocidade, como, de fato, se viu acontecer. O General Clarke, que estava no comando, preveniu-os: "Se reagirem, eles reagirão em campo, aqui. Não vão bombardear Washington. Só conseguirão aumentar o nível das atrocidades". Isso, exatamente, foi o que aconteceu.

Quando Milosevic foi acusado, durante a guerra, foi acusado quase integralmente por crimes cometidos depois do início da guerra. Mas havia opções diplomáticas. Dentre os mais altos funcionários do governo Clinton, Strobe Talbot, subsecretário de Estado para o Leste Europeu, encarregado do que estava acontecendo então, já disse – e está bem evidente nos documentos – que o ataque não foi motivado pelos kosovares (como se via nos primeiros documentos), mas porque a Servia não adotara as reformas socioeconômicas exigidas. Os intelectuais ocidentais agarraram-se a isso com paixão.

Você lembrará que, naquele momento, houve quantidade imensa de declarações muito embaraçosas sobre a nobreza, sobre uma fase excepcionalmente nobre da política exterior dos EUA, sobre como os Estados mais 'iluminados' lideravam o mundo rumo a uma nova era na qual as pessoas seguiriam princípios e valores, e tal e tal – foi terrível.

Não lembro de outro momento semelhante na história intelectual; depois, foi muito difícil descer daquelas alturas e dizer "Desculpe, pessoal! É tudo diferente." Então, tiveram de continuar aferrados à primeira explicação.

Como o senhor vê a rivalidade entre a Otan e a ONU?

Chomsky: Não há rivalidade alguma. A ONU faz o que as grandes potências – os EUA, sobretudo – permitem que ela faça. Lembre-se que a Iugoslávia tentou levar a questão contra a Otan à Corte Internacional. Não conseguiu, por razões bem interessantes. Um congressista norte-americano declarou que, se, algum dia, alguém se atrever a acusar os EUA [na Corte Internacional] "Nós tomaremos o prédio da ONU e o destruiremos, tijolo a tijolo, e jogaremos tudo no East River".

Uma das razões para a aparentemente ilimitada expansão da Otan é a criação de uma espécie de exército mercenário, que poderia combater sem necessidade de alistamento nos EUA? Como, por exemplo, a Geórgia mandar o terceiro maior contingente para ocupar o Iraque?

Chomsky: O Pentágono foi contra o serviço militar. Desde antes do Vietnam querem livrar-se dele. No Vietnam, os EUA cometeram um erro tático: tentaram lutar guerra colonial com um exército de cidadãos. Tampouco é possível fazer guerra colonial com mercenários mal treinados. Se se analisa a Revolução Americana contra os ingleses no século 18, vê-se que muitos dos soldados eram hessianos, de Hesse, Alemanha, muitos dos quais mercenários. Porque há outro tipo de mercenários, como a Legião Estrangeira, francesa; ou os Ghurkas, britânicos. Guerras coloniais são brutais demais, duras demais paras soldados regulares. Sim, os EUA querem recrutar nações do Leste Europeu para que se unam à Otan porque os generais pensam que estarão dispostas a mandar soldados lutar guerras coloniais.

Como o senhor vê o desenvolvimento futuro da Otan?

Chomsky: Se a pergunta é "Como deve ser o futuro da Otan?" a resposta é: "imediata desmobilização". Mas não há sinais de mudança. Você deve ter observado que, apesar da crise financeira, desde a posse de Obama não se fala de qualquer movimento na direção de limitar os gastos militares dos EUA. Talvez cancelem alguns projetos mais caros, de alta tecnologia, como a compra do bombardeiro F22. Esse tipo de avião não é necessário no tipo de guerra que há hoje.

Antes de Bush deixar a presidência, aprovou-se verba de 30 bilhões para apoiar Israel durante os próximos dez anos. Israel, hoje, é como uma legião avançada do exército norte-americano. O plano é aumentar o número de soldados em campo. Esses são os soldados de que eles precisam para as guerras que planejam. Durante a invasão de Gaza, os EUA planejavam entregar milhares de toneladas de munição a Israel, em navios alemães, via a Grécia. Os gregos impediram a entrega. Tiveram de achar outra via, mas o Pentágono declarou que a munição seria para fazer reservas, para próximos conflitos.

O senhor acredita nisso?

Chomsky: Ah, sim. Aquela munição não afetaria a luta em Gaza naquele momento. É verdade. Planejam já as guerras futuras. Quanto ao futuro da Otan, tudo dependerá da ação dos cidadãos – como a Conferência Anti-Otan, em Estrasburgo.

Esta entrevista se encontra em: www.vermelho.org.br

Texto: Robert Harneis/ Russia Today

http://www.patrialatina.com.br