Author`s name Edu Montesanti

Trégua no Iêmen, Sem Esperança

Trégua no Iêmen, Sem Esperança: Catástrofe Terrível, Apenas Talvez Esforços Liderados pela ONU Aliviem, Diz Chomsky
 

Da "Guerra ao Terror" dos EUA à "Primavera" nacional e à "intervenção humanitária" saudi-árabo-americana, o povo iemenita tem sido totalmente desconsiderado em todos os "processos" - e atacado -  enquanto o país é palco de conflitos internacionais e disputas das elites locais, apenas alimentando - e praticando - terror

 

Biden aprovou comércio de mais armas aos sauditas supostamente para fins de "defesa": Chomsky preocupa-se. "A linha entre armas ofensivas e defensivas é muito tênue", diz com exclusividade o lendário analista americano

Certamente não por acidente como alguns dizem, armas saudiárabo-americanas acabam em mãos da Al-Qaeda no Iêmen. "Os sauditas fornecem armas à Al-Qaeda", diz Kiriakou. Para Kivimäki, "esforços unilaterais intensificam violência"

 

A "trégua" renovada no início de agosto na catastrófica Guerra do Iêmen, em insolúvel impasse há anos, representa nada mais que outro engodo ao seu povo tanto quanto assim foram a "Primavera" local no início de 2011, e a "Guerra ao Terror" dos EUA nos anos 2000 em solo iemenita. Nova frente na “Guerra Fria do Oriente Médio”, conforme definido por Peter Krause e Tyler B. Parker.

 

Pior de tudo, a resposta militar da vizinha Arábia Saudita à tomada de poder pelos houthis xiitas leva o país mais pobre do Oriente Médio a viver a pior catástrofe humanitária do mundo em quase um século, de acordo com as Nações Unidas (ONU) extremamente ineficazes (para dizer o mínimo).
 

A coalizão liderada pela Arábia Saudita por si só no território iemenita, ainda que fosse dócil violaria a lei internacional, ao mesmo tempo que as vendas de armas de Washington a Riad violam as própria leis dos EUA. 

 

Quanto à Organização das Nações Unidas (ONU), não apenas mantém silêncio sobre a violação do direito humanitário ou leis da guerra no Iêmen, como o órgão internacional também vem impedindo que organizações de direitos humanos as investiguem, em um conflito sem saída que, entre outras coisas, serve para aquecer as elites mundiais através do lucrativo negócio da guerra.

 

Analistas internacionais e pacificadores estão céticos sobre uma saída para a tragédia do Iêmen. Tem sido impossível, mesmo teoricamente, apontar uma solução para um Estado falido como subproduto daqueles, mais uma vez, “combatendo o terror” na região.

 

Proteção Americana a Agressores, Não a Vítimas 


Na campanha presidencial de 2020, Joe Biden prometeu interromper vendas de armas dos EUA para a Arábia Saudita: o candidato democrata afirmou que encerraria todo o apoio a operações ofensivas no devastado país médio-oriental.
 
Pouco depois de assumir o poder, Biden enfatizou suas promessas de campanha em relação ao comércio de armas para os sauditas, "incluindo vendas relevantes de armas" como seu compromisso de “acabar com todo apoio” a uma guerra que produziu “catástrofe humanitária e estratégica”. O que significaria uma mudança radical em comparação com seus antecessores na Casa Branca.

 

Não surpreendentemente, no entanto, o presidente eleito logo se contradisse alegando que os EUA venderiam armas aos sauditas "para fins defensivos" tanto quanto para a "segurança nacional dos Estados Unidos", enquanto os números da catástrofe humanitária no Iêmen - ao Ocidente e sua mídia não mais que apenas números, isso quando raramente mencionados -, aumentam dramaticamente.

 

A coalizão liderada pela Arábia Saudita é responsável pela grande maioria das pesadas e assimétricas mortes de civis no Iêmen,também usando armas para bloquear espaços vitais do Iêmen por meio de ataques aéreos, tal como o aeroporto e o  porto impedindo, desta maneira, que as pessoas tenham acesso a medicamentos, alimentos e todo tipo de ajuda humanitária do exterior.
 

Enquanto não se ouve falar de armas de proteção dos EUA a iemenitas contra ataques estrangeiros, a guerra "protetora" saudita contra o país localizado no extremo sul da Península Arábica também inclui bombardeios indiscriminados em hospitais, escolas, estradas e residências, entre outros,  o que preocupa o analista, dissidente político, linguista e autor de renome mundial Noam Chomsky.

 
"Os EUA contribuíram materialmente fornecendo armas, treinamento e informações de inteligência cruciais para a Arábia Saudita", lamentou visivelmente desolado sobre o assunto em conversa com este jornalista, o considerado "pai da linguística moderna", voz mais importante sobre política, sociologia e direitos humanos vivo demonstra claramente estar desolado sobre o assunto, em conversa recente com este jornalista.
 

Os EUA também confirmaram que já venderam fósforo branco, um produto químico semelhante ao napalm, para os sauditas utilizarem no Iêmen.

 

Em entrevista a este jornalista, Timo Kivimäki, professor finlandês de Relações Internacionais e Diretor de Pesquisa da Universidade de Bath, Reino Unido, destacou:

"O regime ditatorial da Arábia Saudita que recebeu cerca de 90 por cento de suas armas dos EUA e cerca de 5% do Reino Unido."

 

Tais fatos seriam suficientes para que os EUA fossem acusados de cometer crimes de guerra no conflito, ao fornecer apoio logístico e de inteligência à coalizão liderada pelos sauditas. O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, disse uma vez que “o governo dos Estados Unidos forneceu a maioria das bombas e está profundamente envolvido na condução da própria guerra [do Iêmen]". 

 
Chomsky é de longa-data forte crítico da aliança entre EUA e Arábia Saudita. Enquanto particularmente o cenário iemenita é "uma catástrofe horrível", conforme definido pelo professor americano de linguística da Universidade do Arizona, cético em relação à pacificação do Iêmen.
 

Na realidade, proteger os sauditas de suas horríveis e intermináveis agressões é a regra dos EUA ao longo da história. 

 
Al-Qaeda: Mãos Certas


Contradições do xerife do mundo não se limitam ao golpe eleitoral, quando se trata de comércio de armas com Riad.

 
Em 2019, nada novo quando envolve a "política" dos EUA no Oriente Médio e em todo o mundo, veio à tona que as armas saudiárabo-americanas utilizadas em território iemenita, supostamente para defender os sauditas em especial dos ataques violentos dos houthis, acabam em “mãos erradas”, ou seja, em poder de, simplesmente, grupos afiliados à Al-Qaeda.

 

De acordo com uma reportagem da CNN, algumas armas chegaram às “mãos do inimigo” apenas “por acidente”. Assim como a Al-Qaeda não é inimiga dos EUA como muitos pensam - e parecem não querer ver o que está bem na frente deles por 21 anos (para não se voltar ainda mais no tempo) -, os regimes de Washington e Riad não são tão incompetentes como parecem.

 

21 anos depois desde que o bode expiatório chamado Al-Qaeda, treinado e armado pelos EUA serviu como o novo Pearl Harbor americano e salvou o mandato de um imbecil, George W. Bush, que chegou à Casa Branca através de corrupção, então levando o país ao caos econômico. 


Mesmo assim, e aqui reside um ponto-chave, o regime de Washington segue adiante, enchendo o Iêmen de armas.
 

A questão é: não são os EUA que combatem terroristas em todo o mundo, especialmente a Al-Qaeda que, sob o título Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP, na sigla em inglês), opera exatamente no Iêmen nestes dias tendo causado "o maior trauma da história americana", pelo que "deve ser vingada e duramante combatida a qualquer custo", em nome do "orgulho americano"?
 

Contudo, silêncio ensurdecedor sobre o "acidente" em relação ao destino das armas EUA-sauditas, enquanto o comércio de armas continua. E o massacre iemenita só se intensifica.


Al-Qaeda, eterno fantoche dos EUA como justificativa do Tio Sam para ocupar o Oriente Médio.

 
Regime dos EUA: Velha 'Política' do 'Ele é Nosso Filho da Puta'

 

"Acredito que os sauditas realmente fornecem armas à Al-Qaeda no Iêmen, porque a Al-Qaeda está lutando contra os houthis, assim como Riad", disse o ex-agente da CIA John Kiriakou, em conversa com este autor.
 

Houthis, nome oficial Ansar Allah (Assistentes de Deus), e Al-Qaeda combatem-se ferzomente no Iêmen. Se sauditas e americanos armam mais a Al-Qeada que os iranianos aos houthis, trata-se ainda de tema a ser investigado. Pelo que se observa, inclusive dada a disparidade entre ambos os lados, a primeira alternative deve ser, de longe, verdadeira.
 

Kiriakou observou ainda que Riad "sempre diz que, no Oriente Médio 'o inimigo do meu inimigo é meu amigo'". O próprio Chomksy observou, em uma entrevista de 2016 a Democracy Now! programa de TV, que "A Arábia Saudita é o centro do extremismo islâmico radical."
 

"A história básica é que os Estados Unidos, como a Grã-Bretanha antes dele, tendem a apoiar o islamismo radical contra o nacionalismo secular", disse o renomado comentarista americano na época.

"A disseminação da doutrina wahhabi extremista saudita sobre o islamismo sunita, o mundo sunita, é um dos verdadeiros desastres da modernidade. É uma fonte de financiamento não apenas para o islamismo radical extremista e seus desdobramentos jihadistas, mas também, doutrinariamente, mesquitas, clérigos e assim por diante, escolas, você sabe, madrassas, onde você estuda apenas o Alcorão, está se espalhando por todas as grandes áreas sunitas de influência saudita. E continua", acrescentou Chomsky, lembrando também, que "a própria Arábia Saudita tem um dos registros de direitos humanos mais grotescos do mundo. As decapitações do ISIS, que chocam a todos, acho que a Arábia Saudita é o único país onde há decapitações regulares".

 
Historicamente, Riad não tem nenhum problema com grupos terroristas - assim como os EUA -, sempre que seus interesses regionais e econômicos na região sejam atendidos. Afeganistão, Osama bin Laden e Iraque são exemplos catastróficos disso.

 

A própria Al-Qaeda é criação direta, subproduto da "luta por liberdade" EUA em solo afegão: seus membros começaram a ser ensinados em madrassas e até armados diretamente pelos americanos, supostamente para combater os soviéticos a partir do final dos anos de 1970.

 

Livros utilizados nas madrassas afegãs, pregando o radicalismo religioso que inclui a jihad, foram impressos nos EUA. Em 1986, o então presidente Ronald Reagan recebeu gentilmente os mujadedin (guerrilheiros em países islamitas comumente chamadas de jihad, lutando contra forças não-muçulmanas), "senhores da guerra" para os afegãos que viriam a ser, na década seguinte, os talibans a membros da Al-Qaeda, qualificando-os de "combatentes pela  liberdade, equivalentes morais dos nossos pais fundadores".

 

Neste vídeo de 1979 Zbigniew Brzezinski, então Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos na presidencia de Jimmy Carter, incita mujahedins afegãos a lutar em nome da religião, "sua causa está certa, e Deus está ao seu lado!": https://www.youtube.com/watch?v=A9RCFZnWGE0

 

Em outubro de 2009, o Council on Foreign Relations dos Estados Unidos reportou,

 

"O relatório da Comissão do 11 de Setembro divulgado em 2004 disse que algumas das escolas religiosas ou madrassas do Paquistão serviram como 'incubadoras de extremismo violento'. Desde então, tem havido muito debate sobre madrassas e sua conexão com a militância [terrorista].

"(...) Novas madrassas brotaram, financiadas e apoiadas pela Arábia Saudita e pela Agência Central de Inteligência [CIA] dos EUA, onde os estudantes foram incentivados a se juntar à resistência afegã. O Taliban foi formado no início da década de 1990 por uma facção afegã de mujahideen, combatentes islâmicos que resistiram à ocupação soviética do Afeganistão (1979-1989) com o apoio secreto da Agência Central de Inteligência dos EUA e sua contraparte paquistanesa, a Inter-Services Intelligence Diretoria (ISI). A eles se juntaram jovens pashtuns que estudavam em madrassas paquistanesas, ou seminários; talibã é pashto para 'estudantes'."

 

Em 2002, The Washington Post reportou:

 

"As cartilhas, repletas de conversas sobre jihad e desenhos de armas, balas, soldados e minas, têm servido desde então como o currículo básico do sistema escolar afegão. Até o Taliban usou os livros produzidos nos Estados Unidos, embora o movimento radical tenha riscado rostos humanos de acordo com seu rígido código fundamentalista."

 

Em 2014, o mesmo Post apontou,

 

"Impressos em pashto e dari, duas principais línguas do Afeganistão, livros como 'The Alphabet for Jihad Literacy' foram produzidos sob os auspícios da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional pela Universidade de Nebraska, e contrabandeados para o Afeganistão através de redes construídas pela CIA e a agência de inteligência militar do Paquistão, o ISI. (...) De acordo com pelo menos um estudioso americano, esses velhos livros anti-soviéticos ainda estão em circulação.

"(...) A versão pashto inclui abordagens assustadoras como 'T' para 'topak', ou arma. Como você usa a palavra? 'Meu tio tem uma arma', diz a tarefa. 'Ele faz jihad com a arma.'

"Outras lições ensinam que Cabul só pode ser governada por muçulmanos e que todos os russos e invasores são descrentes."

 

"Nossa religião é o islamismo. Maomé, nosso líder. Todos os russos e infiéis são nossos inimigos”, reportou em 2014 a Al-Jazeera sobre os livros didáticos jihadistas patrocinados pelos EUA. “Cabul é a capital do nosso querido país”, lê-se na tarefa da letra K. “Ninguém pode invadir nosso país. Apenas muçulmanos afegãos podem governar este país", diziam os livros "didaticos" pregando a jihad, versão terrorista ocidental.


A história mostra, também, que os EUA até trocam armas com aqueles que combatem, como no caso do escândalo Irã-Contras. Ao mesmo tempo, o regime de Washington armava Saddam Hussein, engajado em uma sangrenta guerra contra o Irã (1980-1988) na qual o ditador iraquiano atacava com armas químicas.

 

Mesmo a chamada luta dos EUA contra os soviéticos foi outra grande mentira, segundo o próprio Brzezinski em entrevista de 1998 ao jornal francês Le Nouvel Observateur:

"Sim. De acordo com a versão oficial, o apoio da CIA aos mujahedin começou em 1980, ou seja, após a invasão do Afeganistão pelo exército soviético em 24 de dezembro de 1979. Mas a realidade, que foi mantida em segredo até hoje, é completamente diferente: na verdade, em 3 de julho de 1979 o presidente Carter assinou a primeira ordem de apoio secreto da oposição contra o regime pró-soviético em Cabul. E no mesmo dia escrevi uma nota, na qual expliquei ao presidente que esse apoio seria na minha opinião levar a uma intervenção militar dos soviéticos."


Desde que o presidente Franklin Delano Roosevelt disse “[O presidente nicaraguense] Somoza pode ser um filho da puta, mas é nosso filho da puta”, nada mudou na “política” externa dos EUA, pelo contrário: as coisas pioraram muito em termos de dulpa moral e geração de terror em todo o planeta.


Iêmen, exemplo trágico disso. 

 

Armas Defensivas, Engodo Americano: Chomsky
 

Durante a primária democrata em 2020, Biden referiu-se à Arábia Saudita como um “pária”, dizendo que precisava ser responsabilizada por “assassinar crianças” no Iêmen e orquestrar o assassinato do jornalista saudita dissidente Jamal Khashoggi. 

 

Apesar do terrível número de mortes de civis no Iêmen desencadeado pela guerra de mais de sete anos apoiada pelos EUA, em 2 de agosto passado Biden aprovou e notificou o Congresso de possíveis vendas de armas multibilionárias para Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (EAU).
 

O Departamento de Estado dos EUA aprovou a possível venda de mísseis balísticos táticos de mísseis PATRIOT MIM-104E (GEM-T) e equipamentos relacionados para a Arábia Saudita, com valor estimado em 3,05 bilhões de dólares.

 

"Esta proposta de venda apoiará as metas de política externa e os objetivos de segurança nacional dos Estados Unidos, melhorando a segurança de um país parceiro, que representa uma força para a estabilidade política e o progresso econômico na região do Golfo", observou o Departamento de Estado. 

 

Quanto a uma potencial venda de 2,2 bilhões de dólares de 96 mísseis do sistema Terminal High Altitude Area Defense da Lockheed Martin, bem como equipamentos relacionados aos Emirados Árabes Unidos (EAU), no início de agosto o Departamento de Estado "autorizou" a negociação:

 

"A venda proposta será melhorar a capacidade dos Emirados Árabes Unidos de enfrentar as ameaças atuais e futuras de mísseis balísticos na região e reduzir a dependência das forças dos EUA."

 

Em outubro de 2021, o governo Biden firmou contrato militar de 500 milhões de dólares com a Arábia Saudita, permitindo que Riad mantivesse sua frota de helicópteros de ataque no Iêmen.


No mês seguinte, a Casa Branca aprovou uma venda de 650 milhões de dólares em mísseis ar-ar para a Arábia Saudita "para ajudar Riad a combater ameaças atuais e futuras", anunciou o Pentágono.


De acordo com um porta-voz do Departamento de Estado, o comércio visava "manter o compromisso do presidente de apoiar a defesa territorial da Arábia Saudita".

“Esta proposta de venda apoiará a política externa dos EUA e a segurança nacional dos Estados Unidos, ajudando a melhorar a segurança de um país amigo que continua a ser uma força importante para o progresso político e econômico no Oriente Médio”, disse o Pentágono.

 

Segundo o Departamento de Assuntos Político-Militares do Departamento de Estado, os mísseis “não são usados para atacar alvos terrestres”.

 

Algo que "intriga" Timo Kivimäki.

"Todos presidentes do novo milênio chegaram à presidência através de campanha que prometia desmilitarizar a política externa dos EUA: Bush e Trump queriam se concentrar nos próprios problemas dos americanos e reduzir o intervencionismo moralista de seus antecessores, enquanto Obama e Biden prometiam acabar com a instalação de tortura de Guantánamo, e ordenar as ações do aparelho militar e da inteligência dos EUA.

 

“No entanto, todos eles acabaram aumentando o esforço militar dos EUA - com exceção de Trump -, todos iniciaram novas guerras e recuaram da retórica de paz com a qual fizeram campanha”, disse o renomado pesquisador finlandês em sua entrevista a este autor.

 

"O complexo militar-industrial pertence a apenas uma pequena minoria dos proprietários de capital dos EUA, único  beneficiário  dessa carga tributária. No entanto, parece que o sistema obriga os presidentes eleitos com base em promessas de paz a escolher uma política de guerra", continua o pesquisador.

"Será que o sistema político é comprado pelos traficantes de armas, pode a corrupção, e uma atitude relaxada em relação ao 'lobby' corrupto ser a explicação? Francamente, não sei", questionou o professor de Relações Internacionais.  

 

“No entanto, é intrigante por que Biden e Trump queriam sair dos crimes de guerra iemenitas como candidatos presidenciais e ainda assim participaram plenamente depois de serem eleitos”, acrescentou o especialista, cujas observações nos fazem lembrar das advertências de Dwight Eisenhower sobre os militares. poder industrial como uma ameaça à democracia e à paz, em seu discurso de despedida de 1961, deixando a presidência dos EUA:

"Nos conselhos de governo, devemos nos precaver contra a aquisição de influência injustificada, procurada ou não, pelo complexo militar-industrial. O potencial para a ascensão desastrosa do poder deslocado existe e persistirá."

 
No caso iemenita, o interminável discurso de duplo padrão dos EUA especialmente quando se trata da Arábia Saudita, apenas deixando claro o apoio incondicional a Riad por mais que viole a lei, mate inocentes e arme terroristas.

 

Questionado por este jornalista sobre a justificativa do governo Biden a fim de vender armas aos sauditas, para fins "defensivos" no Iêmen, Chomsky observou: "A linha entre armas ofensivas e defensivas é muito tênue".
 

Autor de mais de cem livros, Noam Chomsky apontou a falsa propaganda envolvendo Míssil Antibalístico que, na prática segundo o lendário analista americano, produz efeito inverso sobre o que é amplamente dito. 

 

"Os sistemas de mísseis antibalísticos são anunciados como armas defensivas, enquanto analistas estratégicos de todas as partes os consideram armas de primeiro ataque. Se funcionassem, o que é improvável, poderiam deter um frágil ataque de retaliação, aumentando desta maneira a tentação de um primeiro ataque", acrescentou o professor laureado de linguistas da Universidade do Arizona, de sua casa em Tucson.
 

"O mesmo ocorre com os mísseis Iron Dome fornecidos a Israel, que facilitam os ataques assassinos israelenses a Gaza, proporcionando defesa contra a dissuasão muito fraca. As armas 'defensivas' para a Arábia Saudita estão sujeitas à mesma lógica", concluiu o analista americano.
 

Interesses Americanos acima da Lei

 

A venda de armas dos presidentes americanos aos sauditas para a guerra "protetora" no Iêmen, viola gravemente as leis do país visto que estas estabelece as condições sob as quais o governo dos EUA e as entidades comerciais dos EUA podem vender artigos de defesa a países estrangeiros.

 

Vários artigos de lei impedem que um presidente dos EUA negocie armas nas condições que o governo Biden, como seus antecessores costumavam fazer, está fazendo neste caso.


Por exemplo, de acordo com um estudo de In Focus, do Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA (Congressional Research Service):


Seção 38(a)(1) da Lei de Controle de Exportação de Armas (AECA) [22 U.S.C. 2778(a)(1)] autoriza o Presidente a controlar a importação e exportação de artigos de defesa para objetivos políticos amplos, incluindo paz mundial e segurança e política externa dos EUA;


Seção 42(a) da AECA [22 U.S.C. 2.791(a)] exige que o Poder Executivo considere, entre outros fatores, se uma determinada venda de artigo de defesa pode “aumentar a possibilidade de eclosão ou escalada de um conflito”;


Seção 502B(a)(1) da FAA [22 U.S.C. 2304(a)(1)] afirma que o “objetivo principal” da política externa dos EUA “deve ser promover o aumento da observância dos direitos humanos internacionalmente reconhecidos por todos os países”;

Seção 502B(a)(2) da FAA [22 U.S.C. 2304(a)(2)] estipula que,

"Nenhuma assistência de segurança pode ser fornecida a nenhum país, cujo governo que se envolva em violações graves de direitos humanos internacionalmente reconhecidos."


“Violações graves de direitos humanos reconhecidos internacionalmente” também são definidas pela Lei de Assistência Estrangeira de 1961 (FAA) [22 U.S.C. 2304(d)(1)], na Seção 502B(d)(1).

 

Ao contrário da alegação do governo Biden, vender armas aos sauditas não preserva a segurança nacional dos EUA, tanto quanto não vendê-las colocaria os americanos e o território dos EUA em risco.

 

Tal justificativa é tão absurda quanto dizer que essas armas são usadas para fins defensivos por Riad. Até porque a intervenção militar à luta interna pelo poder do Iêmen iniciada pela Arábia Saudita em março de 2015, por si só viola as leis internacionais.

 

A Carta da ONU proíbe guerras preventivas ou guerras de agressão, isto é, ataque de um Estado contra outro que não tenha atacado primeiro, ou não represente nenhuma ameaça à paz.

 

O Estado iemenita não representa nem jamais representou nenhuma ameaça ao Reino Saudita. Tanto quanto o Iraque e os Estados do Afeganistão nunca ameaçaram a segurança dos EUA.

 

Atualmente, não é o Estado iemenita que está atacando e cometendo crimes de guerra além das fronteiras iemenitas, mas os houthis – através de perucas de mísseis e drones balísticos –, um grupo local sem nenhum representante oficial: em vez de superestimar os houthis como justificativa para atacar militarmente - e destruir - o país.

A Coalizão ilegal deve estimar os houthis antes de invadir o país, considerando sua reivindicação popular antes e durante a “Primavera” de 2011, e depois dela. Mas os EUA e os sauditas são especialistas em radicalizar movimentos em todos os lugares, e fortalecer ou mesmo criar terroristas.

 

Alguém pode alegar: “A ONU autorizao a atuacao da Coalizão saudita no Iemen”. Sim, isto é verdade: tão verdade quanto a mesma ONU autorizou as “intervenções humanitarias” dos Estados Unidos em Afeganistão e Iraque na primeira década do novo milênio, que provaram ter sido um dos maiores crimes internacionais, rompendo as relações internacionais em quase 400 anos.


De acordo com o capitulo 7, artigo 51 da carta da ONU, uma vez mais fazendo vista grossa quando EUA e aliados estão envolvidos, apenas medidas de autodefesa podem ser tomadas por um Estado, longe de ser o caso da coalizão liderada pela Arábia Saudita no Iêmen.

 

Tudo isso, sob silencio ensurdecedor, conivente da ONU sempre de joelhos, fechando os olhos escandalosamente diante dos crimes dos EUA e aliados.


A patologia do excepcionalismo atinge graus tão avançados nos Estados Unidos que, quando se trata de interesses estadunidenses, as próprias leis americanas acabam não importando, desprezadas pelos "excepcionais donos do mundo", o que também explica enormemente a decadência americana. 


Esperar mínima coerência do regime de Washington, é sempre demais a qualquer mente minimamente sã.

 

'Inacreditavelmente Horrível': Chomsky

 

Falta de alimentos, medicamentos e serviços de saúde, destruição da infraestrutura nacional e assustadoramente crescente de centenas de milhares de vidas humanas, tem sido inimaginável no Iêmen desde que a coalizão liderada pela Arábia Saudita teve inicio ha sete anos e meio, intitulada de Operação Tempestade Decisiva.

 

De acordo com o Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), 24 dos 29,8 milhões de habitantes do Iêmen precisam de assistência humanitária imediata.

 

Segundo o Índice Global da Fome de 2021 (GHI, na silga em inglês), o nível de fome do Iêmen é "alarmante": o país ocupa o 115º lugar entre os 116 países, apenas um pouco atrás da Somália. Agora, cerca de 20 milhões de iemenitas, 70 por cento da população, estão famintos, "aumento de 15% em relação ao ano passado", segundo Mark Lowcock, chefe humanitário da ONU, em junho passado. "Pela primeira vez, 250 mil enfrentam uma 'catástrofe', disse.


A UNICEF informa que uma criança iemenita morre a cada dez minutos por causas evitáveis; mais de 1 milhão de mulheres grávidas sofrem de desnutrição.

 

A própria catástrofe iemenita levanta outra questão aos EUA, precariamente autodenominados "exportadores mundiais de democracia e direitos humanos", por muito tempo alimentando com armas os agressores sauditas com capacidade de bombardeio muito superior em comparação com os rebeldes houthis, em um cenário de terror "incrivelmente horrível, e poucos sabem", acrescentou o proeminente linguista americano em sua palestra a este autor.

 

Em novembro de 2018, o Escritório de Direitos Humanos da ONU apontou que 61,5 por cento de todas as vítimas civis da guerra do Iêmen, uma grande maioria, foram causados por “ataques aéreos realizados pela Coalizão liderada pela Arábia Saudita”.

 

“Em 2021, a ONU registrou pouco menos de 600 ataques aéreos por mês pela coalizão liderada pela Arábia Saudita em todo o Iêmen”, disse outro relatório, ao mesmo tempo, apontando a escalada do conflito e seu impacto devastador sobre os civis.

 

Enquanto as Nações Unidas projetaram no final do ano passado que o número de mortos chegaria a 377 mil até o final de 2021, incluindo aqueles mortos como resultado de causas indiretas e diretas, um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) estimou que 70 por cento desss mortos seriam crianças com menos de cinco anos.

 

O relatório acrescentou que cerca de 1,3 milhão de pessoas morreriam até 2030: 70 por cento dessas mortes seriam resultado de causas indiretas, tais como falta de comida, aumento dos preços dos alimentos e deterioração de serviços básicos, como saúde e educação.

 

Pelo menos 15,6 milhões de pessoas, de 29,8 milhões da população total, vivem em extrema pobreza hoje. O número de pessoas com desnutrição, segundo o estudo da ONU, aumentaria para 9,2 milhões até 2030, e o número de pessoas vivendo em extrema pobreza chegaria a 22 milhões, ou 65% da população.

 

Em janeiro de 2022, a ONU alertou sobre "perda devastadora de vidas", enquanto o secretário-geral Antonio Guterres condenou os ataques aéreos da coalizão.

 

Jornalistas estão sendo cada vez mais agredidos no país no extremo sul da Península Arábica. Nos primeiros três meses deste ano, o Sindicato dos Jornalistas do Iêmen relatou 20 violações contra jornalistas e profissionais da mídia.

 

"O estado de impunidade continua para todos os perpetradores de crimes contra a imprensa e jornalistas, e as várias autoridades ignoram a interação positiva para levar os infratores da imprensa à justiça e dissuadi-los", acrescentou o relatório da YJS.

 

Sempre que se trata de violações da lei e práticas de terrorismo de Estado dos EUA e da Arábia Saudita, a regra da impunidade é imposta. “Quando eles fazem isso, é um crime, quando fazemos, não é”, disse Chomksy sobre a guerra de agressões dos EUA, em uma entrevista de 2004 a The Progressive.

 

O tempo passa, nada muda. E o estado de espírito geral caminha no mesmo passo deprimente: tomadores de decisão, ativistas "pelos direitos humanos", jornalistas e comentaristas em geral.

 

Nada Mais que Números

 

Recente pesquisa do Pew Research dos EUA, apontou que a grande maioria dos americanos não se importa com o sofrimento das pessoas no exterior se isso não afeta suas vidas dentro do pais.

 

Já passou o tempo em que os americanos costumavam sair às ruas para protestar contra abusos de seu governo internacionalmente, por exemplo, no caso da guerra do Vietnã.


Embora grande parte de toda essa catástrofe tenha sido escondida dos americanos, o capitalismo ou o bem-conhecido senso de excepcionalismo, ou ambos vendidos por políticos americanos e pela mídia, definitivamente conquistaram as mentes e os corações dos cidadãos estadunidenses.

 

Quais vidas valem mais?

 

Para Além de Guerra por Procuração e Sectária 

 

Deixando de lado os ativistas por reforma política e econômica durante a Revolução de 2011 de “processos de acordo” escassos e falsamente divulgados desde então, levando em conta apenas as elites e os interesses internacionais; inundando o Iêmen com armas; radicalizando grupos de norte a sul do país; praticando o conhecido e antigo terror de Estado.


Eis um breve resumo da história recente do Iêmen, verdadeiras raízes da crescente e inimaginável tragédia que ocorre no país do Oriente Médio, palco de luta geoestratégica egoísta envolvendo Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, EUA, Irã, e interesses sionistas por trás de todo esse espetáculo mórbido, mal retratado pela mídia mundial.


Na realidade, o conflito no Iêmen vai muito além da guerra por procuração Iraniana-saudita, e até mesmo das disputas de sectarismo religioso local, conforme amplamente descrito. Alguns dos conflitos atuais remontam à década de 1990.

 

Mesmo sobre o papel iraniano, a única evidência de contato próximo entre os houthis e Teerã é de data muito recente como observa Roland Popp, pesquisador sênior do Centro de Estudos de Segurança da ETH Zurique.

"Aparentemente, os iranianos forneceram apenas uma assistência muito moderada e até tentaram dissuadir os houthis de tentar o poder. A redução simplista do conflito ao antagonismo entre o islamismo sunita e xiita é enganosa de qualquer maneira", diz Popp.

Kivimäki concorda, ressaltando em conversa com este jornalista que muitos tendem a exagerar o papel iraniano em solo iemenita:

"Enquanto os bombardeios sauditas constituem a maior parte da violência organizada no país, o papel dos rebeldes houthis e especialmente o apoio que recebem do Irã é muito menor."


Anos de 1990. Foi em meados da década de 1990 que os secessionistas do Iêmen do Sul começaram a lutar para que sua antiga região fosse reconstituída, opondo-se ao domínio das elites do norte desde a unificação nacional de maio de 1990. Os sulistas também protestavam contra a relegação do poder civil e de serviços de segurança.


Em uma breve guerra civil na qual exércitos não integrados do norte e do sul se enfrentaram, o exército do sul foi derrotado, mantendo a reunificação do Iêmen. Naquela época, no contexto de um ditador altamente repressivo e corrupto por já quase duas décadas no poder, o movimento Houthi nasceu, predominantemente como força zaidi xiita, representando cerca de 40 por cento da população do Iêmen.


Sob liderança de Hussein Badreddin al-Houthi, esse grupo surgiu como oposição ao então presidente Ali Abdullah Saleh a quem eles acusaram de corrupção financeira massiva, além de repressivo e apoiado pela Arábia Saudita e pelos EUA (Who Are the Houthis, and Why Are We at War with Them?).


O movimento Houthi atraiu seguidores zaidi-xiitas no Iêmen ao defender questões político-religiosas regionais em sua mídia, tais como a oposição à aliança saudita-israelo-americana. 

 

Até o início dos anos 2000, os houthis eram um movimento de protesto de significado apenas local, opondo-se à marginalização de sua região de origem e à discriminação social e política dos zaidis xiitas (War in Yemen: Revolution and Saudi Intervention).

 

Anos 2000, "Guerra ao Terror". A "Guerra ao Terror" dos EUA no Iêmen foi, como em outros lugares, um engajamento para afirmar os fantoches locais de Washington favorecendo as elites em troca da garantia dos interesses geoestratégicos americanos na região, ao mesmo tempo em que Washington fez vista grossa à repressão de sua marionete local. E acabou, como previsível então, apenas gerando mais terror - no Iêmen assim como em todos os lugares.

O presidente Ali Abdullah Saleh atraiu ajuda externa ampliando o que chamou de risco representado por grupos militantes, especialmente a Al Qaeda na Península Arábica (AQAP).

Isso permitiu que ele direcionasse recursos para sua própria sobrevivência política ao longo dos anos 2000. Assim, o ditador começou a personalizar o uso da força repressiva, colocando a maioria dos setores das forças armadas e serviços de inteligência sob controle de seus familiares (Toward a Just Peace in Yemen).

 

Desta maneira, o clã de Saleh estava armado, sob a luz verde do Tio Sam. Mais um no Oriente Médio sob aprouve dos EUA, e aplauso entusiástico dos sionistas.


Esperando obter apoio internacional mais forte, o ditador Saleh acusou os houthis de cooperar com a Al-Qaeda. Na verdade, porém, os houthis eram e ainda permanecem firmemente contra a Al-Qaeda e os movimentos sunitas salafistas (apoiados pelos sauditas).

 

Em conversa com este jornalista, Timo Kivimäki observou:

"Para os Estados Unidos, a Guerra ao Terror foi um projeto tão importante que não poderia tolerar um governo que não aceitasse o papel militar independente americano dentro do território do povo iemenita.

"Ao mesmo tempo, poucas pessoas aceitam esse papel para qualquer poder estrangeiro, o direito do poder externo de decidir quem deve ser morto por um ataque de drones e, portanto, não há muita esperança de que qualquer governo iemenita seja aceito tanto pelos EUA quanto por seu próprio povo."

 

Conforme apontado por Popp:

"O apoio da Arábia Saudita aos ensinamentos salafistas e ao financiamento de centros extremistas na região de origem Sa'ada, foi um dos fatores-chave para o surgimento do movimento Houthi".

O movimento Houthi se radicalizou e se engajou politicamente entre 2004 e 2010, no curso de seis guerras impiedosamente travadas pelo governo central sob Saleh (War in Yemen: Revolution and Saudi Intervention).


De outubro a dezembro de 2007, uma série de manifestações oposicionistas em todo o pais contra o regime de Saleh ocorreu no Iêmen. (Southern Yemenis Protest Yemeni Central Government, 2007-2009).


Saleh convidou todos os partidos políticos, organizações da sociedade civil e lideranças comunitárias para a mesa de diálogo a fim de encontrar soluções para as crises. No entanto, o convite ao diálogo não se estendeu à rebelião Houthi ou aos grupos armados do sul (Saleh Calls for Dialogue, Opposition Doubtful).

A história mostra que os iemenitas estavam certos em nunca confiar nas propostas de acordo do ditador, o que seria vergonhosamente verdade, também, desde a "Primavera" de 2011 no país, levando-o ao caos atual.

Manifestações de oposição em massa ocorreram novamente entre novembro de 2008 e dezembro de 2009, pela secessão e pela restauração de um estado independente no sul do Iêmen.

 

"Primavera" de 2011. "O Iêmen não é como a Tunísia ou o Egito", disse em 7 de fevereiro de 2011 o ministro das Relações Exteriores iemenita, Abu Bakr al-Qirbi, quando as revoltas começaram a eclodir no país. O regime de Saleh, protegido pelos regimes de Washington e Riad, estava enviando uma mensagem clara de repressão ao povo iemenita.

 

Assim como na Tunísia e no Egito, a oposição no Iêmen protestava, entre outras questões, contra o governo autoritário do presidente Saleh, no poder em Sana'a desde 1978.

Desde o início dos protestos populares em todo o Iêmen até sua fuga para a Arábia Saudita em junho daquele ano, o presidente Saleh, apoiado por Riad e Dubai e ainda aliado dos EUA, cometeu crimes contra civis.


Os protestos contra o regime repressivo, desemprego, a política econômica, corrupção e propostas do regime para modificar a Constituição tornar-se-iam, mais uma vez, uma série de eventos em que o povo iemenita seria deixado para trás, enganado por "propostas de acordo" e rascunhos constitucionais apenas favorecendo as elites e os interesses geoestratégicos estrangeiros. E reprimindo o povo mais que nunca na história do Iêmen, pesadelo profundo que se estende aos dias de hoje, e se intensifica cada vez mais.

 

Novos setores da sociedade e até não xiitas logo começaram a apoiar os houthis, devido à sua firme oposição à influência da elite do poder estabelecido e, em particular, à sua postura convincente contra a corrupção onipresente da burocracia governamental.


Posição semelhante à da ONU quando se trata do Iêmen: o organismo internacional só considerou, ao longo dos anos, os interesses do Estado, nunca as reivindicações e necessidades populares.

Motivados a conter o que caracterizaram de golpe apoiado do Irã, a coalizão emirado-saudita foi lançada em 2011 pelo regime pró-Saleh com o objetivo inicial de resolver e prevenir os efeitos das molas árabes. No Iêmen, essa coalizão foi notavelmente perceptível (The Other Side of the Yemeni War: UAE and Saudi Arabia Soft-Hard Power Games in Socotra).


O processo de transição de 2011, apoiado pelos EUA e pelo Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), excluiu grupos locais: acabou, é claro, frustrando a transição, apenas apenas aumentando a insatisfação popular e abrindo o caminho para a guerra iniciada em 2015.


Como observaram Stacey Philbrick Yadav e Jillian Schwedler, De fato, o processo de transição apoiado pelos EUA e pelo GCC que se desenrolou no final da revolta popular do Iêmen em 2011 fez escolhas políticas sobre quais grupos reconhecer e quais excluir. As escolhas sempre seriam as elites locais, corruptas e atores estrangeiros, em vez das demandas substantivas dos milhões de iemenitas que se mobilizaram para a mudança.

 

Aumentando a popularidade mesmo fora de seu eleitorado central, os manifestantes se colocaram como defensores de princípios dos objetivos revolucionários autênticos e, portanto, rejeitaram a iniciativa do GCC: na prática, uma tentativa dos árabes do Golfo e dos EUA de garantir que o poder permanecesse com as tradicionais elites, e a fim de salvaguardar seus próprios interesses estratégicos. O que eles conseguiriam.

Quando o ex-vice-presidente Abdrabbuh Mansur Hadi sucedeu Saleh em 2012, refugiado na Arábia Saudita, "ele criou comitês ad hoc onde a tomada de decisão real ocorreu sem qualquer participação dos houthis ou das vozes daquelas mulheres e jovens independentes que foram tão cruciais para o sucesso do levante de 2011" (Yadav e Schwedler).

 

Os debates da Conferência Nacional de Diálogo, de março de 2013 a janeiro de 2014, teoricamente deveriam ter levado a uma espécie de refundação da República: democratização, federalização e um compromisso de partilha de poder entre velhas elites e ativistas revolucionários.

Da Arábia Saudita, Saleh utilizou-se de suas conexões internas e redes de patrocínio para sabotar o processo de transição. As atividades militares, então, intensificaram-se.

Desde o final de 2017, Hadi reside em Riad em prisão domiciliar. Somente em abril de 2022, ele transferiria seus poderes para um recém-formado Conselho de Liderança Presidencial liderado por Rashad al-Alimi, que buscaria uma solução política para a guerra do Iêmen.

O advogado e ativista de direitos humanos envolvido na organização de protestos, Khaled al-Anesi, afirmou na época: "Há um movimento popular e um movimento político no Iêmen. Mas não há apoio dos partidos políticos para o movimento popular, que é não está organizado. Ainda é fraco e está nos estágios iniciais."

 

Na entrevista a este autor, Kivimäki afirmou:

"As pessoas sentem que o Estado serve apenas a alguns dos grupos do país, enquanto as elites políticas também usam o Estado para privilegiar seus próprios grupos étnicos, religiosos, regionais ou outros. Tal faccionalismo explica quase metade das fatalidades da violência organizada no MENA [Oriente Médio e Norte da África]".

O especialista finlandês em conflitos internacionais, autor de vários livros sobre o assunto, acrescentou:

"O 'governo' iemenita manteve grande parte da guerra iemenita fora do território iemenita, apoiado por um aliado americano, a Arábia Saudita, incapaz de criar um Estado que pudesse servir como instrumento do povo iemenita."

Tanto quanto o conflito vai muito além de uma guerra por procuração e sectarismo local, no Iêmen uma das questões muito sérias não é apenas a catástrofe humanitária escondida do mundo – ocultada, também, para esconder esse outro fator claro que é a causa da a tragédia atual: está ocorrendo no país o apoio a organizações terroristas para combater aqueles que lutam contra as elites locais, que favorecem a aliança EUA-Saudita-Israel.

 

'Trégua'  

 

No último dia 2, apoiadas pelas Nações Unidas as partes envolvidas no conflito no país do extremo sul da Península Arábica, concordaram em estender a "trégua" de quatro meses por mais dois meses.

 

Desde 2016, Emirados Árabes Unidos apoia separatistas ao sul, fornecendo-lhes ajuda militar e financeira. Os sulistas são ativistas fieis ao Conselho de Transição Sul (STC), que visa restaurar a independência no sul de um total de cerca de 90.000 combatentes.


No sul do Iêmen, a liderança dos separatistas compartilha a visão de mundo dos Emirados Árabes Unidos sobre o Islã apolítico. Embora os Emirados Árabes Unidos tenham se concentrado mais no sul do que os Sadis no norte, as lutas no sul do Iêmen estão aumentando drasticamente, especialmente desde 2019 (Who Are South Yemen’s Separatists?).


Por outro lado, a Al-Qaeda e o chamado Estado Islâmico estão lutando contra os houthis - em conflito com os sulistas - como apóstatas.

"Dado que as partes do conflito têm ideias muito diferentes sobre como pode ser um processo de paz, será muito difícil fazer a transição da trégua para as negociações", disse à Reuters Peter Salisbury, do Crisis Group.

 

A Human Rights Watch tem instado EUA, França e Reino Unido e outros, a interromper vendas de armas a aliados na guerra do Iêmen cuja tragédia, como apontado no início desta pesquisa, está aquecendo as agonizantes economias das grandes potências, por meio exatamente do comércio beligerante.

 

Apesar dos horrores do conflito, em 7 de outubro de 2021 o Conselho de Direitos Humanos da ONU não renovou o mandato do Grupo de Eminentes Peritos no Iêmen (GEE, na sigla em inglês). Formado em 2017, o GEE monitorava todas as alegadas violações e abusos de direito internacional no Iêmen, produzindo relatórios anuais detalhando prováveis crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Para Kivimäki, o unilateralismo também tende a prejudicar as pessoas que se afirma proteger.

"Tenho certeza de que deve ser possível persuadir os governos a não apoiar isso. O que precisamos é de bons dados e exposição às consequências dos esforços internacionais das grandes potências para promulgar suas próprias interpretações de justiça", afirmou.

 

Noam Chomsky não vê muita esperança para o Iêmen no momento: "Talvez, apenas talvez, os esforços liderados pela ONU aliviem a tragédia".

Timo Kivimaki concorda, dizendo que os governos devem ser encorajados a confiar na ONU e nas instituições da ONU para a 'aplicação das normas humanitárias', para que os poderes unilaterais não tenham justificativa para isso.

“Esforços unilaterais tendem a aumentar a violência como vimos no Iêmen, enquanto meu livro recente mostrou que os esforços de manutenção da paz da ONU foram excepcionalmente bem-sucedidos na redução da violência e no combate aos problemas de crimes de guerra e crimes contra a humanidade”, concluiu o especialista finlandês em conflitos em torno do mundo.

Robert Popp considera que "Omã, o único país do GCC que não participou do ataque ao Iêmen, pode ser um mediador aceitável".

O fato é que nada está avançando no Iêmen durante a trégua de abril passado, nem mesmo o diálogo e a possibilidade de um acordo. Sem mencionar a escalada de violência, fome e doenças que ainda ocorrem em todo o país.

As perspectivas estão longe de ser otimistas para o país do Oriente Médio, em todos os aspectos levados em conta.

 

Acordo de Gângsters ou a Continuação do Terror

 
Em sua entrevista a Democracy Now!, Chomsky apontou Riad como um dos maiores violadores dos direitos humanos em todo o mundo. Há tanto que se esperar da aliança EUA-Saudita no Iêmen, quanto da "Operação Liberdade Duradoura" dos EUA para derrotar o Taliban e a Al-Qaeda no Afeganistão hoje, há 22 anos depois de seu início. 

 

Não só não há solução militar para o Iêmen, como - como no Afeganistão - o único vencedor na guerra Al-Qaeda: é "apenas" uma questão de fracasso total da aliança EUA-Saudita, novamente na história?

 

A verdade é que o fortalecimento da Al-Qaeda justifica a permanência dos EUA no Oriente Médio, a região mais rica em petróleo do mundo, e assim a bilionária economia de guerra (ao longo da história, a salvação para o capitalismo agonizante).

 

Como saída para o Iêmen nesta "trégua", assim como ela está agora (sem nenhuma perspectiva de mínima de mudança), há duas claras opções: um acordo de gângsteres ou a continuação, e até uma escalada do terror.

 
Ou, mais provavelmente, ambos venham a ser o caso apenas mantendo a regra atual: o que os EUA, o regime saudita e os sionistas melhor sabem fazer na região a fim de preservar seus interesses, não importando como.

 

Assim como o Afeganistão, o Iêmen tornou-se um atoleiro sem saída enquanto os EUA mantêm presença no Oriente Médio, seja por meio de ocupação militar direta ou por meio de guerras por procuração.

 

O atoleiro iemenita começou com a "Guerra ao Terror" dos EUA nos anos 2000, apoiando o sanguinário ditador Ali Abdullah Saleh que, em troca, fazia o papel de fantoche americano no país.

"Guerra ao Terror" no Iêmen que, como em todos os lugares, lutou contra tudo menos contra terroristas; lutou contra o povo iemenita na prática, pois manteve no poder um presidente que só praticava o terror, favoreceu as elites locais, e os interesses dos EUA longe de serem o combate ao terrorismo, ao contrário como em toda parte: só multiplicou terroristas.

 
Dupla Moral na Política dos EUA 

 

O papel saudi-árabo- americano desempenhado na tragédia do Iémen, faz recordar as palavras de John Kiriakou em entrevista a este autor, sobre o assassinato de Jamal Khashoggi.


De acordo com o ex-agente de inteligência americana, isso mostra "o dupla moral na política dos EUA: se um país é amigo dos EUA e tem problemas de direitos humanos, não há custo; se o país é hostil como o Irã, então está constantemente em perigo de sanções ou ação militar."

 

Em palestra de 2011, Chomsky alertou que EUA e aliados ocidentais têm asseguram-se de fazer o que puder a fim de impedir democracia autêntica no mundo árabe. Em sua abordagem, o especialista americano citou estudos de opinião árabe sobre os EUA realizados pelas mais prestigiadas agências de pesquisas norte-americanas, expondo que a esmagadora maioria dos árabes considera EUA e Israel maiores ameaças que enfrentam.

 

A pesquisa de Kivimaki First Do Not Harm: Do Air Raids Protect Civilians?, aponta na mesma direção:


"As pessoas que tentamos proteger, aplicando as normas humanitárias globais, também tendem a resistir à nossa proteção. No Iraque, a proteção ocidental sempre foi impopular.

"Em 2008, uma pesquisa do Departamento de Defesa dos EUA sugeriu que apenas 22 por cento dos iraquianos achavam que os Estados Unidos estavam contribuindo para a segurança de seu país, enquanto apenas 3 por cento achavam que o papel de segurança dos EUA em sua vizinhança era legítimo.

"Uma pesquisa do Ministério da Defesa britânico apontou na mesma direção. Até 82 por cento dos iraquianos se opuseram fortemente à presença de forças da coalizão em seu país, enquanto menos de 1 por cento acreditava que as forças da coalizão eram boas para sua segurança."

 

Gerar caos através de pobreza, radicalismo, terror e dividindo sociedades: método imperialista para ocupar, dominar e explorar. Nada novo - nem por isso, menos deplorável.

 

Se o discurso e as própria "política" do regime de Washington sobre relações exteriores fosse minimamente levado em conta sobre ele mesmo, internacionalmente, os EUA deveriam ser ocupados militarmente através de esforço conjunto internacional, por uma mudança de regime, levando seus líderes aos tribunais por incontáveis crimes hediondos contra a humanidade.

 

E deveria haver mudança de regime nos EUA, da ditadura bipartidária, para uma verdadeira democracia.

 

O império mais terrorista da história. Jamal Khashoggi certamente concorda, onde quer que esteja agora.

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