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Bolívia: Povo Chiquitano Acampado em Santa Cruz de la Sierra

Edu Montesanti, da Bolívia especialmente para Pravda Brasil
 
 
Cerca de 30 indígenas chiquitanos marcharam debaixo do forte sol cruzenho por 19 dias, até chegar à capital do departamento de Santa Cruz: 270 quilômetros da cidade de origem, San José de Chiquitos, a Santa Cruz de la Sierra onde chegaram em 23 de setembro.
 
Liderados pela grande cacique geral da nação chiquitana, Beatriz Anselma Tapanaché, os representantes do povo originário da Chiquitania boliviana, região oriental do país andino, seguem acampados na central e icônica Praça 24 de Setembro. Sem nenhuma resposta do governo nacional às suas reivindicações.
 
24 horas por dia debaixo de suas barracas pelo direito à terra e pela preservação ambiental. Ingrata luta dos cerca de 50 mil chiquitanos que compõem esta etnia em solo boliviano, falantes de espanhol e da língua originária, o bésiro: contra tudo e contra todos bem semelhante à do povo chiquitano do território brasileiro, habitante da região de Mato Grosso, na fronteira com a Bolívia.
 
Contexto
 
Em agosto, Lino Peña Vaca, um dos líderes chiquitanos, foi assassinado aos 78 anos em San José por espancamento ao defender suas terras em confronto com invasores do ocidente boliviano apoiados pelo governo do MAS (Movimento ao Socialismo), povos originários auto-denominados "interculturais". 
 
"Sem que tenha havido justiça até hoje", lamenta Beatriz em entrevista a Pravda Brasil, sobre a morte do companheiro de luta. "O governo diz que ele morreu por Covid, mas isso é mentira", denuncia a cacique de 64 anos, formada em Direito.
 
Os conflitos territoriais e políticos em geral na Bolívia, agravam-se dramaticamente diante de um governo que fala muito mais em nome do próprio partido e da manutenção do poder, que dos interesses da sociedade como um todo. Forte marca não apenas do governo de Luis Arce, como também de seu correligionário Evo Morales.
 
Ao mesmo tempo, crescem vertiginosa e assustadoramente no país clima de tensão e bloqueios por todo o território nacional por opositores, e os mais diversos segmentos sociais tais como transportistas, pais de família por direito escolar dos filhos, docentes, profissionais de saúde, etc.
 
Os grandes meios de comunicação e analistas têm prognosticado, com razão, eclosão de feroz guerra civil.
 
Reivindicações
 
O governo Arce tem permitido (e segundo denúncias dos chiquitanos, enviado diretamente) os chamados "interculturais" para apoderar-se de suas terras para, de acordo com o povo da chiquitania, amplar domínio político.
 
Este é um dos principais pontos de protesto dos povos originários de Santa Cruz. "Algo que não ocorria nem nos tempos de ditadura neste pais", lamenta a cacique Beatriz. "Isso se chama genocídio", acrescenta.
 
Franklin Moreno Ribero (50), cacique, camponês e porta-voz da marcha, concorda com a companheira. "Este governo enche a boca para falar em defesa dos direitos indígenas, mas apenas faz política em cima dos povos originários: usa os da sua região para provocar enfrentamentos, e expandir-se com fins políticos".
 
Questionada como era a vida chiquitana nos tempos de ditadura de Hugo Banzer (1971-78), Beatriz diz que não era dada a devida importância aos habitantes da região, mas tampouco eram incomodados. 
 
"Não estamos aqui pedindo nada a este governo, apenas exigindo o direito a nossa terra", diz a cacique.

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