Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Pré-publicação: "Linhas Geopolíticas da República Popular da China"

Pré-publicação: "Linhas Geopolíticas da República Popular da China"

Da autoria do Dr. João Franco chega em Março ao mercado livreiro uma análise lúcida sobre o gigante asiático finda a hegemonia americana, sem juízos de valor e despojada de qualquer preconceito ideológico.

Flávio Gonçalves, Pravda.ru

É notório que ao longo da última década e com o ocaso americano, iniciado com Obama e em passo acelerado sob o governo de Donald Trump, a China tem vindo a ocupar um lugar cimeiro na geopolítica mundial marcando presença tanto na América Latina como em África, o Pravda.ru publica em exclusivo a introdução a esta edição do Instituto de Altos Estudos em Geopolítica e Ciências Auxiliares.

PRÉ-PUBLICAÇÃO


Introdução

Desde há muitos anos que a China, e sobretudo o despertar da China, têm povoado o imaginário dos povos do Ocidente. Guilherme II da Alemanha alertava para "o perigo amarelo" enquanto Alain Peyreffite escreveria bastante mais tarde o livro Quando a China despertar... o mundo tremerá. Até o português Eça de Queirós esmiuçou as "chinesices" desse povo sóbrio, sofredor, tenaz e laborioso.

Outros ocidentais mergulharam de cabeça na China e na sua cultura, fascinados por esta civilização milenar, debitando depois livros e pensamentos variados, como Simon Leys, conhecido sinólogo, autor entre outras obras de Ensaios sobre a China.

O futuro da República Popular da China (RPC) é, na nossa opinião, uma das questões mais prementes da actualidade, dado o impacto que poderá ter a nível global o desenlace da aventura chinesa iniciada em 1949. Assim, o título deste livro é: Linhas Geopolíticas da República Popular da China, porque esta obra não tem veleidades de ser uma obra exaustiva sobre o assunto que trata, mas apenas de esmiuçar algumas das questões mais pertinentes, e assim, este volume não se assume como um tratado exaustivo sobre a geopolítica da República Popular da China, mas mais como um sumário das linhas essenciais para compreendê-la, uma introdução a esta temática que permitirá ao leitor ficar com as bases para aprofundar este assunto futuramente.
Sendo uma potência continental por natureza, e uma vez acabada a ameaça real terrestre de uma União Soviética a Norte, a China percebeu que teria de se apoiar num esforço crescente na maritimização do país, nomeadamente das Forças Armadas, pois necessita de capacidade de projecção de forças nos três mares que lhe são contíguos (Mar Amarelo, Mar do Leste da China e Mar do Sul da China), e até no Pacífico, se quiser ser a potência regional.  Mais recentemente, a RPC demonstra um interesse crescente pelo Índico, procurando bases e aliados para isolar a rival Índia. O corolário dessa maritimização é sem sombra de dúvida o ambicioso programa de construção de porta-aviões. Até produzir os seus porta-aviões nativos, a China utilizou o recuperado porta-aviões ex-soviético inacabado, Varyag, comprado em 1998 à Ucrânia, agora rebaptizado Liaoning, sobretudo como plataforma de testes para vários sistemas de armas e para treino de pilotos em aterragem e descolagem em porta-aviões. Com base nessa tecnologia soviética, a China construiu domesticamente o Shandong, que entrou ao serviço em 2019. Tanto o Liaoning como o Shandong, estão limitados ao lançamento de aviões menos avançados, como o Shenyang J-15, desenvolvido especificamente para operar em porta-aviões, mas um terceiro porta-aviões, actualmente em construção, usará já um sistema mais eficaz de lançamento e recolha, permitindo-lhe operar aviões mais modernos como o Shenyang J-31 e o Chengdu J-20, dando à marinha chinesa uma muito maior capacidade de combate aéreo.

Nos últimos vinte anos o orçamento militar da RPC não tem cessado de aumentar, focando-se sobretudo na aquisição de equipamentos que permitam o desenvolvimento de operações de forças conjuntas em ambientes altamente tecnológicos, passando de uma força essencialmente terrestre e defensiva para uma força capaz de levar a cabo operações militares multi-ramos além das fronteiras chinesas. Cada vez mais, as forças chinesas são encontradas em missões mais afastadas do seu país, sobretudo no Mar do Sul da China, objecto de ambiciosas reivindicações chinesas que chocam com muitos dos países da região.

A organização deste livro será feita de molde a focar alguns aspectos essenciais da geopolítica da República Popular da China, começando pela caracterização do espaço chinês, em termos geográficos, humanos, políticos e económicos, passando depois a tecer algumas considerações sobre o lugar da China nas teorias geopolíticas de alguns pensadores fundamentais para esta área, como Halford Mackinder, Nicholas Spykman e Samuel Cohen, sendo que este último tem uma grande importância, quando olhamos para a direcção que está a tomar a projecção de poder chinesa, para o Mar do Sul da China e para o shatterbelt  do Sudeste Asiático, tal como aquele último o definiu. Seguidamente, tentaremos esboçar uma pequena resenha histórica da República Popular da China, desde a sua fundação em 1949 até aos nossos dias.

Achamos importante que de seguida se caracterize o poderio militar chinês, o que nos leva a várias ramificações, como sejam o complexo militar-industrial chinês, o Exército Popular de Libertação (inclui Exército, Marinha e Força Aérea), a capacidade nuclear chinesa, e a capacidade chinesa para a guerra electrónica, guerra no ciberespaço, comunicações e informações, algo no qual os dirigentes chineses se focam cada vez mais. Este último aspecto será cada vez mais relevante em situações de conflito, como se tem visto a partir da Guerra do Golfo de 1991, e a colocação em órbita da constelação de satélites de navegação BeiDou, cujo último satélite ficou operacional em Junho de 2020, dá à China uma extraordinária capacidade e independência dos sistemas GPS norte-americano e GLONASS russo.

O orçamento militar chinês não cessa de aumentar de ano para ano, e crê-se mesmo que as despesas reais são muito superiores às orçamentadas. A RPC parece apostar na modernização e incremento dos seus sistemas de mísseis convencionais, e especialmente na modernização e aumento dos efectivos da sua Marinha, nomeadamente para operações em águas profundas. Depois da existência do Mediterrâneo per se, e do chamado Mediterrâneo americano (Mar das Caraíbas e Estados ribeirinhos), a RPC parece procurar a hegemonia num Mediterrâneo chinês (Mar do Leste da China e principalmente Mar do Sul da China) impondo a sua vontade aos Estados da área, tendo em vista os recursos submarinos da zona em gás natural e petróleo, os quais se revestirão de uma importância cada vez maior no futuro, dada a crescente dependência chinesa da importação de matérias-primas, e de combustíveis fósseis. A existência de nódulos metálicos exploráveis no fundo do mar é outro dos atractivos da região.

No capítulo seguinte, iremos ver de mais perto as relações da República Popular da China com os países que são os seus principais adversários e quais as causas que originam essas tensões. Esses países são, no nosso entender, os Estados Unidos da América, a Índia, a Rússia, o Japão e o Vietname.

A questão de Taiwan, um dos principais focos de tensão entre a República Popular da China e os Estados Unidos da América, será abordada num capítulo próprio, em que contamos dar uma visão geral sobre este diferendo, incluindo uma breve evolução histórica da situação.

Num mundo em que se compete cada vez mais pelos recursos energéticos, a questão dos recursos petrolíferos está cada vez mais presente no nosso quotidiano, e a República Popular da China é um país que avança em duas frentes para garantir o acesso aos recursos energéticos de que necessita para manter o seu crescimento económico. Essas duas áreas geográficas, uma terrestre e outra marítima, também irão ser indicadas e abordadas, bem como a quase megalómana "Iniciativa Belt and Road".

O último capítulo deste livro, fala na criação de um grande espaço económico, cultural e político, tendo como epicentro a República Popular da China, e baseado na cultura e na etnia chinesas. Tal espaço não pode deixar de fazer lembrar a propalada Esfera de Co-prosperidade japonesa durante a IIª Guerra Mundial.

Há contudo, ao longo do livro, algo que é transversal, e que é a importante questão que se coloca: conseguirá a República Popular da China descolar economicamente e tornar-se a potência hegemónica na Ásia, ou mesmo a nível global, ou pelo contrário, iremos assistir a uma regressão chinesa nos próximos anos e até a uma possível fragmentação do território chinês, com todas as consequências desestabilizadoras para o Extremo Oriente que daí advirão?

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João Franco é licenciado em Relações Internacionais pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e pós-graduado em Estratégia. Publica regularmente artigos sobre Geopolítica e Relações Internacionais em revistas especializadas, nacionais e estrangeiras.

Ficha Técnica
Título: Linhas Geopolíticas da República Popular da China
Autor: João Franco
Editor: IAEGCA
ISBN: 978-989-33-1471-5
Páginas: 220
PVP: 15€ (papel); 5€ (Kindle)

 

Foto: Pixabay