Mídia Ocidental Mente sobre Ocupação dos EUA: Líder Afegã

Mídia Ocidental Mente sobre Ocupação dos EUA: Líder Afegã
Friba (*), representante da Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão (RAWA, na sigla em inglês), fala com exclusividade a Pravda.ru sobre o processo de paz em seu país, e a cobertura midiática global destes 17 anos da Guerra do Afeganistão

"Esses diálogos de paz são, mais que tudo, parte da propaganda dos EUA a fim de enganar o mundo e o povo afegão", diz a afegã, defensora dos direitos humanos quem ainda traz sérias denúncias sobre crimes de guerra e de lesa-humanidade.
Edu Montesanti: A RAWA opõe-se fortemente a qualquer negociação entre os EUA, o governo afegão e o Taliban. Esta possibilidade torna-se ainda mais irrealista, para não dizer hipócrita, levando-se em consideração que agora o Estado Islamita (ISIS) também aterroriza seu país. O que você acha deste processo de paz afegão?
Friba: As negociações de paz com o Taleban são algo completamente sem sentido, hipócritas e simplesmente ridículas. Temos os talibans de um lado, criminosos de mentalidade medieval, do outro lado o regime fantoche composto pelos irmãos ideológicos do Taliban, e o terceiro ator, os EUA, criadores de ambos. Tal acordo de paz não resultará em paz, mas no cumprimento dos desejos dos EUA. O único resultado certo desse acordo de paz é que intensificará a guerra, a insegurança, a corrupção, a máfia e a multiplicação das misérias do nosso povo.
 
Os crimes do Taliban são bem conhecidos de todo o mundo, suas leis da Idade da Pedra e a opressão contra as mulheres sob seu regime brutal já foram amplamente exibidos em todo o mundo. Na última década, esses assassinos derramaram o sangue de milhares de pessoas inocentes através de atentados suicidas, e outros tipos de atentados à bomba.
 
Enquanto essas lembranças ainda estão fortemente presentes nas mentes de nossas mulheres e homens, e as feridas ainda sangram, esses criminosos estão sendo convidados a juntar-se ao governo para completar o círculo de criminosos fundamentalistas e mercenários no poder. Como os criminosos que já estão presentes no governo, os talibans também desfrutam de total impunidade e não enfrentam processos pelos crimes selvagens contra o nosso povo.
 
A mera menção dessas conversas de paz está derramando sal nas feridas de nosso sofrido povo. Assim como o acordo de paz alcançado com o assassino Gulbuddin Hekmatyar no ano passado, foi mais um golpe para o povo devastado pela guerra no Afeganistão. Um criminoso que matou milhares de pessoas inocentes durante a Guerra Civil afegã, assassinou dezenas de intelectuais e costumava jogar ácido no rosto das mulheres que eram vistas em público, quando ele era estudante universitário, pisoteou os túmulos das suas vítimas em direção aos braços dos EUA e de Ashraf Ghani [presidente do Afeganistão].
 
Os ocupantes dos EUA deram ao seu garoto de olhos azuis e agente de longa-data, imunidade contra processos judiciais e retiraram seu nome da lista negra da ONU, para que ele pudesse se juntar aos companheiros traidores e criminosos neste governo fantoche. 
Esses diálogos de paz são, mais que tudo, parte da propaganda dos EUA a fim de enganar o mundo e o povo afegão. Se os EUA quisessem um acordo de paz, teriam resolvido esse problema com facilidade porque são os próprios criadores e defensores desses criminosos.
O Paquistão, pai adotivo do Taliban, também está sob comando dos EUA, e teria garantido a aprovação do acordo de paz. Mas os EUA não querem esse acordo de paz, porque o Taliban é sua justificativa para empreender a guerra no Afeganistão, e os EUA precisam urgentemente continuar ocupando nosso país.
 
Qualquer acordo de paz alcançado sem a participação do povo, especialmente das mulheres do Afeganistão, não tem sentido assim como a democracia e as eleições no Afeganistão são apenas uma fachada. Ganhos obtidos sem a verdadeira luta do povo são apenas mudanças impostas por invasores estrangeiros ou governos fantoches, e essas mudanças podem ser tão facilmente revertidas quanto são implementadas.
Edu Montesanti: Enquanto Donald Trump manifesta desejos de abandonar o Afeganistão, o que você pode dizer sobre a cobertura midiática destes 17 anos de ocupação do regime de Washington, e sua denominada "luta contra o terror"?
 
Friba: Apesar do anúncio da chamada nova estratégia de Washington, há tantas coisas que não sabemos sobre a criminosa Guerra Afegã dos EUA, devido à falta de transparência e às mentiras descaradas contadas pelo exército dos EUA nos últimos dezessete anos.
 
Desde o encobrimento de crimes hediondos, que vão de massacres e torturas à assistência a criminosos fundamentalistas, até a mentira sobre o efetivo número de tropas e empreiteiros privados no país, os EUA continuamente enganaram o mundo e sua própria nação sobre a realidade da Guerra Afegã
 
O Afeganistão mal recebe qualquer cobertura midiática, mas quando raramente isso ocorre os crimes das forças dos EUA nunca são mostrados, assim como a insegurança e a instabilidade do nosso país e a devastadora situação das mulheres e das pessoas, não recebem nenhuma atenção.
 
Graças à mentirosa máquina de propaganda dos EUA baseada em Goebbels [Paul Joseph Goebbels, ministro de Propaganda da Alemanha Nazista entre 1933 e 1945, que dizia que "uma mentira contada mil vezes torna-se verdade"], os EUA conseguiram escapar impunes de grande parte das suas atividades criminosas, não apenas na Guerra do Afeganistão como igualmente em guerras no Iraque, na Líbia e na Síria, mentindo ao seu povo. A própria sustentação das atuais guerras dos EUA baseou-se em alegações falsas ou exageradas de uma mídia histérica, que espalhou medo entre as pessoas para justificar as invasões e ocupações dos EUA em outros países.
 
Naturalmente, a devastação de nosso país, política, social e economicamente, é o resultado direto dessa ocupação e dominação. Nosso povo tem provado a guerra neocolonial de 17 anos dos EUA, e os desastres que ela causa. Insegurança, guerra, assassinatos, tortura, violência contra as mulheres, pobreza, máfia, corrupção, desemprego, crise de refugiados, aumento do consumo de drogas, estão todos presentes na ocupação norte-americana sobre nosso povo.
Esta realidade tem cobertura zero em todo o mundo, e é doloroso constatar como as pessoas têm uma imagem distorcida da guerra criminosa dos EUA no Afeganistão e em outros países. Os cidadãos dos EUA e do Ocidente não têm a imagem verdadeira das guerras dos EUA para tomar decisões adequadas, esclarecidas sobre elas. Eles devem enxergar além da cobertura predominante, e descobrir a realidade da Guerra Afegã e de outras cruzadas lideradas pelos EUA.
 
Eles devem saber que o imposto que pagam é usado por seus governos para promover objetivos imperialistas, no Afeganistão e em outros países devastados pela guerra, e que suas mãos estão encharcadas do sangue do nosso povo inocente. Eles devem saber que os EUA, embora afirmem liderar uma "Guerra ao Terror" no exterior, estão realmente alimentando terroristas e grupos terroristas para alcançar seus próprios objetivos.
Devem saber que, embora Washingon afirme ser o portador da tocha dos direitos humanos, seu governo tem cometido alguns dos crimes mais sangrentos em suas guerras, e forneceu apoio aos violadores locais de direitos humanos e criminosos de guerra nesses países.
 
Edu Montesanti: E o que se pode dizer da mídia afegã?
 
Friba: A mídia afegã, que cresceu rapidamente desde a invasão dos EUA em 2001, também tem a mesma política de encobrir e deixar passar os crimes e os planos malignos dos EUA no Afeganistão, em vez de expô-los.
Edu Montesanti: Temos visto no Brasil o avanço de muitos movimentos de origem e aspecto obscuro, com evidências de que são financiados pelos EUA para atingir seus objetivos no país sul-americano, nenhuma novidade na historia da região e do próprio mundo. Na realidade, trata-se de padrão mundial atualmente, a denominada Revolução Colorida idealizada pelo estadunidense Gene Sharp e aplicada em Tunísia, Egito, Síria, Venezuela, Brazil, Ucrânia entre outros países, tentada por Washington sem sucesso também em Cuba, recentemente. Conversei com alguns estudantes afegãos nos EUA, especialmente uma universitaria cujo primeiro nome era Noor, que concedeu entrevistas para a grande mídia norte-americana, com um aspecto muito estranho e muito semelhante à juventude reacionária brasileira: por exemplo, esta Noor smplesmente defendeu, e raivosamente, a Guerra do Afeganistão. Quanto o regime de Washington tem influenciado a juventude afegã?
Friba: Infelizmente, esses agentes educados e treinados nos Estados Unidos aumentaram no Afeganistão, e continuam aumentando com bolsas de estudos como o Programa Fulbright e o Chevening - este segundo é britânico, mas tem os mesmos objetivos [O Reino Unido tem atuado intimamente com os EUA no processo de influencia, espionagem, imbecilização, dominação e exploração global, enfim, o velho e maldito imperialismo].
Garotas como a Noor fazem parte dos planos futuros dos EUA, para que possam continuar ocupando confortavelmente nosso país com o apoio de um Estado traidor, que inclui jovens como Noor.
Essas pessoas e movimentos não são, de fato, afiliados ao governo nem a nenhum outro movimento ou partido reacionário.
Edu Montesanti: Que mensagem você gostaria de enviar ao mundo, para terminar esta entrevista?
   
Friba: A RAWA sempre afirmou que a solidariedade das pessoas que amam a liberdade e a paz no mundo, é muito importante para fortalecer a luta de nossos povos em casa.
 
Essas pessoas precisam pressionar seus governos para mudar essa política de invasão e ocupação, e ficar ao lado das pessoas que são vítimas dessas guerras.
 
Essas sangrentas guerras também têm um forte impacto sobre as pessoas do Ocidente, como o aumento de ataques terroristas perpetrados por simpatizantes do ISIS em toda a Europa e Estados Unidos, sendo portanto vital, mais que nunca hoje, dar as mãos para aniquilar esse vírus mortal.
 
 
(*) Dado que a RAWA atua clandestinamente no Afeganistão, ameaçada pelos senhores da guerra locais e pelos talibãs, Friba é um pseudônimo. Nenhuma membro da RAWA menciona publicamente o nome real, nem mostram o rosto. Sítio na Internet: www.rawa.org
 

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Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey