O Imperador Magá no portão do Paraíso

O Imperador Magá no portão do Paraíso

Morre o Imperador Magá, cujo nome de batismo foi Antônio Carlos, do clã dos Magalhães da Bahia de Todos os Santos e Pecadores Aliados, também conhecido como ACM ou Toninho Malvadeza, dono daquela capitania hereditária no Nordeste do Brasil.

"Eu tenho o governador, os três senadores, 95% dos prefeitos, 30 dos 39 deputados federais, e me mostre alguém que tenha um poder como este onde faz política." 

Senador Antonio Carlos Magalhães, (1927-2007),

referindo-se à força política que possuía no Estado da Bahia. 

"Valor Econômico", 02/05/2000.

por Fernando Soares Campos

 

Morre o Imperador Magá, cujo nome de batismo foi Antônio Carlos, do clã dos Magalhães da Bahia de Todos os Santos e Pecadores Aliados, também conhecido como ACM ou Toninho Malvadeza, dono daquela capitania hereditária no Nordeste do Brasil. O falecido se apresenta nos portões do Paraíso, acreditando merecer o descanso eterno entre os justos. 

São Pedro consulta o Livro da Vida e acaba informando àquela alma senadora que os registros sobre a sua passagem na Terra não lhe são favoráveis. 

São Pedro: - Vossa ex-Excelência queira nos desculpar, mas aqui no Livro da Vida consta que o senhor cometeu seis dos sete pecados capitais: gula, luxúria, avareza, ira, soberba e vaidade, portanto não podemos admitir que uma pessoa assim possa usufruir os mesmos direitos que, por exemplo, Madre Teresa de Calcutá conquistou. Não dá para admiti-lo aqui entre os justos. Sorry. 

O Imperador Magá faz a sua defesa: 

Magá: - Como meu santo falou, cometi seis dos sete pecados capitais: gula, luxúria, avareza, ira, soberba e vaidade, mas não pequei pelo sétimo, a preguiça. Trabalhei feito um louco para obter meu primeiro mandato de deputado federal, labutei ainda mais para assumir a governança do meu Estado em três mandatos, mas nem mesmo o primeiro, uma concessão do governo militar, foi tão fácil de conseguir. Pra chegar ao Senado, Vossa Santidade sabe quanto suor temos que verter. Lá embaixo me ensinaram que quem trabalha merece descanso, assim sendo, na condição de secretário de Jota Cristo, Vossa Apostólica criatura conhece o Sermão da Montanha, e lá foi dito: "Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus". E, pelo muito que trabalhei, sei que sou merecedor de grande recompensa.

São Pedro: - É um caso a ser analisado minuciosamente, é um daqueles que a gente precisa consultar o Chefe, pois, apesar dessa sua virtude, a de ser um trabalhador incansável, aqui está escrito que o senhor apoiou uma mórbida ditadura militar, em que muitos inocentes foram torturados e até friamente assassinados.

Magá: - Não nego, pois não sou de negar o que realmente fiz. Posso ter apoiado essa tal ditadura, mas depois dela, já que não quiseram fazer de mim o chefe da nação brasileira, eu poderia ter mandado matar o presidente da República, mas não mandei; poderia ter mandado, como Hitler fez com outros povos, muitos milhões de nordestinos para os fornos crematórios, mas não mandei; poderia ter invadido o Piauí, como Bush no Iraque, mas não invadi; poderia ter transformado Sergipe em territórios ocupados pelo meu reino, mas não transformei... Todo mundo sabe que uma das maiores virtudes do ser humano está no fato de se esforçar e evitar o cometimento de atos que possam trazer dor e sofrimento ao seu semelhante. E assim eu me comportei na maioria das vezes em que sentia vontade de livrar alguém do inferno terrestre e mandá-lo para o inferno além-túmulo...

São Pedro (cofiando a barba): - Hum! Deixa eu dar mais uma espiadinha no Livro da Vida  - folheia algumas páginas e se detém no capítulo "Brasil", corre o dedo verificando os subitens "Bahia" e "Governos", até identificar novamente a biografia de ACM -. É, aqui só fala dos pecados cometidos, não cita aqueles que, por algum motivo que só Deus sabe, foram evitados ou impossibilitados de serem realizados... 

ACM: 

- Então, com a vossa autoridade papal, é possível que já possa reconhecer que tenho cá os meus méritos...

São Pedro: 

- Devagar com o andor, que o santo é de barro! O nosso regulamento interno estabelece que, para ser admitido nesta sublime morada do Senhor, a alma pleiteante deve ter sido muito corajosa nos tempos que viveu na Terra...

ACM (rindo):  

- Se fosse só por isso, meu santo, a gente nem precisava ter jogado tanta conversa fora, pois todo mundo sabe que fui uma pessoa arrojada, fiz da coragem o lema de minha vida.

São Pedro: 

-

Não duvido, aqui diz até que chegou esmurrar a mesa do gabinete do presidente da República, com ele sentado do outro lado.

ACM:  - Mas isso aí não tem muito merecimento, pois o presidente era o FHC, um frouxo, que comia na minha mão. Eu já disse numa entrevista que, com ele, só não fiz sexo  - gargalhando.

São Pedro: 

- Contenha-se, ex-Excelência Senatorial, guarde essas suas indiscretas afirmações para quando estiver conversando com seus parceiros demistas e tucanos.

ACM: 

- Como assim, venerável criatura?! Se vou ser admitido no Paraíso, provavelmente, a partir de agora, não terei mais oportunidade de estar cara a cara com nenhum daqueles corruptos! Por tudo que aqui discutimos, podemos concluir que tenho direito à entrada no Céu garantido pela Legislação Divina, que estabelece a conduta moral de ser humano na Terra...

São Pedro: 

- Pode ser...

ACM: - E, além de tudo que discutimos, uma coisa está chamando a minha atenção.

São Pedro: O quê? 

ACM:   Olha lá, meu santo - aponta para um velhinho que passeia pelos jardins do Éden. - Tá vendo aquele velhinho ali? 

O Divino Porteiro do Paraíso avista o velhinho passeando e tocando sua harpa romana. 

São Pedro: - Sim, é o Tancredo Neves. E daí? 

ACM: - E daí que ele foi advogado e político. Chegou até a ser eleito presidente da República por um colégio eleitoral. Então, se ele entrou, eu também tenho meus direitos. 

São Pedro (agora coçando a barba): - Eu já falei pra Jesus que a jurisprudência vai acabar transformando isso aqui num inferno! 

 

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Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey