A Banalização do Mal

Zona de Interesse (Zone of Interest) é um livro do americano Martin Amis, que a Companhia das Letras lançou há pouco mais de um ano sua tradução para o português.

O nome era uma ironia macabra dos nazistas. Zona de Interesse, em Auschwitz, era o local onde os judeus que chegavam ao campo, passavam por uma triagem na estação ferroviária, processo que determinava se seriam mandados para trabalhos forçados durante algum tempo, ou iriam diretamente para as câmaras de gás.

Para evitar alguma confusão, os alemães montavam um verdadeiro circo, até mesmo com banda de música e promessas de banho quente e alimentação farta para os que chegavam diariamente nos trens vindos dos diversos países ocupados pelos nazistas.

A ideia era fazer crer aos judeus que eles iriam trabalhar para os alemães durante algum tempo e depois voltar aos seus lares. A ilusão só terminava quando eram fechadas as grandes portas que deveriam levar os presos para os chuveiros, mas que eram realmente câmaras de gás.

O livro retoma na forma de ficção, o tema da banalidade do mal, que Hannah Arendt havia tornado universal com a cobertura que fez do julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, em 1961, para a revista The New Yorker, posteriormente transformado em livro com o título de Eichmann em Jerusalém (Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evyl - Companhia das Letras, 2011).

Antes de Amis, Jonathan Littel, dentro da mesma linha, misturou ficção e realidade para contar a história de Maximilien Aue, oficial da SS nazista que participa do extermínio de judeus na segunda guerra, no seu livro As Benevolentes (Les Bienveillantes , Editora Objetiva, 2007).

Seguindo o procedimento burocrático, que Hannah Arendt identificou no comportamento de Eichmann, Littel mostra até que ponto a alienação da ideologia nazista transformou burocratas em verdadeiros monstros, imunes a qualquer sentimento de culpa e por isso mesmo capazes de manter uma vida "normal" fora de suas funções "profissionais".

Jorge Semprun, em a Longa Viagem (Le Grand Voyage, Editora Arcadia -1963) ao descrever sua internação em Buchenwald, de certa maneira já havia antecipado essa visão de um campo de concentração nazista.

Nenhum deles conseguiu, porém, o mesmo impacto da obra de Amis que, a parte este caráter sociológico, tem uma qualidade literária admirável.

Um livro que prende a atenção do leitor da primeira à última de suas quase 400 páginas.

A história é contada, de forma intercalada, por três personagens: Angelus Thonsen, oficial do exército, sobrinho de Martin Bormann, o secretário pessoal de Hitler, um cético quanto os objetivos nazistas; Paul Doll, comandante do campo, um bufão, sempre bêbado e desprezado pela mulher, Klara, objeto de desejo de Angelus e Szmul, integrante de um "sonderkommando", grupo formado por judeus, que em troca de algumas vantagens materiais, fazia o trabalho sujo para os alemães.

São estes "sonders" que encaminhanam os presos para as câmaras de gás e depois carregavam os cadáveres para o crematório ou para as valas comuns, não sem antes se responsabilizarem pela retirada do ouro dos dentes e os cabelos das mulheres mortas.

Na narração dos fatos, feita pelos três personagens, há uma superposição entre os acontecimentos trágicos que se desenrolam no campo -  a execução diária de centenas de homens, mulheres e crianças, as monstruosas experiências médicas com os presos e a fome permanente dos judeus preservados para o trabalho escravo - com um simulacro de vida normal dos alemães que vivem no campo.

O comandante vive com a mulher e as filhas numa casa dentro do perímetro do campo; os oficiais alemães se reúnem periodicamente para jantares e para assistir peças teatrais e apresentações de balé, como se a vida continuasse igual aos tempos anteriores à guerra.

Chama a atenção a maneira como os oficiais nazistas tratam suas ações no campo de concentração, discutindo questões que representam a vida ou a morte de milhares de pessoas como negócios comuns do dia a dia.

É como se o campo de Auschwitz fosse apenas uma grande empresa capitalista cujos sócios se dividissem entre bons e maus administradores. Em muitas discussões ficam em polos opostos os que defendem um aumento na ração de alimentos para que os presos que realizam os trabalhos escravos tenham uma vida útil maior (seriam hoje os defensores de um capitalismo com preocupações sociais) e de outro lado, os fanáticos que enxergam na destruição física dos judeus um objetivo de vida (seriam hoje os defensores do capitalismo selvagem).

Como tudo aconteceu, é uma discussão que não tem fim. Como foi possível que a Alemanha, terra de grandes filósofos, poetas e cientistas, tenha se transformada no algoz de populações inteiras durante mais de dez terríveis anos?

Tudo teria obra apenas de um maluco, Hitler?

Ou a responsabilidade deve ser dividida com o seu círculo de poder, como decidiu o tribunal de Nuremberg que incriminou: Goering, Hess, Ribbentrop, Keitel, Kaltenbrunner, Rosenberg, Frank, Frick, Streicher, Funk, Sauckel, Jodl, Seyss-Inquart, Speer, Neurath, Bormann, Schirach, Raeder, Doenitz, Schacht, Papen e Fritzsche?

Foram 19 condenações, 12 à forca, 3 à prisão perpétua e 4 à pena de prisão de 10 a 20 anos.

Isso significa a absolvição de todos os demais, que tornaram possível a existência de um sistema nazista de governo?

E os alemães que acreditavam que o nacional socialismo era a salvação do País e, em grande maioria, apoiaram os nazistas, pelo menos enquanto eles estavam ganhando a guerra?

Hoje se discute muito a responsabilidade das populações civis da Alemanha e de Israel em relação às atrocidades praticas nos países ocupados e mesmo dentro da Alemanha, pelos nazistas durante a guerra e hoje, na Faixa de Gaza e no sul do Líbano, pelos israelenses.

O que se diz mais comumente é que não se pode condenar toda uma população pelos crimes cometidos a mando dos seus dirigentes, embora tanto no caso da Alemanha, no passado e Israel, hoje, eles tenham chegado ao poder por processos eleitorais formalmente democráticos

Embora os maiores campos de extermínio - Auschwitz, Treblinka, Belzec e Majdanek - estivessem na Polônia, de 1933 (ano da ascensão dos nazistas) até 1945 (fim da guerra) existiram 16 campos de concentração dentro da Alemanha e alguns bem próximos de grandes cidades, como Sachsenhausen,  de Berlim; Bergen-Belsen, de Hannover; Dachau, de Munique e Buchenwald, de Weimar.

Esses campos, onde milhões de judeus, ciganos, doentes mentais e opositores políticos, principalmente comunistas, foram mortos, dispunham de um número enorme de funcionários, não apenas militares, mas também médicos, enfermeiros, dentistas e técnicos de vários níveis que, forçosamente, mantiveram relações comerciais e sociais com as populações em torno.

Isso sem falar nas grandes indústrias químicas, de remédios e também de armamentos que se estabeleceram nas proximidades para usar a mão de obra escrava proporcionada pelos campos de concentração, transformados em empresas financiadas pelos grandes empresários alemães.

No caso da Alemanha nazista, tema dos livros citados, é difícil admitir que a maioria da população não soubesseda existência dos campos de concentração. O mais certo é pensar que a maioria das pessoas não queria saberde suas existências.

Talvez a melhor explicação esteja num poema que tem duas versões A primeira, do pastor Martin Niemoller(1892/1986), ampliada depois por Bertold Brecht (10/02/1898 - 14/08/1956):

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram
meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram
e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar

(Pastor Niemoller)

"Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo"

(Brecht)

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 

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Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey