Grécia: O medo de sair do euro não pode continuar a nos paralisar

Chegou a hora! A decisão do governo do Syriza de transferir todos os fundos disponíveis do setor público para o Banco da Grécia marca um momento de virada política. O movimento de alto risco expõe, do modo mais claro possível, o modo como a situação modificou-se nos últimos dois meses e meio desde o acordo de fevereiro.

Naquele momento, o argumento que apareceu a favor daquele acordo foi que assim se "ganhava tempo", não importava a que doloroso preço, porque assim se prepararia o terreno para negociações chaves no verão.

O que se dizia era que, por um período de quatro meses, o Banco Central Europeu faria uma pausa na tortura que vinha impondo à economia grega desde 5 de fevereiro, quando decidiu extinguir o mais importante mecanismo para financiar os bancos gregos. Como já todos reconhecem hoje, o governo foi arrastado a assinar um acordo não equitativo, sob a pressão de um fluxo acelerado de saques e a ameaça de colapso dos bancos.

Agora, com os cofres públicos sendo esvaziados para impedir a suspensão dos pagamentos do serviço da dívida e o cumprimento de inescapável obrigações do estado, é evidente que o único tempo que se obteve trabalha a favor das instituições europeias, e que o lado grego está exposto a chantagem que se intensifica à medida que as posições gregas deterioram-se.

O clima sem precedentes de beligerância na reunião do Eurogrupo em Riga, com o ministro das Finanças da Grécia Yanis Varoufakis escarnecido e ridicularizado pelos seus contrapartes (até pelos ministros de países com o peso de Eslováquia ou Eslovênia) mostra com suficiente clareza quanta humilhação o governo teve de engolir durante os últimos dois meses.

Por trás do erro 

Em declaração importante dia 23 de abril, o vice-ministro responsável por relações econômicas internacionais, que substituíra Varoufakis no comando da equipe grega de negociações, Euclid Tsakalotos, disse que "Quando apusemos nossa assinatura no acordo de 20 de fevereiro, cometemos o erro de não assegurar que esse acordo seria um sinal para o Banco Europeu, para começar a contagem regressiva rumo à liquidez." 

Mas esse "erro" não tem a ver com algum aspecto secundário: tem a ver com o ponto central do acordo. Há uma razão específica para isso, e essa razão é de caráter político, não técnico.

O lado grego não levou em conta o que era óbvio desde o início, a saber, que o Banco Central Europeu e a União Europeia não permaneceriam sentados girando os polegares ao se verem enfrentados por um governo da esquerda radical. A maior arma no arsenal deles é a liquidez e era completamente lógico e previsível que eles recorressem àquela arma imediatamente. E naturalmente os credores têm toda a razão para continuar "apertando o nó" (como diz o primeiro-ministro Alexis Tsipras) até terem forçado o lado grego à total capitulação.

Dito de modo diferente, se com o acordo de 20 de fevereiro os financiadores tivessem concordado com "garantir liquidez", se tivessem desconectado a provisão de liquidez e os específicos planos de austeridade que eles buscam impor, eles estariam, simplesmente, se autoprivando dos melhores meios que tinham à disposição deles, para pressionar. Que Tsakalotos acreditasse que fariam tal coisa faz prova de extrema ingenuidade política, particularmente quando um grande setor do próprio partido dele vinha alertando, desde o início, sobre a inevitabilidade desse desenvolvimento.

Assim sendo, o "erro" resulta de uma hipótese de trabalho fundamentalmente errada, sobre a qual se baseou, desde o início, a estratégia do governo: que "no final chegaremos a um acordo com os credores", o que permitiria que o Syriza implementasse seu programa, sem ter de sair da Eurozona. Essa é a lógica viciosa do "europeísmo de esquerda".

E agora? Acontece o quê?

Por mais que a expressão tenha sido usada e abusada, não encontramos melhor meio para descrever a situação atual do país, senão dizer que a Grécia 'está por um fio'.

Com o método e o conteúdo da legislação sobre transferência de fundos, o governo vê-se numa situação muito difícil, não só financeiramente, como também politicamente. As precondições podem ter começado a ser criadas, na Grécia, para panelaços, manifestações preferidas das oposições reacionárias e patrocinadas do exterior, sempre que trabalham para derrubar governos de esquerda nos países latino-americanos.

A única via para escapar do confinamento na gaiola dos Memorandos e do descarrilamento do projeto do governo, implica ativar a mobilização popular, recapturando o clima combativo e esperançoso que predominava antes do acordo de 20 de fevereiro.

Não é tarde demais. Agora é precisamente o momento para falar clara e diretamente, o único falar que pode causar impacto e ativar a população, precisamente porque falar clara e diretamente é tratar o povo com o merecido respeito, como adultos e agentes, todos, do próprio destino. 

O que está em jogo na Grécia é a possibilidade de mudança radical e a abertura de uma rota rumo a uma virada política, para emancipação do povo grego, dos trabalhadores; mas está em jogo na Grécia, também, o futuro dos trabalhadores por toda a Europa.

O medo do Grexit

O medo do Grexit não pode continuar por mais tempo a nos paralisar. Chegou a hora de esclarecer, para começar, que, sejam quais forem os fundos agora canalizados para os cofres públicos nos termos da nova lei, é dinheiro 'marcado' para cobrir necessidades públicas e sociais; não é dinheiro para pagar credores.

Chegou a hora de pôr fim à conversa soporífica de "as negociações vão bem" e "o acordo está próximo".

Chegou a hora de pôr fim imediatamente às referências surreais a "soluções benéficas para todos" e a "parceiros" com os quais seríamos "proprietários solidários, da União Europeia".

Chegou a hora de revelar à opinião pública grega e internacional os dados que exponham a guerra sem trégua que está sendo feita contra o governo do Syriza.

E é hora, principalmente, de se preparar, afinal, politicamente, tecnicamente e culturalmente para a única solução honrosa: a separação para bem longe de toda essa implacável escória neoliberal.

Chegou a hora de tornar concreto o conteúdo, e explicar a viabilidade, da proposta alternativa, a começar pela iniciativa em dois passos de suspender pagamentos aos credores e nacionalizar os bancos, progredindo, se necessário, para escolher uma moeda nacional, aprovada pelos cidadãos mediante referendo popular.

Chegou a hora de pensar com seriedade, mas também com decisão e firmeza. Em momentos como esse, desastre e redenção estão bem próximos, lado a lado. 

Chegou a hora de a Grécia defender-se e responder.

6/5/2015, Stathis Kouvelakis, Jacobin Magazine
https://www.jacobinmag.com/2015/05/kouvelakis-syriza-ecb-grexit/ 

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Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey