Movimento negro brasileiro não conhece a África, diz Bosco

Movimento negro brasileiro não conhece a África, diz Bosco. 16250.jpegBrasília - O Movimento Negro brasileiro não sabe nada da África. Os africanos não querem saber se o Brasil tem racismo. Não toca a eles isso. Eles querem saber do Brasil como parceiro comercial e tecnológico. Não temos que ir lá reclamar que o Brasil é um país racista. A opinião é de João Bosco Borba, presidente da Associação Nacional de Empreendedores Afro-brasileiros (Anceabra) e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República, o "Conselhão".
Borba já esteve em 12 missões na África, seis das quais governamentais. A mais recente aconteceu no final do mês passado, quando integrou a comitiva de 66 empresários de várias áreas que durante 12 dias estiveram em Moçambique, Angola e África do Sul, numa missão comercial, dirigida pelo ministro Fernando Pimental, do Desenvolvimento Econômico, por determinação da Presidente Dilma Rousseff.
Entre as empresas estavam a Bauducco, a empreiteira OAS e a Camargo Correia, algumas das quais já estão em Angola e Moçambique.

Discurso atrasado
O presidente da Anceabra tem críticas ácidas em relação a postura do movimento negro brasileiro na relação com a África. "Nós ainda estamos com um discurso atrasado, fora da órbita. As missões não amarram projetos de longo prazo", afirma.


Ele lembrou que a SEPPIR participou de cerca de 30 missões ao continente Africano desde o primeiro Governo do Presidente Luis Inácio Lula da Silva e não conseguiu amarrrar nenhum projeto. "Que projetos a SEPPIR tem para a África? A resposta é: nenhum. Vão prá lá com uma visão imperialista, americana", acrescentou.


Segundo Borba, o maior exemplo dessa visão, que ele considera subordinada ideológicamente à visão do movimento negro norte-americano, foi o Seminário realizado em setembro, em que a SEPPIR convidou a ex-prefeita de Atlanta Shirley Franklin para falar sobre as oportunidades para jovens negros nos dois grandes eventos que acontecerão no Brasil - a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

"Fizeram um Seminário sobre a Copa do Mundo com a ex-prefeita de Atlanta que aconteceu há 12 anos. O maior exemplo de Copa do Mundo aconteceu há um ano na África do Sul, um exemplo de desenvolvimento para os negros, com foco na questão social, no empreendedorismo. Eles [lideranças do movimento negro brasileiro] continuam como uma visão desfocada, fora da realidade. É a visão imperalista, americana. É uma visão muito ruim. Baixam a cabeça para os Estados Unidos", afirmou.
Oportunidades

O presidente da Anceabra participou da mais recente missão comercial brasileira representando a Policasa, empresa da construção civil de Brasília, e outras nove que tem interesse em fazer investimentos na África.

Entre esses projetos estão, a construção de 25 mil casas populares para jovens estudantes em Moçambique, numa parceria com o Governo moçambicano. Há também possibilidades de construção de uma hidreelética na Provincia de Beira naquele país.


Ele disse que já há 20 mil brasileiros em Moçambique e 70 mil em Angola. Entre as atividades exploradas por empresas brasileiras - entre as quais a Vale do Rio Doce, a Embrapa, a Odebrecht, Queiroz Galvão e a Petrobrás - estão a construção civil, a exploração de petróleo e gás, e a construção de aeroportos e de obras de infra-estrutura.


"Agora é a hora das pequenas e médias empresas brasileiras na África. É a hora de ficarmos lá. Há toda a infra-estrutura para ser feita, calçamento arruamentos etc.", afirmou. Segundo Borba, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deverá abrir este ano uma linha de crédito de R$ 25 bilhões para empresas interessadas em investir na África e os empresários negros devem aproveitar essa oportunidade, inclusive, quando for o caso, se associando a empresários brancos para garantir o sucesso do investimento.

Países promissores
Entre os países que ele considera mais promissores para investimentos brasileiros estão Angola, África do Sul, Botswana e Ruanda - país devastado pelo genocídio praticado pelos hutus contra os tutsis, os dois grupos étnicos majoritários, em 1.994. "O maior centro de desenvolvimento tecnológico na África está em Ruanda. A Microsoft está lá. Estão construindo um centro de Desenvolvimento biotecnológico lá. É um país em que, depois do genocídio, a elite foi para a Europa e voltou com outra visão. A África é outra hoje", acrescenta.

O presidente da Anceabra garante que a comunidade branca brasileira tem uma visão muito mais próxima da África hoje. "Os negros brasileiros, infelizmente, ainda tem uma visão romântica da África. Vivem ainda no sonho", afirmou.

Sobre se o investimento brasileiro no continente não significaria mais uma etapa colonialista, Borba afirma. "Esse é um problema dos africanos, não é nosso. Os africanos sabem exatamente o que querem. Querem trocar tecnologia, querem desenvolvimento e prosperidade. Nós ainda estamos com um discurso atrasado", concluiu.

ANCEABRA

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Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey