Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Africom é a recolonização da África pelos EUA

Os revolucionários africanos têm agora que dormir de olhos bem abertos porque os Estados Unidos da América não se detêm perante nada na sua intenção de estabelecer o Africom, um exército estadunidense altamente equipado, permanentemente estacionado em África para supervisionar os interesses imperialistas norte-americanos.


Tichaona Nhamoyebonde*, em ODiario.info

No final do ano passado, o governo estadunidense intensificou os seus esforços para estabelecer um exército permanente em África, o chamado Comando de África (Africom, African Command) como a última ferramenta da sutil recolonização de África.


Antes do final do ano passado, o general William E. Garret, comandante do exército dos EUA para África, reuniu-se com os adidos militares de todas as embaixadas africanas em Washington para vender aos seus governos a ideia de um exército estadunidense com base na África.


Os últimos relatórios da Casa Branca deste mês de Janeiro indicam que 75% do trabalho do exército se fez através de uma unidade militar com base em Estugarda, Alemanha, e que os restantes 25% são dedicados a conseguir um país africano que abrigue o exército e faça andar as coisas. A Libéria e Marrocos ofereceram-se para albergar o Africom, enquanto a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC, na sua sigla em inglês) fechou todas as possibilidades de algum dos seus Estados membros albergar o exército norte-americano.


Outros países permaneceram em silêncio.
A Libéria tem uma longa relação com os Estados Unidos, devido à sua história de escravatura, enquanto o desalinhado Marrocos, que não pertence à União Africana nem realiza eleições, deseja este exército dos EUA para que este o ajude a reprimir qualquer levantamento democrático.


A recusa da SADC é uma pequena vitória para os povos africanos na sua luta pela independência total, mas os restantes blocos regionais de África esforçam-se por chegar a uma postura comum, o que é preocupante. O próprio exército dos Estados Unidos quer um país mais estratégico que Marrocos e a Libéria, já que o exército será o epicentro de influentes, articuladas e protetoras políticas econômicas e de relações exteriores estadunidenses.


O outro perigo é que o Africom transforme a África num campo de batalha entre os Estados Unidos e grupos terroristas anti-estadunidenses. O Africom não é mais do que uma cortina de fumaça atrás da qual os EUA pretende esconder os seus desígnios de assegurar o petróleo e outros recursos naturais de África.


Os dirigentes africanos não podem esquecer que os Estados Unidos e Europa utilizaram sempre a força militar como o único meio eficaz de cumprir a sua agenda e de assegurar que os governos de cada país estão dirigidos por pessoas submissas à disciplina norte-americana. Ficando sediado em África, o Africom garantirá que os tentáculos dos Estados Unidos cheguem facilmente a cada país africano e assim influenciem cada acontecimento em beneficio dos Estados Unidos.


Ao albergar o exército norte-americano, a África cede a sua independência militar aos Estados Unidos e inicia o processo de recolonização através de um exército que pode abafar qualquer tentativa por parte de África para mostrar a sua capacidade militar. A pergunta fundamental é: uma vez estabelecido, quem tirará daí o Africom? Com que meios?


Pela sua origem, o AFRICOM será técnica e financeiramente superior a qualquer exército africano e decidirá com todo o à vontade a mudança de regime em qualquer país, e aprofundará, dirigirá e acelerará o esquema norte-americano de exploração de recursos naturais. Não resta a menor dúvida que quando este exército norte-americano estiver operando, serão revogados todos os êxitos das indepedências em África. Se os atuais dirigentes africanos cederem aos desejos dos EUA e aceitarem que este seu exército opere na África, ficarão na história como a geração de políticos que aceitou a prevalência dos males futuros.


William Shakespeare daria voltas na tumba e exclamaria: «… para que triunfe o mal basta que os homens de bem não façam nada». Não podemos esquecer que os africanos, que ainda estão sentidos com a humilhação, a subjugação, a brutalidade e o complexo de inferioridade provocados pelo colonialismo, não necessitam, não precisam de outras formas de colonialismo, mesmo que sutis.


O Africom foi um tema controverso desde que o ex-presidente estadunidense George W. Bush o anunciou pela primeira vez em Fevereiro de 2007.
Os dirigentes africanos não devem esquecer que com a administração de Barack Obama a política norte-americana para África e o resto do mundo em vias de desenvolvimento não mudou um milímetro. Continua a ser uma política militar em apoio dos benefícios materiais.


Os titulares de cargos importantes tanto da administração Bush como de Obama argumentam que o principal objetivo do Africom é profissionalizar as forças de segurança em países-chave de toda a África. o entanto, nenhuma destas administrações fala do impacto do estabelecimento do Africom sobre partidos e movernos minoritários, sobre dirigentes fortes considerados infiéis aos EUA, nem se os EUA utilizarão o Africom para promover ditadores amigos.


Os programas de treino e armamento, e a transferência de armas da Ucrânia para a Guiné Equatorial, Chade, Etiópia e o governo de transição da Somália indicam claramente o uso do poder militar para manter a influência [estadunidense] nos governos de África, que continua a ser uma prioridade da política externa dos Estados Unidos.


Com a Revolução Laranja, os Estados Unidos levaram ao poder os atuais dirigentes da Ucrânia e agora estão a dar-lhes carta branca para fornecerem armamento aos conflitos africanos. Os dirigentes africanos devem dar mostras de solidariedade e bloquear todo o movimento dos Estados Unidos para estabeleceras suas bases na mãe pátria, a menos que queiram ver um novo assalto da colonização.


Se se permitir que o Africom estabeleça uma base em África, Kwame Nkrumah, Robert Mugabe, Sam Nujoma, Nelson Mandela, Jules Nyerere, Hastings Kamuzu Banda, Keneth Kaunda, Agostinho Neto e Samora Machel, entre outros, teriam lutado nas guerras de libertação em vão. Milhares de africanos que morreram nos cárceres coloniais e nas frentes de guerra terão derramado o seu sangue em vão se a África for de novo colonizada.


Porque deveria o atual grupo de dirigentes africanos aceitar sistematicamente a recolonização, o que é que aprenderam da sujeição ao colonialismo, ao apartheid e ao racismo? Porque não vai o atual grupo de dirigentes africanos tratar a administração norte-americana de igual para igual e dizer-lhe na cara que não necessita de um exército estrangeiro, já que a União Africana está a preparar o seu próprio exército?


Os dirigentes africanos não necessitam de profetas procedentes de Marte para saber que a fascinação estadunidense pelo petróleo, a guerra contra o terrorismo e o exército se centrará agora em África, depois da aventura no Iraque.

* Tichaona Nhamoyebonde é um analista político e reside na Cidade do Cabo, África do Sul.

Fonte: www.vermelho.org.br