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James Petras: FARC-EP - Bando terrorista ou movimento de resistência?

28.11.2006
 
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O presidente Uribe encarna o clássico governante sul-americano: se lança para degolar os pobres e se põe de joelhos ante seu patrão de Washington. Suas perpétuas campanhas em grande escala dizimaram o campo, porém fracassaram na hora de debilitar as guerrilhas ou, inclusive, de capturar a algum membro do comando geral das FARC. Ao cabo de seis anos de massivas e custosas campanhas de extermínio, alguns oficiais militares estadunidenses de alto grau e a maioria de seus colegas colombianos reconheceram que uma vitória militar sobre as FARC era muito improvável. Segundo os estrategistas militares, o máximo a que se poderia chegar seria o enfraquecimento das FARC, forçando-as a negociar um “acordo de paz” favorável ao regime.

Breve história das negociações de paz

Durante a presidência de Belisario Betancourt (em meados dos [anos] oitenta), as FARC aceitaram um cessar-fogo e muitos de seus membros entraram no processo eleitoral. Milhares de guerrilheiros, seus simpatizantes e muitos esquerdistas independentes criaram um partido político, a União Patriótica, e apresentaram candidatos a todos os estamentos do governo. Em menos de cinco anos, o exército e seus esquadrões da morte assassinaram a 5.000 ativistas, candidatos e cargos elegidos, entre eles, dois candidatos à presidência, alguns congressistas, diversos prefeitos, centenas de vereadores e líderes locais do partido. Os sobreviventes regressaram à guerrilha, escaparam do exílio ou passaram à clandestinidade. Contrariamente ao que pretendia o governo, a Colômbia não era uma “democracia” no sentido habitual do termo, senão uma “democracia de esquadrões da morte” na qual as condições e normas políticas mais elementares para a participação numa campanha eleitoral brilhavam por sua ausência. Menos de duas décadas depois, quando as FARC haviam estendido sua influência até uma distância de 65 quilômetros de Bogotá, o governo de Andrés Pastrana acedeu a outra rodada de “negociações de paz” numa ampla região militarizada sob o controle das FARC.

Durante as negociações, centenas de “visitantes” de todos os setores da sociedade colombiana, assim como importantes personalidades políticas e de negócios procedentes do estrangeiro, participaram em fóruns públicos. Os debates abertos organizados pelas FARC abordaram assuntos sociais, econômicos e políticos fundamentais. Pela primeira vez na memória recente, os temas da reforma agrária, a inversão pública em programas de criação de emprego, a inversão estrangeira e a propriedade pública, as alternativas econômicas ao cultivo da coca, a educação e a saúde foram debatidos sem medo às represálias dos esquadrões da morte.

A imagem das FARC como “força militarista narco-guerrilheira” ficou em interdito; muitos observadores previamente hostis de Europa, América Latina e América do Norte, inclusive, se não estavam de acordo com algumas das reformas propostas pelas FARC, partiram com a impressão de que se podia negociar e alcançar acordos para terminar a guerra civil.

A radicalização do regime de Bush após o 11 de setembro de 2001 serviu de pretexto para forçar uma ruptura nas negociações de paz. Mais tarde, com a eleição de Álvaro Uribe, as FARC foram incluídas na lista de organizações “terroristas”. A União Européia, que se havia reunido e havia consultado publicamente com os próprios chefes das FARC, seguiu o caminho ditado pelos EUA. Pouco depois, se deteve negociadores das FARC e representantes internacionais em Bolívia, Brasil, Venezuela e Equador.

Os dois últimos países entregaram representantes das FARC à brutal polícia política colombiana (a DAS). Com a desculpa da “guerra contra o terrorismo” de Washington, o presidente Uribe se dedicou a reprimir sem piedade greves gerais sindicais e grandes manifestações rurais das principais organizações agrícolas que protestavam contra o acordo de “livre comércio” firmado com os EUA.

Em meio à carnificina patrocinada pelo governo, as FARC seguiram uma estratégia de retirada tática para seus refúgios na selva e nas montanhas e anunciaram propostas de libertação mútua de prisioneiros como primeiro passo no “estabelecimento de confiança” para as futuras negociações de paz.

As FARC têm prisioneiros a mais de 60 políticos colombianos e oficiais do exército, entre eles, a Ingrid Betancourt, uma ex-candidata à presidência, e três “contratistas militares” – assim os descreve os EUA – implicados em serviços de inteligência. O governo colombiano tem prisioneiros a mais de 600 guerrilheiros. Os EUA têm prisioneiros a dois membros das FARC. Estas propuseram uma reunião para organizar um intercâmbio de prisioneiros numa zona desmilitarizada. Naturalmente, as famílias dos prisioneiros das FARC estavam unanimemente a favor da proposta, como também o estavam as organizações da sociedade civil e os grupos humanitários, religiosos e de defesa dos direitos humanos.

Os Eua se opuseram a qualquer intercâmbio e Uribe fez eco de seu amo, pelo menos durante seu primeiro período presidencial. O slogan utilizado era que libertariam aos prisioneiros por meios militares. Durante os últimos cinco anos não se libertou a nenhum prisioneiro. Muito pelo contrário, numa recente incursão militar frustrada morreram dez presos, entre eles, um ex-ministro de Defesa, um governador e oito oficiais do exército. Sob a enorme pressão da

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