Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

A Esquerda, a Direita e o futuro

Muitas foram as vitórias da Esquerda política ao longo de quase dois séculos, retirando o poder concentrado nas mãos dos poucos que dominavam o capital, recursos e riqueza e que restringiram os serviços públicos a um tipo de jogada monetária, servindo os interesses do clique de elitistas que controlava as sociedades. Porém longe de estar derrotada, a Direita está ressurgente, está bem, está sendo eleito e está fazendo progressos em todas as frentes.

Nos Estados Gerais na França em 1789, os deputados Montagnard e Jacobin do Terceiro Estado começaram a sentar-se à esquerda do Presidente e aí começou o uso do termo Esquerdista (gauchiste), que nos primeiros dias representava aqueles que apoiavam a República contra a Monarquia e durante o século seguinte, causas sociais centrando-se no igualitarismo, abraçando temas como a educação universal e gratuita, direitos dos trabalhadores, direitos das mulheres, democracia: apoiando o direito ao voto, o direito a um rendimento mínimo, condições de trabalho seguras, o movimento sindical e atacando a escravatura, o abuso físico e mental por aqueles que controlavam a riqueza e o controlo da sociedade através de instrumentos, como o clero.

Foi uma esplêndida vitória para a Esquerda que todas as causas que abraçou foram eventualmente adoptadas nas políticas das formações que detinham o poder nos Parlamentos, controlados na maioria dos casos (senão em todos) por forças basicamente conservadoras que entendiam que para reter seu controlo sobre os recursos, tinham de adoptar uma política de laissez faire, não necessariamente porque queriam partilhar a riqueza ou o poder ou abraçar as causas sociais mas porque viam a necessidade de parecer interessados nelas e por assim fazer, conseguiram diluir as exigências mais populistas da Esquerda, ao longo dos anos, logrando com um elevado grau de perícia, rotular estas políticas como radicais e extremistas e perigosas, adoptando os “males menores” que expunham.

Simultaneamente veio a manipulação da comunicação social, controlando a opinião pública, formando-a cuidadosamente, radicalizando e marginalizando qualquer movimento que reclamasse o direito de controlar a riqueza e retirá-la das mãos dos elitistas, para a seguir distribuí-la mais justamente. A demonização dos Comunistas e Esquerdistas conseguiu criar imagens idiotas e falsas nos corações e mentes de pessoas supostamente inteligentes, enquanto a Direita (os elitistas, que detêm as rédeas de poder e que controlam os recursos) lançaram um contra-ataque escondido, sorrateiro.

Hoje a Esquerda está ameaçada porque todas as suas vitórias estão sendo minadas, pouco a pouco, ano após ano. Já não existe um serviço nacional de saúde gratuito, já não existe uma educação pública e livre. Por exemplo, quem quer estudar um MBA em Barcelona tem de pagar quanto? 70.000 Euro, mais despesas. Quem tem 100.000 Euro disponível, senão o filho de um grande capitalista? O desinvestimento nos serviços públicos relega a inúteis os ganhos feitos ao longo dos séculos e coloca em questão o programa lançado, defendido e apoiado pela Esquerda desde 1789.

E o que conseguiu a Direita? A destruição do Estado de Previdência, aumento de pobreza, o aumento da distância entre nações ricas e pobres, a recusa de adoptar uma estratégia universal sobre a protecção do ambiente, um modelo social e de labor com níveis endémicas de violência e desemprego, que aliás tem estatuto de crónico, uma quase impossibilidade dos jovens comprarem as suas próprias casas, pensões de reforma diminutas; numa palavra só, insegurança.

E é aí que a direita gosta de manter as populações para mais facilmente as controlar. Insegurança no mercado de trabalho, insegurança quanto à pretensão de ter uma pensão de reforma significativa, insegurança desde o momento em que coloca um pé na rua e insegurança quando sair, porque não sabe se a sua casa será assaltada. Além disso, um ataque sistemático e constante contra a provisão de serviços públicos, um ataque sistemático contra a disponibilidade de educação, cuidados de saúde, actividades culturais em tempo de lazer.

Onde fica a Esquerda hoje? Basicamente, dividida, mortalmente dividida e frequentemente controlada por incompetentes infantis que falharam rotundamente em vender um produto muito vendível, que não souberam efectuar o marketing duma ideia muitíssimo viável, preferindo viver de costas viradas para outros movimentos Esquerdistas, permitindo que as divisões mais profundas deixassem as políticas Esquerdistas abertas a ataque pela Direita, ridicularizadas e afastadas, rotuladas como irresponsáveis, utópicas e impossíveis de realizar.

A Esquerda representa os direitos dos trabalhadores, os direitos das mulheres, os direitos das crianças, uma educação universal gratuita, uma política universal de defesa do ambiente, remuneração justa, pensões adequadas, bons serviços públicos, transportes públicos adequados, segurança nas ruas, um futuro Verde num mundo de direitos e oportunidades iguais, pleno emprego, acomodação acessível. A Direita falhou, por completo, em entregar estas políticas às sociedades, e por “Direita” se inclui os partidos Democratas Sociais, Socialistas e Cristãos Democratas, além dos conservadores e liberais.

Para a Esquerda, o caminho para a frente é contrariar a Direita no único argumento que esta encontra para justificar a sua própria existência: finanças públicas. “Como pagar? Bonita ideia mas quem financia os serviços?” Tentar sair na Internet e vai ver que os websites dedicados à explicação desse assunto foram vitimizados por hackers (também muitos sites que expõem ideias da Esquerda) e os sites que tentam explicar estas finanças públicas são nebulosas.

A informação disponível sobre as finanças públicas é escassa e é de propósito. Por isso é aqui o coração do assunto para as futuras gerações de Esquerdistas que querem criar uma sociedade igualitária, que protege os direitos humanos e que não limita a qualidade de vida, criando a sociedade que a Direita teimou em não criar.

Para começar, respondendo à Direita, quem financia a OTAN? E quem elegeu a OTAN, para ditar as políticas externas dos seus estados membros? Por quê triliões de dólares de repente se tornaram disponíveis para ajudar as corporações financeiras elitistas? Por quê esse dinheiro nunca apareceu quando era preciso pagar pensões de reforma decentes, por exemplo? Ou cuidados de saúde? Ou educação? Não nos insultem dizendo que não há dinheiro porque quando é preciso proteger os interesses dos que têm, há, e há muito. A Esquerda tem de se concentrar em estudar finanças públicas para ver que de facto há milhares de maneiras de financiar projectos que garantem o nosso futuro numa base sustentável. E a Esquerda tem de se concentrar em valores chave: pleno emprego, educação universal e livre, programas de cuidados de saúde livres e universais, segurança nas ruas (a direita fala muito nisso mas conseguiu alguma vez garanti-lo?), direitos das mulheres (incluindo o direito à maternidade e uma carreira), pensões de reforma garantidas e indexadas, actividades no tempo de lazer, gratuitas, transportação pública barata e eficiente, para começar.

E acima de tudo a Esquerda tem de continuar a demonstrar a coragem de contrariar a Direita cada vez que faz afirmações imbecis, que os sistemas socialistas não funcionam (depois de terem gasto triliões de dólares a sabotarem o modelo). Não foi a Esquerda que passou décadas e biliões de dólares a tentar assassinar Fidel Castro, não foi a Esquerda que destruiu os cuidados de saúde e o sistema de educação, não foi a Esquerda que concedeu à OTAN o direito de ditar a política externa enquanto perpetrava ataques terroristas, não foi a Esquerda que apoiou regimes fascistas e repressivas pelo mundo fora.

E não foi a Esquerda que manipulou a comunicação social criando imagens negativas de regimes socialmente progressivos cujo único objectivo foi melhorar a qualidade de vida dos cidadãos e garantir uma coexistência pacífica para a Humanidade.

Timothy BANCROFT-HINCHEY

PRAVDA.Ru