Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Honduras, a OEA e o papel dos EUA

Quando o recém-empossado ditador de Honduras, Roberto Micheletti, principal beneficiário até agora do golpe militar que depôs o presidente legítimo Manuel Zelaya, eleito pelo voto popular, decidiu mandar às favas a OEA (Organização dos Estados Americanos), pode ter dito algo que muitos gostariam de ter ouvido, no passado, de presidentes latino-americanos: “Vá para o inferno. Não precisamos de vocês”.

No quadro continental, seria um avanço se tivesse ocorrido há algum tempo, pois nenhum país abaixo da fronteira EUA-México precisava de uma organização cujo papel consistia em subordinar a América Latina e o Caribe aos interesses políticos e econômicos de Washington. A diferença é a OEA, que em 1965 legitimou com tropas a invasão da República Dominicana pelos EUA, ter passado a rejeitar os golpes e invasões.

Cúmplice da prepotência dos EUA em 1965, ela foi omissa ou apoiou a derrubada de governantes escolhidos pelo povo e tirados por militares golpistas – mau hábito iniciado com a Guatemala em 1954 e que ainda incluiria o cone sul, Brasil (64), Uruguai (72), Chile (73) e Argentina (76), sem falar nos banhos de sangue da política ensandecida de Ronald Reagan na América Central. A conversão da OEA à democracia exigiu décadas.

Doutrina Monroe e outras torpezas

Antes a organização era instrumento conveniente a que recorriam sucessivos governos dos EUA na tentativa de legitimar suas invasões e intervenções militares. Servia tanto para consolidar os golpes como para levantar o ego dos ditadores amigos – os Somoza, Duvalier, Trujillo, Batista, Perez Jimenez, Stroessner, etc, para não falar nos muitos regimes submissos, das bananas da América Central ao petróleo da Venezuela.

No passado mais remoto o temor à independência das colônias espanholas já tinha levado os EUA a ignorar o sonho de Simon Bolivar e inventar a infame doutrina Monroe – outro pretexto para intervenções. Nascida em 1948, a OEA tornou-se ainda executora do igualmente infame TIAR (Tratado Inter-Americano de Assistência Recíproca), filhote da guerra fria, que a ela atrelou o continente em 1947.

Pelo menos um diplomata americano – William D. Rogers, então respeitado como especialista em problemas latino-americanos – teve certa vez o bom senso de recomendar a saída dos EUA da OEA, por achar que isso a fortaleceria ao permitir que se concentrasse nas questões regionais legítimas, “os interesses comuns das nações da América Latina”. Rogers explicou ainda:

“A medida poria fim à acusação de que a OEA é dominada pelos EUA. Permitiria ainda aos EUA terem na organização o mesmo status atual de observador mantido pelos países europeus. Além disso, seria como um exemplo aos soviéticos e à Europa Oriental. E nós abriríamos mão de nossos esforços penosos e às vezes até ridículos para manter ali um ‘perfil baixo’ para o nosso país enorme”.

Uma escola para formar golpistas

Aquela opinião de Rogers, que morreu em setembro de 2007, foi manifestada em 1973. Ele poderia ter feito alguma coisa em relação à OEA, pois em seguida à renúncia do presidente Nixon (1974) foi chamado (no governo Ford) pelo secretário Henry Kissinger para o Departamento de Estado, onde se tornou secretário Assistente para Assuntos Interamericanos e sub-secretário para assuntos econômicos.

Kissinger e Gerald Ford não deviam simpatizar com a idéia de Rogers – e este, por sua vez, aproximou-se demais do ex-secretário de Estado nos anos seguintes, como sócio e vice-presidente no rendoso escritório de consultoria Kissinger Associates. A ponto de defendê-lo na controvérsia em torno de um dos crimes nefandos dele, a ingerência americana a favor do golpe de setembro de 1973 no Chile, único país que defendera antes a saída dos EUA da OEA.

O empenho de sucessivos governos dos EUA para manter o controle da OEA, cuja sede fica a poucas quadras da Casa Branca, foi outro obstáculo à idéia. Embora a dominação escandalosa faça ainda menos sentido depois da guerra fria, vale citar mais ações e instrumentos usados pelos EUA para impor a dominação – como a infame Escola das Américas (School of the Américas, SOA) do Exército dos EUA.

Ao invés de fechá-la depois de sucessivos escândalos envolvendo militares da América Latina formados ali (muitos viraram ditadores, torturadores ou chefes da espionagem), o Pentágono optou apenas por trocar o nome dela. Rebatizou-a como Instituto do Hemisfério Ocidental para Cooperação de Segurança – ou, em inglês, Western Hemisphere Institution for Security Cooperation.

O embaixador, o general e os ditadores

Com nome tão extenso e sigla tão difícil de decifrar, o Pentágono achou que mal seria notada. Mas opositores que monitoram a atividade dela mantêm vivos o nome, a vigilância e o passado sinistro da SOA, por onde passaram ditadores conspícuos e até terroristas (como Posada Carrilles, cubano de Miami).

Dentro dos EUA, grupos religiosos e outros não esquecem as vítimas torturadas ou mortas em vários países por alunos da escola. Desde 1990 renovam protestos a cada ano em Ft. Benning, Georgia, onde a escola continua a funcionar sob o atual disfarce de WHINSEC. Os protestos são em novembro, mês no qual 27 militares de El Salvador (19 formados na SOA) assassinaram seis padres jesuítas em 1989.

Em Honduras, de onde o governo Reagan – ali representado pelo embaixador John Dimitri Negroponte, o da foto à esquerda (mais AQUI sobre ele) – lançou sua guerra secreta, dos “contras”, na década de 1980, contra a Nicarágua, o homem-forte era o general Gustavo Álvarez Martínez, um ex-aluno da SOA que criou o 316° Batalhão de Inteligência Militar, responsável por assassinatos políticos, torturas, cadeias secretas e outras atrocidades.

Assassinado em 1989, o general Álvarez – símbolo do momento em que o país era uma espécie de porta-aviões para as agressões dos EUA a vizinhos da região – ainda parece, com sua carreira sinistra, o exemplo para os atuais militares hondurenhos. Formado na SOA, ligou-se ainda à Argentina dos generais e frequentava as folhas de pagamento da CIA e da United Fruit (hoje Chiquita Brands). E obedecia a Negroponte.

Texto: Argemiro Ferreira

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