Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Com 73.000 indigentes, Los Angeles é a capital dos sem-teto dos Estados Unidos

22 de Março de 2009 - 09:20 (mmaldonado)

Califórnia, Suas palmeiras, seu clima, seu incomparável oceano. Sua crise, seu desemprego, seu déficit espantoso. O Golden State (Estado de Ouro), símbolo de um certo sonho americano, o horizonte longínquo que atraiu sonhos e milhões, converteu-se, em pouco tempo, numa de seus piores pesadelos. Um estado que soma os piores índices da recessão e onde, a cada dia que passa, milhares de pessoas acabam na rua.

Califórnia, terra de bolha imobiliária que agora registra, junto com Nevada, a pior taxa de despejos dos Estados Unidos e onde o valor das casas caiu 27% em relação ao ano anterior.

Califórnia, que descobriu recentemente que 20% da população de Los Angeles, pouco mais de dois milhões de pessoas, beneficiavam-se de algum tipo de subsídio e que, em 2008, perderam 541.000 postos de trabalho, confirmando uma taxa de desemprego de 10%, dois pontos acima da média nacional.

Califórnia, que soma um déficit de 42 bilhões de dólares (30,7 bilhões de euros) e que só conseguiu aprovar seu orçamento há um mês (por um único voto, após uma sessão maratonista, depois de que seu governador, Arnold Schwarzenegger, ameaçou despedir 20.000 funcionários.

Um panorama que beira ao cataclisma do qual Barack Obama acaba de regressar, depois de um giro de dois dias vendendo seu maltratado programa de resgate financeiro. “Não posso lhes dizer quanto vamos demorar ou quais obstáculos teremos que superar, mas posso lhes prometer que a Califórnia viverá dias mais ensolarados”, afirmou o presidente em uma de suas aparições públicas.

Viver num veículo

Mas, enquanto chove tanto no mar. “Aqui, a hemorragia é mais rápida do que no resto do país”, disse Sung Won Sohn, economista da universidade estatal.

Terry Mahoney sabe algo de tudo isto. Há meses, vive num veículo com seus dois filhos adolescentes, Brandon e Jennifer, numa rua de Veneza, a praia hippie de Los Angeles. Até há pouco, trabalhava na General Dinamics, uma fábrica de armas. “Ajudava a fabricar mísseis”, disse com ironia, “era o último elo da cadeia de montagem”.

O desemprego, ao qual se somaram um divórcio, a hipoteca, as dívidas acumuladas durante anos, deixou-a nas últimas. Num país, onde as ajudas são praticamente inexistentes, é fácil ficar sem nada.

“Pensei que Veneza fosse o melhor lugar para passar esta má sorte”, disse Terry, “pelo menos estamos perto do mar”. E não é a única. Em sua rua, vivem uma bibliotecária, uma professora-suplente, um mensageiro que trabalha no turno da noite da Fedex, um empregado do supermercado vizinho e um treinador pessoal; uns em carros, outros em caminhonetes.

“Não somos mendigos, somos gente que tenta manter o pouco que lhes resta de vida normal”, explica Terry. Seu filho, Brandon, continua indo regularmente à escola, em outro bairro de Los Angeles, onde ninguém sabe que ele não tem teto, e Jennifer é caixa numa loja de licores.

Mas, Veneza acabou não sendo o refúgio que eles esperavam. A praia cool, onde a maconha é vendida em máquinas descartáveis (com finalidade terapêutica e com receita) e onde os surfistas se deslizam, em pleno inverno, pelas ondas do Pacífico; o parque temático que nasceu no início do século do delírio imobiliário do magnata do fumo, Abbot Kinney e, com os anos, transformou-se em bairro de luxo de bohemian bourgeois (burgueses boêmios) em busca de legitimação alternativa, não querem pobres nem nada que parecido com eles.

“Patrulhas de vizinhos atacam os veículos no meio da noite, tentam abrir a porta para ver se há alguém dentro, dá muito medo”, diz Brandon. “Puseram areia no nosso tanque, furaram os pneus e, agora, suspeito de que fizeram algo no motor porque não há jeito de ele pegar”, acrescenta Terry, depois de fuçar, sem muito êxito, sob o capô.

Campos de refugiados

A polícia também os considera indigentes incômodos. “Muita gente que conheço acabou na prisão por andar vagabundeando, porque as autoridades não sabem o que fazer com eles” acrescenta Terry, “agora querem-nos colocar em campos de refugiados, em gigantescos estacionamentos, distantes de tudo, onde, além disso, você tem de pagar e não o deixam sair à noite”.

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Veneza, no momento, está ganhando a batalha. Há umas semanas, seu conselho municipal votou na limitação do estacionamento noturno nas ruas, tornando ilegal de fato a presença de seus inquilinos mais indesejáveis. Embora a Comissão de Costas da Califórnia, que dá a última palavra, não vá se reunir até junho, já apareceram faixas restringindo as horas de estacionamento.

“Não temos a quem recorrer. Não sei onde acabaremos”, disse Terry, “pelo menos temos a caravana de veículos. É o que salva a sua vida. O que separa você do cara em farrapos que empurra o carrinho de supermercado cheio de lixo e parece meio louco”.

A notícia foi amplamente coberta pela imprensa local, como um dos exemplos mais pungentes da crise. Mas há muitos outros. Em toda a Califórnia, estão surgindo tent cities, acampamentos de tendas de campanha, nos limites dos núcleos urbanos, que, a cada dia, acolhem mais pessoas que ficaram sem teto.

São imagens da Grande Depressão. Repetem-se em Sacramento, a capital; em Santa Bárbara, nacosta; ou em Ontário, uma localidade ao extremo leste de Los Angeles, onde, em fins do ano passado, a polícia teve de desalojar centenas de sem-teto que tinham-se instalado perto da pista de aterrissagem do aeroporto.

“Los Angeles é a capital dos sem-teto nos Estados Unidos”, disse Joel John Roberts, diretor de Path Partners, uma organização local que ajuda a resolver os problemas de habitação dos mais deserdados.

“Com a onda de despejos, agora toca às pessoas de classe média encontrarem-se na rua”, explica Roberts, “ocorre por etapas. Primeiro, você fica em casa de familiares ou amigos, mas só pode ser uma solução temporária. Depois, você tenta alugar uma casa subvencionada, mas faz anos que há lista de espera e é praticamente impossível conseguir. No final, se você não encontra nada, você acaba dormindo no carro ou em refúgios totalmente transbordados que não estão preparados para uma demanda semelhante”.

Roberts não se lembra de uma situação tão ruim. “Isto se dá em ciclos. Nos anos 80, também tivemos uma crise importante com os sem-teto. Havia 25.000, agora há três vezes mais”, assegura Roberts, (estima-se que haja uns 73.000 no condado de Los Angeles), “e ninguém sabe até onde iremos. Creio que os Estados Unidos não estão prontos para o que se aproxima”.

Sobretudo, porque a ajuda escasseia. “Estamos montando um centro legal grátis para informar às pessoas sobre os recursos que elas têm para lutar contra o despejo ou conseguir ajuda nos pagamentos da hipoteca”, diz Roberts. Isso inclui ter acesso a novos créditos do governo de Barack Obana, os quais deveriam ajudar uns 9 milhões de estadunidenses a conservarem suas casas.

“As pessoas que não conseguem pagar suas hipotecas não se meteram sem pensar em gastos que não podiam assumir”, disse Evan Wagner, porta-voz da IndyMac, uma das primeiras entidades de empréstimos que o governo estadunidense teve que resgatar da quebra em julho passado, depois do estouro da bolha imobiliária californiana. “São pessoas que perderam seu trabalho e tiveram seus salários reduzidos”.

E afeta todo mundo. “É impossível ir a uma reunião ou uma festa em Los Angeles sem que ninguem fale da crise”, conta Roberts.

Muitos emigrarão para outros estados, agravando um fenômeno que transformou a California no estado que perdeu mais população nos últimos quatro anos.

“Quem pode culpá-los?” dizia recentemente Frank Girardot, um dos colunistas do diário Daily News. “Temos problemas de tráfico, de criminalidade, de imigração e instituições locais e estatais totalmente não-funcionais. O Golden State está-se convertendo em algo muito distinto da terra prometida em que os conquistadores espanhóis pisaram há alguns séculos”.

Essa terra que chamaram de Califórnia, a ilha mítica de amazonas negras que saía nas histórias de cavalaria de Las Sergas de Esplandían, e onde agora as unicas execuções são as hipotecárias.

Traduzido do espanhol para o português pelo estimado camarada

Arthur Gonçalves Filho