Pugilistas cubanos: A mentira durou mais de um ano

Durante mais de um ano, a mídia hegemônica bateu na tecla segundo a qual o governo brasileiro havia entregue dois pugilistas da delegação cubana ao governo de Fidel Castro, durante os Jogos Pan-Americanos. Segundo a mesma mídia conservadora, Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux fizeram a viagem de volta a Havana graças ao ministro da Justiça Tarso Genro, que entregou os dois desportistas ao governo cubano.

Os veículos de comunicação também tentaram incriminar o governo da Venezuela, que cedeu um avião para retirar os dois atletas do Brasil. A ajuda foi voluntária e não teve nada de irregular, como insinuou a mídia hegemônica.


A mentira foi repetida inúmeras vezes, seguindo a velha tática do ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, e acabou se tornando uma "verdade" do conservadorismo. Só que agora, com a entrevista concedida pelo pugilista Erislandy Lara ao canal brasileiro de maior audiência, a TV Globo, os brasileiros foram informados pelo próprio ex-prejudicado pelo governo brasileiro que a decisão de voltar para Cuba foi dos dois pugilistas mesmo. O atleta cubano, hoje fora do país de origem, revelou também que o próprio presidente Lula havia conversado com ele e teria oferecido o asilo. Esta parte foi desmentida pelo Palácio do Planalto.


A "verdade" do conservadorismo não resistiu a uma primeira entrevista de um dos pugilistas, o que comprova o expediente da manipulação que é muitas vezes utilizado pela mídia hegemônica para indispor governos de países que não se dobram a determinados interesses.


Casos polêmicos
O acontecido nos Jogos Pan-Americanos remete a uma série de discussões, que passam inclusive pela questão de democratização dos meios de comunicação e até mesmo pela renovação da concessão dos canais de televisão. O conservadorismo se julga absoluto e não aceita nem um tipo de questionamento e critica quem o faz acusando-o de "autoritarismo".


Diariamente colunistas são acionados para divulgar e analisar fatos, independente de passarem por uma necessária triagem jornalística, que pode confirmar ou desmentir a informação veiculada. No caso dos pugilistas cubanos, apesar de declarações das autoridades, seja do ministro Tarso Genro ou de agentes da Polícia Federal, negando que tenham entregue os referidos cidadãos ao governo cubano, prevaleceu a "verdade" que interessava para incriminar o regime da ilha caribenha e, de quebra, o governo Lula e o presidente Hugo Chávez.


Resta saber se diante das declarações de Erislandy Lara esclarecendo o fato de uma vez por todas, os colunistas de sempre, que volta e meia repetiam a mentira, vão reconhecer o erro cometido durante mais de um ano.


Por essas e muitas outras é necessário que o tema democratização dos meios de comunicação entre em pauta nas discussões sobre as reformas necessárias para que no Brasil prevaleça a democracia de fato, e não um arremedo conservador.
A entrevista de Erislandy Lara foi veiculada inicialmente no Globo Esporte; como teve muita repercussão, acabou sendo mostrada em outros horários e reproduzida na grande mídia. Não há por enquanto nenhuma informação para confirmar ou não se a decisão de apresentar a entrevista passou pelo crivo da cúpula da emissora de televisão, como geralmente acontece em casos polêmicos.

Tudo é possível
No momento em que analistas têm discutido, inclusive neste Observatório da Imprensa, o tipo de cobertura jornalística que acontece nos grandes veículos nacionais, e se o esquema da manipulação da informação é um fato – embora haja os que dizem tratar-se de uma visão conspiratória da história –, o esclarecimento de um episódio como o dos dois pugilistas cubanos pode servir para o aprofundamento de um debate mais que necessário sobre a mídia.


O caso da brasileira Paula Oliveira na Suíça, embora com características distintas, também se insere no contexto da discussão sobre a mídia hegemônica. A ver se os mesmos colunistas de sempre, que mentiram durante mais de um ano, terão a humildade de reconhecer que incorreram num erro jornalístico movidos pela ideologia, que diariamente deforma a informação nas mais variadas editorias.


O silêncio sobre o ocorrido já é uma definição, da mesma forma a ausência de autocrítica de blogueiros que correm atrás da audiência a qualquer preço. E no vale-tudo da corrida da informação e do ibope, tudo é possível – mesmo repetir mentiras até que virem verdades, como preconizava o nazista Joseph Goebbels.

Por Mário Augusto Jakobskind

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Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey