Author`s name Lulko Luba

Mudança, ou mais da mesma coisa?

Num artigo recente no Miami Herald, o colunista vencedor do Prêmio Pulitzer Leonard Pitts discutiu dois memorandos do governo, "ainda classificados," que não apenas revelavam como o governo dos Estados Unidos, sob George W. Bush, autorizara e se engajara no uso da tortura, como também como o próprio Bush óbvia e intencionalmente mentiu ao povo estaunidense a respeito dessa realidade. Os memorandos, escritos em 2003 e 2004, visavam a aliviar as preocupações do então diretor da CIA George Tenet de que agentes pudessem ser processados criminalmente por torturar suspeitos de terrorismo de "alto valor". No entanto, dois anos depois, George W. Bush dizia ao povo estadunidense: "Os Estados Unidos não torturam. É contra nossas leis e nossos valores. Não autorizei isso — e não autorizarei."

Pitts fez outras duas constrangedoras observações em seu artigo. A primeira foi que a mídia controlada pelas corporações ignorou, em grande medida, as revelações daqueles memorandos, uma revelação que, embora importuna, certamente não causa surpresa, dada a pletora dos assim chamados canais de "notícias" que promovem sensacionalismo e superficialidade acima da substância.

O segundo e importante ponto de vista de Pitt referiu-se a como o povo estadunidense tornou-se tão cerebralmente lavado depois dos eventos do 11 de setembro de 2001 que não parece mais perturbar-se com a mendacidade de seu governo, uso de tortura, vigilância sem mandado, negação do devido processo legal, ou prisão prolongada de suspeitos sem acusação ou julgamento.

A tragédia é que essa negação do processo devido tornou-se tão evidente que advogados de acusação designados, no passado, para processar alegados suspeitos de terrorismo na Baía de Guantânamo renunciaram em protesto, condenando os tribunais militares como pouco mais do que tribunais de fachada onde se nega sistematicamente aos advogados de defesa acesso à evidência que os poderia auxiliar em refutar as acusações levantadas contra os prisioneiros de Guantânamo.

Mesmo quando essa conduta indevida leva acusações contra alegados suspeitos de terrorismo a serem retiradas, o resultado é simplesmente mais corrupção e maquinações. Isso ficou claramente em evidência quando recentemente foram retiradas acusações contra cinco prisioneiros de Guantânamo. Em vez de eles serem libertados, esses prisioneiros foram simplesmente lançados em detenção ainda mais prolongada e num limbo legal, enquanto os advogados de acusação (aos quais obviamente falta a integridade de seus colegas que protestaram) debatem se ou não deveriam "formular de novo" as acusações.

Ainda mais perturbadora do que as perversidades perpetradas pela ditadura Bush é a disposição do povo estadunidense de aceitar, e até desculpar, essas perversidades, apesar de isso significar, como disse Pitts, "Engolir mentiras como se fossem doces." O que na verdade leva à pergunta de se George W. Bush e seus subordinados tornaram os estadunidenses mais perversos, ou se a administração Bush simplesmente reflete uma perversidade que sempre existiu à sombra nos Estados Unidos, mas que agora não mais teme a luz do dia.

A trágica realidade é que mentirosos levam vantagem na sociedade estadunidense, e talvez em sociedades por todo o mundo. Pessoas honestas em seu trato com os outros tendem a assumir que os outros serão também honestos para com elas; em decorrência, tornam-se mais vulneráveis a mentiras.

Ademais, como Adolph Hitler ressaltou em sua "teoria das grandes mentiras," os líderes políticos levam grande vantagem quando se trata de contar mentiras. Uma pessoa "comum" preconizando a guerra por meio de argumentar enganosamente que um país está produzindo "armas de destruição em massa" provavelmente será descartada como paranóica. Coloque-se a mesma mentira, entretanto, nas mãos de um presidente, e será prontamente crida.

O motivo pelo qual as mentiras, e os mentirosos que as contam, tornaram-se endêmicos na sociedade estadunindense é raramente haver consequências por se contarem mentiras e, em muitos casos, mentir pode ser positivamente vantajoso.

George W. Bush não sentiu (e não sente) compunção por mentir para o povo estadunidense porque a vida inteira dele tem sido uma enorme mentira. Ele deve sua riqueza e instrução não a qualquer acume de inteligência ou negócios, mas ao tratamento preferencial recebido por meio de conexões de família; no entanto, ele tem a audácia de condenar políticas de ação afirmativa como "tratamento preferencial.

" Ele faz discursos jingoístas e, a partir da segurança da Casa Branca, diz aos insurgentes iraquianos "que venham" e, não obstante, mais uma vez, recorreu a conexões de família para evitar servir no Vietnã. Ambas as suas assim chamadas "eleições" para a presidência foram mentiras completas, manipuladas por expurgos ilícitos de eleitores em perspectiva, autoridades eleitorais corruptas, e "juízes" não éticos do Supremo Tribunal tais como Antonin Scalia, que desejou assegurar que seu "companheiro de caçadas" Dick Cheney fosse elevado à vice-presidência.

Eis porque Bush não hesitou em mentir a respeito das alegadas "armas de destruição em massa" do Iraque, dos alegados "vínculos" de Saddam Hussein com a Al-Qaeda, ou do uso de tortura pela CIA.

Como tem sido Bush "punido" pelas mentiras que debilitaram a democracia, custaram milhares de vidas inocentes, causaram imenso sofrimento, e apequenaram a estatura moral dos Estados Unidos aos olhos do mundo? Durante oito anos ele vem sendo o líder daquela que é, defensavelmente, a mais poderosa nação da terra, sem jamais enfrentar acusações criminais ou impedimento de exercer o cargo. No entanto, há poucos anos, mentir a respeito de um relacionamento sexual era considerado de algum modo uma ofensa passível de impedimento para exercício do cargo.

Ainda assim, o mal provoca o mal e, embora Bush não tenha sido punido, os Estados Unidos têm-no sido. Se alguém examinar honestamente a herança de Bush (ou, como a chamei em artigos anteriores do Pravda.Ru, a "mentiherança" dele), fica óbvio que nada de bom decorreu da ocupação ilegal da Casa Branca por Bush.

Durante esse período de oito anos houve duas eleições fraudulentas — em 2000 e 2004; ocorreram os piores ataques terroristas em solo estadunidense da história dos Estados Unidos, e perguntas ainda restam a respeito do conhecimento prévio desses ataques pela ditadura Bush — e alguns falam de cumplicidade neles; a ditadura Bush cinicamente explorou o medo e a raiva do público em relação aos ataques para invadir ilegalmente o Iraque; biliões de dólares de dinheiro do contribuinte estão sendo gastos todo mês para perpetuar a ocupação ilegal do Iraque; o governo iraquiano está funcionando com superávit, enquanto a dívida nacional estadunidense escapou do controle; desastres naturais — como a destruição de New Orleans durante o Furacão Katrina — aconteceram durante a "atalaia" de Bush, e a resposta dada por ele foi, na melhor das hipóteses, inepta; os preços do combustível atingiram altas recordes, enquanto que as companhias de petróleo tiveram lucros recordes; o aquecimento global está levando animais à extinção e, no entanto, Dick Cheney, para agradar à indústria do petróleo, empenhou-se em manipular e censurar testemunho científico a respeito dessa crescente catástrofe ambiental; milhares de trabalhadores estão perdendo seu sustento à medida que as empresas fecham, promovem enxugamento ou "terceirizam" empregos; a depressão (inocuamente chamada de "recessão" está-se alastrando pelo mundo; as instituições financeiras, que incessantemente argumentaram que poderiam ser mais lucrativas sem regulação do governo, agora se aproximam do governo, de chapéu na mão, para receberem biliões de dólares de dinheiro de socorro financeiro; e muitos dos próprios "conservadores," que se opõem a assistencialismo para os economicamente em desvantagem, estão avidamente adotando assistencialismo para executivos que ganham milhões de dólares em salários, bônus e incentivos, enquanto suas corporações mergulham na falência.

Ironicamente, as pessoas vilipendiadas, nos Estados Unidos, são as que dizem a verdade. Um exemplo recente envolveu o Deputado John Lewis, vociferantemente condenado pelo candidato Republicano à presidência John McCain por ter comparado as táticas da campanha de McCain com as do ex-governador e político segregacionista George Wallace. Lewis disse que embora Wallace nunca se tenha envolvido em atos de violência, sua retórica certamente estimulou outras pessoas a fazê-lo.

Entretanto, estava Lewis realmente tão errado? Os historiadores tendem a concordar com que George Wallace era um oportunista político que faria e diria qualquer coisa para ganhar, mesmo se isso envolvesse apelar para o que há de pior em a natureza humana. Não é isso que McCain, e sua companheira de chapa Sarah Palin, estavam fazendo com frases capciosas dizendo que o opositor deles, Barack Obama "não é um de nós?" Não inspiram, tais frases, muitos dos partidários deles a gritar "terrorista," "matem-no," ou "arranquem-lhe a cabeça?"

Se alguém acredita que John McCain não dará continuidade à política de Bush de mentir, estimular a guerra e tornar os ricos mais ricos, então é porque esse alguém deixou escapar a acusação mais estranha que McCain levantou contra Obama: que Obama deveria ser condenado por desejar "disseminar a riqueza." Coerentemente com esse tema, McCain e Palin chegaram a tentar ressuscitar o espírito do bicho-papão "socialista" para atacarem as políticas econômicas de Obama.

Todavia, de acordo com muitos economistas, noventa e seis por cento da riqueza estão nas mãos de apenas quatro por cento da população. Nesse tipo de contexto, parece estranho que um candidato à presidência acredite que sua oposição ao "disseminar a riqueza" de algum modo seja vista como atraente para as massas.

Seria ainda mais irônico se essa estratégia funcionasse. Não seria, entretanto, de surpreender. A história dos Estados Unidos já mostrou que, com a mistura correta de preconceito, medo e incerteza, os estadunidenses frequentemente fizeram coisas em prejuízo próprio.

Naturalmente, McCain tentou racionalizar sua observação contendendo que a criação de "nova riqueza" é mais benéfica economicamente do que redistribuir riqueza já criada.

Todavia, para onde irá a esmagadora maioria dessa "nova riqueza criada"? Direto para as mãos dos quatro por cento mais ricos, porque a economia de"escoamento até chegar aos mais pobres" é realmente uma economia de "escoamento para os lados".

Naturalmente, os teóricos do "escoamento para baixo" dirão "Não é verdade!" Eles argumentarão que, quando os ricos adquirem mais riqueza, ficam mais inclinados a investir tal riqueza o que, por sua vez, levará à criação de mais empregos.

O que esses teóricos deixam de mencionar é onde essa riqueza será investida, e onde esses empregos serão criados. Quanto dela será depositada em contas bancárias no exterior não sujeitas às leis de tributação estadunidenses, quanto irá para a construção e manutenção de fábricas em países do terceiro mundo onde os trabalhadores trabalham por centavos em condições perigosas e ambientalmente arriscadas; quanto irá para a folha de pagamento de trabalhadores estrangeiros cujos empregos foram criados pelo fato de os empregos estadunidenses terem sido "terceirizados."

Em diversos artigos anteriores de Pravda.Ru endossei o axioma de que o mal é a principal força motivadora do mundo. Declarei também, no entanto, que os benefícios dos quais alguém aufere pelo fato de fazer o mal são limitados pela própria mortalidade da pessoa — daí o velho adágio "Você não pode levar nada com você."

Também expressei a crença de que os perpetradores do mal finalmente terão que pagar por seus atos, enquanto que os bons, que amiúde passam a vida inteira labutando em obscuridade e pobreza, receberão por fim sua recompensa. Esse é o fundamento da maioria das religiões do mundo, e um universo justo e equilibrado não exige nada menos do que isso.

Tenho que admitir, entretanto, que, por vezes, comecei a pensar se esses pontos de vista são pouco mais do que racionalizações ou otimismo ingênuo de minha parte, para evitar o pensamento de que em realidade não há justiça, que honestidade é para os bobos, e que riqueza e poder muito frequentemente vão para aqueles que não apenas praticam o mal, mas também despertam o mal em outras pessoas.

Talvez a próxima eleição presidencial justifique ou refute minhas suspeitas. Os Estados Unidos têm um presidente perverso e ignorante, e um vice-presidente perverso e instigador de guerras. Uma vitória de McCain/Palin simplesmente inverterá esses papéis, dando aos Estados Unidos um presidente perverso e instigador de guerras e uma vice-presidente perversa e ignorante.

Conseguirá o mundo aguentar mais quatro anos disso?

David R. Hoffman,
Editor Jurídico de Pravda.Ru

Trdução Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme
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