Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Efeitos colaterais de uma crise anunciada

O mundo presencia neste momento uma crise financeira de grandes proporções, que, para muitos, é a maior já vivida desde a crise de 1929. Essa crise é, no entanto, fruto de um intenso processo de financeirização do capital que começou a ganhar força a partir do desmantelamento, nos anos setenta, do regime que emergiu em Bretton Woods e que triunfou sobre a égide da liberalização e da desregulamentação financeira, a qual, combinada com a veloz proliferação das inovações financeiras, acabou por resultar numa expansão sem paralelos da riqueza financeira.

Por Orlando Assunção Fernandes (*)

De lá para cá, cresceu vertiginosamente a participação dos ativos financeiros no total dos ativos detidos por bancos, investidores institucionais e grandes conglomerados empresariais, mas também por pequenas empresas e famílias, configurando-se, assim, uma forte tendência ao rentismo nas economias capitalistas. Segundo dados do relatório Mckinsey, o valor do capital financeiro supera hoje de longe o valor do produto mundial, e esse descolamento entre a economia financeira e a economia real tende a tornar as crises mais freqüentes e suas conseqüências mais agudas.

O processo desencadeado a partir de 1971, com o fim do padrão ouro-divisas e com a livre flutuação das moedas a partir de 1973, acabou sendo o estopim para um movimento de transformações que conduziram a esse impressionante processo de concentração de poder financeiro, bem como ao fim das antigas barreiras impostas por mercados, setores ou mesmo nações. Passou-se a ter uma intensificação nas formas de centralização do capital monetário que, mesmo de origem anterior, haviam até então ficado em posição subalterna.

Além disso, para aumentar a atratividade desses mercados, os países foram empreendendo reformas, ao longo dos anos, na tentativa de ampliar o grau de liquidez dos mercados, através da flexibilização e desregulamentação financeira. Nesse contexto, a chegada de Paul Volcker à presidência do Banco Central Americano foi um marco. As medidas tomadas, conjuntamente, pelos governos americano e britânico, deram origem a um novo sistema contemporâneo de finanças liberalizadas e mundializadas.

Tais medidas, abrangeram as primeiras fases de um vasto movimento de desregulamentação monetária e financeira, cuja primeira conseqüência foi acarretar, desde o começo da década de 80, a rápida expansão dos mercados financeiros. Além disso, diante de taxas de câmbio e de juros flutuantes, surgiria a possibilidade de se apostar contra o valor dessas taxas no futuro, dando origem ao mercado de derivativos que expressa com clareza os limites, ou melhor, a ausência de limites do processo de financeirização do capital.

O Estado atual é assim aquele que se defronta com os impactos da globalização financeira na supressão das fronteiras geopolíticas; que se defronta com o fortalecimento das empresas transnacionais, dos conglomerados financeiros e vê a perda de sua influência no bojo da vida internacional, tornando-se, muitas vezes, coadjuvante nas relações internacionais. É aquele que vê seu gradativo enfraquecimento, diante das exigências de que se torne diminuto e debilitado diante do triunfo do ideário liberal. É aquele que, diante da maior integração entre os mercados financeiros, se vê com cada vez menos autonomia na formulação de sua própria política econômica, a qual têm sido, em grande medida, “determinada” por esses agentes que se encontram em posição de impor a toda sociedade suas exigências por taxas de juros reais elevadas, desregulamentação e abertura dos mercados.

Tais exigências, tendem a ser respaldadas por influentes formadores de opinião, como alguns economistas, gerentes de conglomerados empresariais, operadores financeiros, e um número cada vez maior de pessoas físicas, poupadores pertencentes a uma classe média ascendente, que se beneficiaram da desregulamentação financeira, ao obter acesso a oportunidades de investimento anteriormente indisponíveis.

Desse modo, numa economia dominada pelos interesses rentistas, que se entrega ao pacifismo e as conveniências do liberalismo econômico, retira-se gradativamente o apoio político e ideológico, com o qual se poderia contar com o Estado para efetivamente enfrentar as novas tarefas que se impõem ao setor público. A dominância financeira e a tendência ao rentismo leva o Estado a adaptar a sua atuação de acordo com essa “ditadura dos credores”. Pelo seu poder de pressão, qualquer tipo de atuação do Estado na economia passa a significar, antes de qualquer coisa, uma atuação destinada a auxiliá-los nos seus interesses.

Agora os norte-americanos, defensores do livre mercado, e que a partir dos anos 70 caminharam em direção da liberalização e desregulamentação financeira, conclamando a mão invisível para regular o mercado, defrontados por uma crise financeira de grandes proporções, vêem seu governo ser obrigado a intervir nesse mesmo mercado, colocando agora a mão bem visível do Estado, socializando os custos da operação de salvamento do seu sistema financeiro por toda a sociedade. O intuito dessa operação é socorrer instituições que sofrem os efeitos de uma atuação muitas vezes irresponsável e inconsequente, que buscam na especulação e na arbitragem desenfreadas, e sem medir riscos, lucros exorbitantes.

O argumento usado pelo Presidente Bush, por seu Secretário do Tesouto, Henry Paulson, e pelo Presidente do Fed, Ben Bernanke, para defender um pacote de ajuda da ordem de USD 700 bilhões é de que é melhor assim do que deixar ocorrer a eclosão de uma crise generalizada do sistema financeiro americano com todas as suas conseqüências danosas à economia americana e, porque não dizer, à economia mundial. Assim, o mesmo Estado que é induzido a se retirar do processo e conclamado a deixar os mercados atuarem livremente, agora é chamado a intervir para socorrer esses mesmos agentes, utilizando recursos de toda a sociedade nessa operação de salvamento.

Ao socorrer porém essas instituições, incorre-se em um elevado risco moral, já que a certeza do socorro do Estado nesses casos poderá sinalizar a garantia de que essas (as que vierem a sobreviver à crise) e outras instituições poderão, no futuro, continuar a agir sempre da mesma forma, pois caso venham a ter problemas de solvência novamente, poderão sempre contar com a condescendência do Estado.

Talvez, diante da atual crise, o socorro do governo americano, constitua-se mesmo na última saída para a crise. Porém, cabe aqui indagar: A situação precisaria ter chegado a esse ponto? Será que essa crise não era mesmo uma crise anunciada? Será que o contribuinte médio americano precisaria arcar com esses elevados custos? Não se faz necessário pensar talvez numa nova ordem mundial que caminhe para um processo de maior regulamentação dos mercados financeiros?

O certo é que não se pode ignorar as causas da atual crise e esperar que toda vez que elas venham a ocorrer, os bancos centrais dos países, atuando de forma isolada, ou mesmo de forma conjunta, consigam fazer frente a esse capital. Acreditar nisso é no mínimo sinal de ingenuidade, dadas as dimensões que esse capital tomou ao longo desses anos e que poderá continuar tomando, como sugere o relatório Mckinsey, diante da desregulamentação e liberalização financeira no mundo atual.
1- MCKINSEY GLOBAL INSTITUTE (2005). $118 Trillion and Counting: Taking Stock World’s Capital Market. San Francisco: Mckinsey & Company.
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(*) Professor de Economia da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM/SP) e da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).

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