Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

A crise do império e do neoliberalismo

O ano de 2007 confirmou o processo de alteração da correlação de forças no mundo, com uma tendência mais favorável às lutas dos povos. As forças contrárias aos trabalhadores se fragilizaram e a resistência ao neoliberalismo e ao poder imperial dos EUA cresceu.

ALTAMIRO BORGES

O ano de 2007 confirmou o processo de alteração da correlação de forças no mundo, com uma tendência mais favorável às lutas dos povos. As forças contrárias aos trabalhadores se fragilizaram e a resistência ao neoliberalismo e ao poder imperial dos EUA cresceu. Diferentemente das décadas anteriores, nas quais o capital promoveu uma verdadeira tsunami contra os estados nacionais, a democracia e os direitos sociais, atualmente está em curso um movimento que tenta transitar, com suas limitações e ritmos diferenciados, da resistência à construção de alternativas ao neoliberalismo. A maior expressão deste avanço se dá na América Latina do libertador Simon Bolívar e do revolucionário Ernesto Che Guevara. É neste contexto que os movimentos sociais devem lutar, com maior ousadia, por seus interesses imediatos e futuros.

Fraquezas do “império do mal”

Prova desta alteração da correlação de forças é a crise que atinge o maior inimigo da humanidade, os Estados Unidos. Após décadas de hegemonia esmagadora no planeta, agredindo e saqueando as nações para impor seus interesses, os EUA dão evidentes sinais de fraqueza – o que não significa que estejam à beira do colapso. Na didática síntese do sociólogo Emir Sader, a força de um império se mede por dinheiro, armas e palavras. Nestes três quesitos, os EUA estão em dificuldades.

No tocante à economia, ao dinheiro, o país enfrenta uma grave crise. O recente colapso do seu mercado imobiliário revelou que esta economia é virtual, sem base no real. Os EUA são hoje um país endividado, totalmente parasitário. Seu déficit gêmeo – importa mais do que exporta (déficit comercial) e gasta mais do que arrecada (déficit fiscal) – não pára de crescer e já supera a casa de US$ 1,3 trilhão. O país precisa atrair cerca de US$ 3 bilhões ao dia para sustentar os seus déficits. A dívida das famílias estadunidenses atinge a cifra recorde de US$ 11,5 trilhões e a das empresas já supera os US$ 8,4 trilhões. Segundo o renomado economista Osvaldo Martinez, “a crise econômica dos EUA é estrutural e insolúvel”.

Os trabalhadores são as maiores vítimas deste declínio da economia. O Census Bureau, instituto oficial de estatísticas do governo, divulgou recentemente que o número de pobres nos EUA atingiu 36,5 milhões de pessoas – para a Academia Nacional de Ciências, mais rigorosa nos cálculos, são 41,3 milhões de pobres, um recorde histórico. O desemprego cresceu, atingindo em agosto, antes da explosão da crise imobiliária, 4,9% da População Econômica Ativa (PEA) – quando George Bush venceu as eleições, em 2000, o índice era de 3,9%, já considerado alto para os padrões ianques. O trabalho parcial, temporário e precário é um dos mais elevados do mundo, já que impera no país a total desregulamentação trabalhista, e os salários não têm aumento real, acima da inflação, há anos.

O inferno dos imigrantes

Enquanto isto, o presidente-terrorista George W. Bush investe fartos recursos nas guerras, servindo aos interesses da indústria bélica e do petróleo. O orçamento de 2008 prevê gastos militares de US$ 790 bilhões – quase o dobro do PIB brasileiro. Para bancar o seu belicismo insano, Bush corta gastos sociais, como no recente pacote de redução da assistência à infância, privatiza os serviços públicos e precariza os direitos trabalhistas. Cerca de 47 milhões de estadunidenses não têm qualquer proteção à saúde e 8,7 milhões de crianças estão sem assistência social. O aumento da miséria fica mais patente entre os imigrantes – os milhões de miseráveis da periferia capitalista atraídos pelo “paraíso do consumo”.

Há 12 milhões de latino-americanos – incluindo um milhão de brasileiros – na triste condição de ilegais. O imigrante coloca a vida em risco ao atravessar o “muro da vergonha”, que separa o México dos EUA. Na parte mexicana, ele é espoliado por máfias criminosas que cobram até US$ 12 mil pela travessia ilegal – dormindo em barracas de lona, sem higiene e com péssima alimentação. Já no território ianque, ele é perseguido por 17 mil soldados – só em abril passado, 4.802 brasileiros foram detidos, uma média de 160 ao dia. Ele também é perseguido por sádicos empresários, que participam das caçadas organizadas por grupos racistas, como a Gatekeeper. Em 2006, ocorreram 441 mortes na fronteira. Os que ingressam nos EUA são explorados como mão-de-obra barata, nos trabalhos mais penosos e perigosos e sem direitos à rede pública de hospitais e escolas. O imigrante é o retrato da miséria na pátria do capitalismo.

Um novo Vietnã

Além dos graves problemas econômicos, os EUA enfrentam duros revezes no campo militar, nas armas. O Iraque se transformou num grande pesadelo. Segundo pesquisas de Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, os gastos com esta guerra atingiram em dezembro passado o valor de US$ 2.267 trilhões. O governo do carrasco George W. Bush achava que a ocupação seria um passeio. Mas já são quase 4 mil soldados ianques mortos e outros 27 mil feridos pela insurgência iraquiana, que preferiu adotar técnicas de guerrilha a combater de frente o poderoso exército invasor. Como afirma o teólogo Frei Betto, o Iraque é o novo Vietnã, que apavora os estadunidenses. “Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega”, afirma.

Mesmo no Afeganistão, pouco tratado na mídia, os EUA perdem terreno, com os guerrilheiros do Taleban retomando o controle de importantes fatias do território nacional. O governo fantoche de Hamid Karzai só se mantém no poder devido ao apoio dos soldados ianques e à aliança feita com as máfias do ópio – o que revela o falso discurso de Bush na sua cruzada contra o narcotráfico. O poderio militar, as armas, não tem garantido o plano hegemonista nesta região rica em petróleo e estratégica na geopolítica internacional. A Palestina continua conflagrada na luta pelo estado nacional; Líbano e Síria se insurgem contra a ambição imperialista; e o Irã parte para a ofensiva, inclusive no terreno nuclear. Como fera acuada, o “império do mal” dá sinais de desespero. Bush até ameaçou recentemente com uma terceira guerra mundial.

Desgaste do “diablo” Bush

Em decorrência da crise econômica e do pesadelo militar, já é tida como certa a derrota do presidente-terrorista George W. Bush nas eleições do próximo ano. Forte indicio desta tendência foi a surra do Partido Republicano no pleito para as duas casas legislativas no final de 2006, um fato inédito na história recente deste país. As idéias belicistas de Bush no front externo e sua política interna neoliberal sofrem rápido desgaste. Vários assessores neocons e teocons já abandonaram o navio do desgastado presidente como ratos no naufrágio. Manifestações de rua se sucedem nos EUA para rechaçar o governante que afundou o país na crise, elevou os índices de miséria, retirou direitos dos trabalhadores e mandou para guerra mais de 300 mil soldados – 150 mil integrantes das Forças Armadas e outros 150 mil mercenários.

Cresce também a pressão por democracia, já que Bush transformou o país num estado policial, através da Patriot Act e de outras medidas ditatoriais, vigiando o acesso à internet e até a compra de livros, escutas telefônicas ilegais e prisões de milhares de pessoas sem prova ou direito à defesa. Pelo mundo afora, o tirano é rechaçado em protestos massivos e cada vez mais radicalizados. O “Fora Bush” ecoa em todos continentes e o presidente dos EUA é considerado o “homem mais detestado do planeta”.

A fadiga do neoliberalismo

As idéias destrutivas e regressivas que emanaram dos EUA no final dos anos 80, reunidas no famigerado “Consenso de Washington”, atualmente não seduzem sequer alguns governos de direita. Além de agravar os problemas da humanidade, elas não conseguiram dar novo fôlego à economia capitalista, que continua patinando em baixos índices de crescimento – os menores desde os anos 70. As privatizações criminosas, a diminuição dos investimentos sociais e o desmonte dos direitos trabalhistas e previdenciários hoje são questionados no mundo inteiro. Até na Europa, onde a direita neoliberal retorna ao poder numa nova onda conservadora, os governantes procuram outras formas, mais mitigadas, de exploração para fugirem da ira popular – como ocorreu recentemente na França, com as explosivas revoltas de imigrantes e jovens.

O desgaste das idéias neoliberais confirma as dificuldades do próprio capitalismo. Este modo de produção está cada vez mais hipertrofiado, sob controle da ditadura financeira. O aumento da produtividade, fruto dos avanços tecnológicos, não serve ao bem-estar social, mas é apropriado por uma minoria de rentistas, que especula com as riquezas produzidas. Diariamente, on-line, circulam pelo mundo mais de US$ 3,5 trilhões na especulação financeira. Confirma-se também a tendência da concentração de riquezas no sistema capitalista, com as megafusões de empresas e a privatização das estatais. Na ambição do lucro, esta minoria coloca em perigo a própria existência do planeta, devastando o meio ambiente.

Avanço das potencias rivais

Neste processo de perda crescente de hegemonia dos EUA, novas potências surgem no cenário mundial e tentam romper o poder unipolar do imperialismo ianque. A China, com todas as contradições do seu “socialismo de mercado”, desponta como uma rival poderosa, ocupando o terceiro lugar na economia. Hoje já é a maior credora da divida pública dos EUA, o que dificulta suas ações agressivas, e a principal locomotiva da economia. Já a Índia, com toda a sua miséria, passa a ocupar papel de relevo no planeta. A Rússia, arrasada pela restauração capitalista, também tenta se firmar no contexto mundial.

Junto com o Brasil, Rússia, Índia e China constituem hoje o temido BRIC, que resiste às investidas expansionistas do imperialismo ianque e europeu. Graças a sua ação conjunta, a Rodada de Doha, que visa definir as regras do comércio internacional, está empacada há quase dois anos. As potências capitalistas forçam a criminosa abertura das economias periféricas, em especial nas áreas da indústria e dos serviços, mas não aceitam mudar as suas regras protecionistas nas atividades agrícolas. Defendem, cinicamente, o “façam o que eu falo, não o que faço”, mas já não conseguem impor os seus ditames.

Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro “Venezuela: originalidade e ousadia” (Editora Anita Garibaldi, 3ª edição).