Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

El Che nos céus da Bolívia

Fernando Soares Campos

Por que Che Guevara escolheu a Bolívia para dar continuidade à sua luta revolucionária contra o imperialismo, o neocolonialismo e o entreguismo das elites brancas autóctones? Talvez porque os povos indígenas daquele país tenham registrado uma das mais importantes histórias revolucionárias do subcontinente sul-americano; enquanto as elites brancas da região os iludiram, durante séculos, com tímidas "reformas sociais" que serviram apenas para arrefecer os ânimos do povo oprimido e desmobilizar os verdadeiros movimentos revolucionários.

O presidente Hugo Chávez, na posse de Evo Morales, em janeiro de 2006, declarou: "Nesse momento o Che está dançando de felicidade pelas nuvens da Bolívia".

Depois de ler a frase do presidente venezuelano, fui até a estante e peguei o livro "Meu amigo Che" (Traço Editora, 3ª edição, 1968), do argentino Ricardo Rojo. Lembrei-me de uma passagem em que o autor nos conta como ocorreu seu primeiro encontro com Ernesto Guevara em La Paz, ambos ainda muito jovens, 1953, quando Guevara, aos 25 anos de idade, ainda nem sonhava em se tornar El Che, um dos grandes vultos da História e um dos mártires da independência da América Latina.

Relatos de Ricardo Rojo:

"Em 1953, a Bolívia estava no momento mais alto do entusiasmo popular, e um governo nacionalista [o do MNR] levara a cabo, em pouco mais de um ano, duas reformas fundamentais: nacionalizara as maiores minas de estanho do mundo e reformara o regime de propriedade da terra. (...) A sorte da propriedade da terra tomara conta da consciência popular como a própria sorte de todo o povo boliviano. A cultura aimará, eminentemente agrícola, cuidou da mais eficiente exploração do solo e a considerou domínio comum. Os aimarás foram comunistas primitivos, embora tenham conservado a propriedade privada com relação aos bens móveis" (pág. 22/23).

A reforma agrária do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) pretendia reparar o despotismo do general Mariano Melgarejo, o caudilho que governou a Bolívia no período de 1865/71. O tirano declarou que as terras das comunidades indígenas pertenciam ao Estado, loteou-as e vendeu tudo, a preços de compadre, aos amigos da corte. Mas, em 1953, a revolucionária lei de reforma agrária do MNR não teve muitas dificuldades de ser promulgada e imediatamente as famílias indígenas puderam retomar a posse das terras outrora usurpadas pela ditadura de Melgarejo. Alguns historiadores atribuem a facilidade com que o MNR fez a sua reforma agrária ao fato de que, naquele momento, era praticamente inexistente a presença de proprietários rurais estrangeiros na Bolívia.

"Depois de tantos séculos de submissão, um povo indígena levantava a cabeça e lutava com armas nas mãos para recuperar a dignidade e o patrimônio perdidos. Era esse o espetáculo. Os protagonistas se moviam sem parar, pelas ruas inclinadas de La Paz, a cidade cercada de montanhas. Pelas ruas estreitas e tortuosas, entre casas coloniais e numa atmosfera onde era difícil separar o cheiro das frituras do cheiro da pólvora, subiam e desciam as cholas, levando seus filhos nas costas. Enquanto caminhavam, iam fiando suas lãs de lhama ou de vicunha, tingidas em cores vivas. Estas mesmas mulheres carregavam os fuzis dos homens e combateram nas ruas, deram tiros" (pág. 24).

Ricardo Rojo diz que conheceu Guevara na casa de um ex-deputado argentino chamado Isaías Nougués, que morava em uma localidade próxima a La Paz. O jovem estudante de medicina Ernesto Guevara lhe falou de sua paixão pela arqueologia, de suas pesquisas no campo da hanseníase e muito pouco de política, atividade para a qual ainda não havia se voltado com o interesse de quem se dedicou à revolução cubana poucos anos mais tarde.

"Na primeira vez que o vi, Guevara não me impressionou de modo especial. Falava pouco, preferia escutar a conversa dos demais, e, de repente, com um sorriso tranqüilo, descarregava sobre o interlocutor uma frase esmagadora. Na noite em que nos conhecemos, voltamos a pé para La Paz e nos fizemos amigos, embora o que tivéssemos realmente em comum fosse apenas nossa condição de universitários moços e pobres. Eu não me interessava por arqueologia, ele não se interessava por política, pelo menos no sentido em que esta atividade significava na época para mim e, mais tarde, significaria para ele" (pág. 25/26).

Certa ocasião, Ricardo e Guevara haviam acabado de jantar na casa de Nougués, onde já estavam acostumados a filar as refeições, e alguém se ofereceu para levá-los de volta a La Paz.

"Ao passarmos por uma pequena povoação chamada Obrajes, nem o homem que dirigia o carro nem nós notamos que nos mandaram parar. Uma descarga de fuzis, que passou raspando aos pneus, nos trouxe de volta à realidade. Ali estavam, sob o frio de uma noite serena e clara, três índios esfarrapados, um fuzil ainda soltando fumaça, perguntando-nos quem éramos.

— Homens de paz — respondeu Guevara, baixando o vidro da janela ao lado.

— De onde vêm?! — perguntaram com desconfiança.

— De uma refeição — prosseguiu Guevara, que, fazendo uma pausa e baixando a voz, acrescentou: — pois estávamos vazios.

"Deixaram-nos continuar depois de verificar, seriamente, alguns documentos cujo conteúdo com toda certeza não podiam decifrar. Meditávamos sobre o feito dramático do povo em armas quando, numa curva do caminho, um anúncio em néon e o som da música vinda do interior nos puseram diante de El Gallo de Oro, o cabaré da moda da burocracia governamental. O carro diminuiu a marcha ao passar em frente, já que não valia a pena repetir a experiência de momentos antes. Mas do El Gallo de Oro ninguém atirou nos pneus, ninguém pensou que a sorte da revolução estava em jogo. Nisso pensavam apenas os índios transidos de frio, de Obrajes. Guevara piscou o olho e, com voz taciturna, disse: 'O MNR se diverte...'"

Vale lembrar que o Movimento Nacionalista Revolucionário proibia, sob pena de destituição dos cargos e expulsão do partido, que seus membros freqüentassem night-clubs e lugares de diversão noturna; pelo menos naqueles momentos mais tensos da revolução. A ordem era manter-se em estado de permanente vigilância, prontidão. Mas os burocratas do partido entendiam que aquilo só valia para índios, como, por exemplo, os pais de Evo Morales.

Creio que o presidente Hugo Chávez acertou: El Che dançou e cantou nos céus da Bolívia durante a posse do presidente Evo Morales. Agora esperamos que o povo boliviano lute inspirado no exemplo do Che e não se deixe enganar por aqueles que querem apenas garantir privilégios.

Fernando Soares Campos

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