Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

O último Armagedon…

Avisamos desde já que não nutrimos pelo regime iraniano e pelo seu líder, Mohammed Khatami, qualquer simpatia. Avisamos também que com o título não pretendemos desempenhar o papel de profeta do Apocalipse. Apenas temos como objectivo chamar a atenção para os rumores de uma nova guerra no Médio Oriente, que de acordo com alguns comentadores poderá transformar-se em algo que há muito tentamos evitar: um conflito de consequências irreversíveis para a Humanidade. Daí o título.

O centro da crise sistémica que vivemos reside nos USA. A recente crise do Capital de Risco sobre o imobiliário pôs a nu a fragilidade de uma Economia que já não tem espaço para crescer, por maior que seja a imaginação para criar novas e maiores demandas financeiras. O orçamento do consumidor médio norte-americano está no limite. O mesmo acontece na União Europeia, apesar de ainda ter algum fôlego. Isto afecta naturalmente as economias emergentes da China e da Índia, que irão ter que refrear o seu crescimento industrial por falta de encomendas dos mercados de consumo do Ocidente. Por outro lado, temos o pico do Petróleo que está provocar o aumento do preço do barril para valores inimagináveis há a alguns anos. Especialistas crêem que não deve ficar pelos 95 dólares actuais. Provavelmente poderá atingir os 120 dólares lá para meados de 2008.

O país do Tio Sam tem neste momento o maior défice acumulado da sua história. Segundo Chris Martenson, comentarista económico ligado aos Conservadores, no seu artigo “Os Estados Unidos estão insolventes” ( http://resistir.info/ ), refere que só a dívida interna, passivos líquidos combinados, ascende à astronómica percentagem de 403% do PIB. No cômputo deste valor, não estão consideradas as despesas com a Guerra no Iraque e no Afeganistão, que se estima em 15% do PIB. Tal significa que a Economia Norte-americana não gera riqueza real suficiente para cobrir as despesas cada vez maiores em benefício do Capital Financeiro e da Guerra. Está pois na falência. Pior é que tal situação, devido à interdependência económica e financeira, um efeito perverso da Globalização, atinge inexoravelmente toda a Economia Mundial, pelo que nesse sentido os USA são uma espécie de epicentro de um terramoto económico-financeiro à escala planetária.

A crise actual tem sintomas idênticos à “Grande Depressão” Norte-americana de 1929 a 1933, que tendo começado em Wall-Street, atingiu todas as economias nacionais do Ocidente. A crer na História, vai atingir necessariamente, e já começou, a Economia Mundial, quiçá com mais intensidade e número de vítimas.

Tal como poucos anos depois, a saída foi uma guerra, a II Guerra Mundial, com o efeito devastador sobre a Europa, porém com grande vantagem económica para os USA e aliados, provavelmente os “Senhores do Mundo” irão de novo deitar mão desse expediente. Para salvar o Sistema Financeiro Mundial da bancarrota, o melhor é marchar… marchar. Pretextos não faltam, como também não falta vontade belicista dos “infiéis” islamitas que espreitam uma oportunidade para porem as garras de fora… Junta-se a fome com a vontade de comer… Todavia agora, diferente daquela época, estará presente um maior potencial militar destrutivo, capaz inclusive de pôr em causa a Vida no Planeta.

Os rumores de guerra já aí estão e no que diz respeito às declarações do principal beligerante são muito semelhantes à situação que antecedeu a invasão do Iraque. Respigamos do Açoriano Oriental, de 28 de Outubro de 2007, de um artigo sob título “Bush diz do Irão o mesmo que dizia do Iraque antes da invasão” a seguinte passagem: do “Irão: A minha posição não mudou, ou seja, todas as opções estão em cima da mesa (19 de Junho de 2007)” e do “Iraque: Todas as opções estão em cima da mesa (13 de Março de 2002)”. Parece até uma cópia…

Tal como no caso iraquiano, as armas de destruição maciça não foram encontradas e o chefe da missão da ONU, Hans Blix, foi afastado por não conseguir provar a tese norte-americana, também o responsável da AIEA (Agência Internacional de Energia Atómica), o egípcio Elbaradei corre o mesmo risco. Recentemente suscitou vivas críticas de Israel e da França por afirmar que “Não recebi qualquer informação de que exista um programa activo concreto de armas nucleares neste momento” (no Irão), enquanto o relatório daquela agência confirma que o Programa Nuclear do Irão é de natureza civil. Verdade ou não, o cenário de uma guerra está montado, os actores apenas aguardam o sinal para entrar em palco…

Segundo Michel Chossudivsky, professor de economia da Universidade de Ottawa, no seu artigo “Planos de Guerra da Administração Bush para o Irão”, ( http://resistir.info/ ), tais planos remontam a 2003 e incluem a utilização de armas nucleares tácticas, que serão utilizadas caso aquele país riposte com os seus mísseis de nova geração. Já se encontram identificados 2 000 alvos, sendo contudo provável que o primeiro ataque se verifique contra a base Fair, onde são fabricados projecteis que perfuram blindados e está aquartelada a fanatizada Guarda Revolucionária Iraniana. Toda a estrutura de comando Norte-americana foi entretanto remodelada, estando agora mais próxima dos “estrategas da luta contra o Terrorismo” e da Casa Branca.

A força naval estacionada no Golfo Pérsico passou de um grupo de combate para três grupos, cada um com o seu porta-aviões (USS Nimitz,USS Truman e USS Enterprise. Na costa do Líbano, está estacionado o USS Kearsarge Expeditionary. A questão dos mísseis de defesa estacionados na Europa Ocidental, que é actualmente pomo de discórdia com os russos, prende-se com tal estratégia, podendo tais bases já estarem equipadas com armas nucleares tácticas.

 Desta vez os USA, ao contrário da campanha contra o Iraque, contam com o apoio efectivo da NATO e da França, além de Israel, que deverá entrar inevitavelmente na liça. A acção da força aérea israelita se fará sobre a Síria, eventual aliado militar do Irão. Os Norte-americanos e os seus aliados temem, por seu turno, uma forte reacção das forças armadas iranianas, composta de 350 mil homens e mais outros tantos reservistas, capazes de atacar as actuais forças aliadas que se encontram no Iraque e no Afeganistão. Esta é aliás uma situação nova em toda a História dos conflitos recentes no Oriente Médio.

Finalmente, para Michel Chossudivsky, “É preciso saber-se que, mesmo sem utilização de armas nucleares, a intenção dos EUA de efectuar bombardeamentos aéreos sobre as instalações nucleares do Irão, poderão dar azo a um desastre nuclear do tipo de Chernobyl ou numa escala significativamente maior”. Nós acrescentamos, que poderemos estar à beira do último Armagedon… Dizemos último, por que entretanto houve várias guerras no lugar do Armagedon, na Palestina da Antiguidade.

Artur Rosa Teixeira

artur.teixeira@netcabo.pt