Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Exclusivo FARC: PRAVDA.Ru entrevista Raúl Reyes

Prezado Timi, antes de me dedicar a responder sua importante entrevista, permita que lhe expresse o saúdo cordial e revolucionário dos Comandos, guerrilheiras e guerrilheiros das FARC-Exército do Povo. Da mesma forma, gostaríamos de cumprimentar as leitoras e leitores desse prestigiado Jornal.

Abraço bolivariano para ti e seus internautas.

Raúl.

1. Qual a situação atual entre o Governo da Colômbia e as FARC-EP?

Neste momento não existe nenhum canal de comunicação entre Governo da Colômbia e as FARC-EP. O Presidente Uribe está dedicado a sua política de guerra consistente em utilizar todos os recursos do Estado junto aos mais de três bilhões de dólares, que o governo dos Estados Unidos, aportou para bancar o Plano de liquidar as FARC pela via militar. Nesse contexto de guerra total, o governo colombiano nega a existência do conflito interno expressando assim, uma inexplicável contradição. As FARC são povo em armas, surgiram em 1964 como oposição política ao Estado e ao Governo colombiano, em resposta às políticas de exploração, desemprego, ausência de liberdades e negação dos direitos do povo e dos trabalhadores. Lutamos pela conquista do poder, queremos construir a Nova Colômbia livre de exploradores e sem explorados, onde impere a Justiça Social, a democracia, se respeite a dignidade de nosso povo e a soberania da Pátria. Mantemos vigente a proposta de que o governo retire a força pública dos dois municípios, Florida e Pradera, no Estado do Valle del Cauca, para poder aí assinar o Acordo Humanitário que permita a liberação de mais ou menos 600 pessoas privadas da liberdade por problemas derivados do conflito interno, e que atualmente estão em poder do Governo e das FARC-EP. Infelizmente, o senhor Uribe se opõe a aceitar o despejo dos municípios porque privilegia as saídas de força e acredita no triunfo militar sobre a guerrilha revolucionária das FARC.

2. Poderia dizer-nos algo sobre os programas sociais nas áreas controladas pelas FARC-EP?

Em primeiro lugar, ratificamos que as FARC-EP têm presença ativa e permanente, praticamente em todo o território nacional, por meio de organizações de massas, populares, do Partido Comunista Clandestino, o Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia, através das quais influímos com nossa concepção revolucionária em defesa dos interesses da população desamparada pelo Estado e os governos. As unidades guerrilheiras participam na construção de caminhos, pontes, estradas de chão, reparação e construção de escolas, postos de saúde, redes elétricas, aquedutos e programas de produção agropecuária, entre outros. Igualmente, organizam brigadas de saúde gratuitas nas que participam médicos, enfermeiros e odontólogos, oferecendo assim, socorro à população enferma e desamparada pelas entidades estatais. Escutam com muita atenção a qualquer pessoa, seja que for, quando pede orientação ou manifesta alguma queixa ou problema. Ninguém sae dos acampamentos de mãos vazias, pois sabemos que se nos procuram é porque acreditam em nós, porque vêm em nós a Autoridade do Estado Alternativo e não devemos nem podemos jamais enganar ou mentir para ninguém. Nos alegramos quando as pessoas ficam como mais leves ao ver que as escutamos e ajudamos a diminuir suas angustias e necessidades. Trata-se de ir aos poucos criando seres humanos novos, justos e fraternos.

3. A futuro, quais as perspectivas da solução política do conflito e a conversão das FARC-EP em partido político?

No Programa Agrário dos Guerrilheiros das FARC, lançado como Plataforma de Luta em Marquetalia, em 20 de Julho de 1964 e, corrigido e ampliado na Oitava Conferência de Guerrilheiros em 1983, afirmamos:

“… Por isso as FARC-EP têm-se constituído em uma organização política militar que recolhe as bandeiras bolivarianas e as tradições libertárias de nosso povo para lutar pelo poder e levar à Colômbia ao exercício pleno de sua soberania nacional e fazer vigente a soberania popular. Lutamos pelo estabelecimento de um regime democrático que garante a Paz com Justiça Social, o respeito dos Direitos Humanos e um desenvolvimento econômico com bem-estar para todos os que vivem na Colômbia”.

Todo isto é possível que seja alcançado pelo povo colombiano quando possa retirar de seu caminho o maior e pior empecilho: a guerra infame que o Império Norte-americano e o Governo colombiano desde há anos mantêm na Colômbia. Ou seja, quando as partes em conflito, com vontade política respondam ao clamor nacional pela Paz com Justiça Social.

4. É verdade que os paramilitares foram desmobilizados?

Na Primeira Magistratura do país há um narco-paramilitar e, para completar, também fascista. A farsa dos supostos diálogos com os paramilitares, patrocinada por ele é para legalizar os capitais do narcotráfico e, cobrir com o manto da impunidade os crimes de Lesa Humanidade cometidos por essas hordas de assassinos que têm massacrado o povo colombiano.

5. Será que o Governo está disposto a apostar-lhe à busca da Paz, já que a guerra não tem dado resultados?

A resposta a essa importante pergunta lhe corresponde ao Governo. Não há pior cego que aquele que não quer ver!

6. De que maneira ajudaria à busca da Paz, negociar entre as partes em conflito um Acordo para o Intercambio Humanitário?

O Intercambio Humanitário alcançou já níveis de clamor nacional e conta com importante apoio internacional. Nós há tempos estamos prontos, não atrasamos essa possibilidade. Basta que o Governo despeje os Municípios Florida e Pradera, situados no Estado do Valle del Cauca, contemplados em nossa proposta. Por que despeje? Para fazer o Intercambio com tranqüilidade e segurança, só. A Troca de Prisioneiros provará uma vez mais que a saída à crise que vive Colômbia não necessita que sejam disparadas as armas da República contra os cidadãos, nem necessita da força bruta, mas da força da ração, do entendimento, do sentido de Pátria e soberania.

7. Há países dispostos a ajudar a facilitar o clima necessário para que as partes se disponham a dialogar em procura de um Acordo de Paz?

A Comunidade Internacional sabe perfeitamente que o conflito interno que ensangüenta nossa Pátria, se resolve só por meio da solução política, pois em essência o nó gordiano da confrontação é de caráter político. Desde há mais de 50 anos os sucessivos governos vêm fazendo da violência uma forma de governo, através do sempiterno “estado de sitio”, hoje chamado “estado de exceção”. Isto, significa que à oposição em suas diversas formas, o regime sempre tem-la perseguido, e de que maneira! Exterminando-a! Ante essa barbárie o povo tem respondido resistindo corajosamente. Por isto desde sua gênesis, a causa do alçamento armado tem sido e segue sendo eminentemente política. Vejamos o que diz o Programa Agrário dos Guerrilheiros, citado anteriormente:

“Nós, somos revolucionários que lutamos por uma mudança do regime. Queríamos e lutávamos por essa mudança, usando a via menos dolorosa para nosso povo: a via pacífica, a via democrática de massas. Mas, essa via nos foi fechada violentamente com o pretexto fascista oficial de combater supostas “repúblicas independentes”, e como somos revolucionários que de uma ou outra maneira jogaremos o papel histórico que nos corresponde, tivemos que buscar a outra via: a revolucionária armada para a luta pelo poder”.

Daí que sempre hajamos dito que o melhor espaço para a solução política do conflito sejam os Diálogos, a Mesa de Conversações. E a Comunidade Internacional, especialmente nossos países vizinhos, podem nos ajudar a criar o meio ambiente necessário para a retomada das Conversações.

8. Por que vários presidentes latino-americanos desistiram de ir pessoalmente à posse do segundo mandato de Uribe na Cidade de Bogotá?

A ausência de importantes e mui destacados estadistas de América Latina e El Caribe, na posse para o segundo mandato do atual Chefe de Estado, pode ser entendida como sinal claro de que buscar a solução dos problemas sociais por meio da guerra contra o povo é ir a contra-via dos ventos que em nossa região agitam bandeiras que, em mãos das maiorias, significam busca da Paz com Justiça Social, por vias pacíficas. Como disse a jornalista María Jimena Duzán, em artículo recente, essa ausência deveria ser entendida pelo Governo como “um alarme” e ver nela “a necessidade de reformular nossas relações regionais e afastarmos do círculo de Washington” E agrega, “Para ninguém é um secreto que no Continente, nosso presidente é o aliado incondicional de George Bush, hoje tão desprestigiado dentro fora de seu país”. Resulta que pretender dominar a ponta de guerras desnecessárias é ir contra os mais nobres anseios dos povos e da Humanidade. Daí a solidão de Uribe e de mister Bush.

Raúl Reyes

Chefe da Comissão Internacional

das FARC-Exército do Povo

Montanhas da Colômbia, setembro de 2006