Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Entrevista a Raul Castro

Nenhum inimigo poderá derrotar-nos

Afirmou Raúl em declarações ao “Granma”. Informou que Fidel continua melhorando e agradeceu as milhares de mensagens de solidariedade e apoio procedentes de nosso país e do mundo todo.


Adotaram-se medidas para prevenir qualquer tentativa de agressão . O povo está dando uma contundente demonstração de confiança em si próprio LÁZARO BARREDO MEDINA


O general-de-exército Raúl Castro ofereceu declarações ao jornal ”Granma”. A conversação teve lugar em seu gabinete do Ministério das Forças Armadas (Minfar) e tratou dos principais acontecimentos destes dias.


Companheiro Raúl, nosso povo recebeu com grande alegria a mensagem e as fotos do Comandante-em-Chefe publicadas na imprensa e, posteriormente, a reportagem na televisão do
encontro com o presidente Chávez. Contudo, aproveitando esta oportunidade, seria muito apreciado pelos milhões de cubanos que acompanharam com atenção as informações sobre o estado de saúde do companheiro Fidel, escutarem uma valorização pessoal de você, sempre tão unido a ele.


Sem dúvida, o que mais interessa a todos, neste momento, é a saúde do Chefe. Começo parabenizando e agradecendo, em nome de todo o povo, os médicos e o resto dos companheiros e companheiras que o atenderam de forma
excelente, com um profissionalismo insuperável e, sobretudo, com grande amor e dedicação. Esse foi um fator muito importante na progressiva recuperação de Fidel.


Acho, ademais, que sua extraordinária natureza física e mental também foi essencial.


Os cubanos, ainda que não o vejamos freqüentemente pela televisão ou pela imprensa, sabemos que você está aí, em seu posto de combate, como sempre. Mas acho que estas palavras suas também servem para acabar com a especulação e a mentira, presentes em alguns meios no estrangeiro.
Se você se está referindo aos que noutros países se entretêm especulando acerca de se eu apareço ou não na televisão e nos jornais, bom, já saí no domingo com Fidel e nas boas-vindas ao presidente Chávez, embora, realmente, esses comentários me importem pouco.


Realmente, muito me interessa o que pensa nosso povo embora, felizmente, vivamos nesta Ilha geograficamente pequena, onde se sabe o que fazemos todos. Reafirmo isso quando converso com a população e com outros dirigentes locais em meus percursos pelo país.


Realmente, não acostumo a comparecer publicamente com freqüência, a exceção daqueles momentos em que seja preciso. Muitas tarefas relativas à defesa do país não devem ser publicadas e é preciso manipula-las com o máximo cuidado, e essa foi uma das minhas responsabilidades fundamentais como ministro das FARs. Além do mais, sempre fui discreto, essa é minha forma de ser e, ao mesmo tempo, esclareço que penso continuar assim.

 Mas não foi a razão fundamental de que apareça pouco nos órgãos da imprensa, simplesmente não tem sido necessário.


Não tem faltado nenhuma orientação essencial.


Com certeza. A Proclamação do Comandante-em-Chefe deu a informação que podia ser dada nesse momento e, ainda, nos deu a todos tarefas precisas. O principal é dedicar-se com o corpo e com a alma a cumpri-las. Assim viemos fazendo todos os dirigentes dos diferentes escalões, junto de nosso povo que soube manter uma disciplina exemplar, vigilância e
espírito de trabalho.


Aproveito para agradecer, em nome do Comandante-em-Chefe e da direção do Partido, as incontáveis manifestações de apoio à Revolução e ao conteúdo de sua Proclamação, bem como as manifestações de carinho que professaram
personalidades da cultura; profissionais e trabalhadores de todos os setores, camponeses, militares, donas de casa, estudantes, pioneiros; entre eles inúmeros crentes, personalidades, instituições e manifestações religiosas da imensa maioria das denominações, enfim, do povo de Cuba. Tem sido uma demonstração contundente de sua unidade
indestrutível e de sua consciência revolucionária, pilares essenciais da fortaleza de nosso país.


Também foi impressionante a amplitude das manifestações de apoio vindas do mundo todo.


Sim, realmente, algo estimulante. Por isso, quero agradecer também as inúmeras mensagens de solidariedade e respeito, vindas do mundo todo, de pessoas das mais diversas categorias sociais, desde simples trabalhadores até figuras intelectuais e políticas, bem como um número importante e representativo de instituições e personalidades religiosas.
Todos o fizeram sem condicionamento algum. Aos poucos que não atuaram assim nem aceitamos nem agradecemos.


Inclusive, até hoje (17 de agosto) somam 12 mil os assinantes que apóiam o apelo que fizeram, há dez dias, proeminentes personalidades da cultura de mais 100 países, entre eles vários prêmios Nobel, que condena as declarações ingerencistas e agressivas do governo dos Estados Unidos,
que também denuncia o caráter abertamente intervencionista do Plano
Bush, como chamamos a esse engendro que parece desempoeirado dos tempos em que - como aconteceu no fim do século 19 e começo do 20 - frustraram a independência de Cuba e nos impuseram seus interventores.
Agora, também designaram um interventor para a suposta "transição". O tal de McCarry, que há alguns dias declarou que os Estados Unidos não aceitam a continuidade da Revolução Cubana, embora não tenha dito como
pensam evitá-la. 

Ao que parece, os inimigos da Revolução ficaram espantados pela contundente reação da população cubana, imune a sua gigantesca e vergonhosa campanha de ofensas e mentiras. Falam com espanto da calma imperante em Cuba, como se fosse algo raro e não precisamente o normal, o que todos aqui sabíamos que aconteceria, diante de uma situação como esta.

Sim, parece que eles chegaram a crer suas próprias mentiras. O mais provável é que seus "tanques pensantes" e muitos de seus analistas estejam tirando agora novas conclusões.


Como você dizia, existe uma absoluta tranqüilidade no país. E algo ainda mais importante, a atitude calma, disciplinada e decidida que paira em cada local de trabalho, em cada cidade, em cada bairro. A mesma que sempre assume nosso povo em momentos difíceis. Se nos guiássemos unicamente pela situação interna, não exagero ao afirmar que não teria
sido necessário nem mobilizar um pioneiro dos que custodiam as urnas durante as eleições.


Mas nunca temos desprezado as ameaças do inimigo. Seria irresponsável fazê-lo perante um governo como o dos Estados Unidos, que declara com a maior falta de pudor que não aceita o estabelecido na Constituição cubana. De lá, como se fossem os donos do planeta, dizem que aqui tem
que haver uma transição para um regime social que seja do seu agrado e que "tomarão nota de todos aqueles que se oponham a isso". Embora pareça incrível, essa atitude de valentão de bairro e, ao mesmo tempo, de estupidez, foi assumida pelo presidente Bush, há poucos dias.


Vai ter que gastar muito papel e tinta...


Bastante. Por isso, o aconselho que faça ao avesso. Que "tome notas", como ele diz, dos anexionistas assalariados de sua Repartição de Interesses aqui em Havana, desses que vão receber as migalhas dos anunciados US$ 80 milhões para a subversão, porque o grosso será distribuído lá em Miami, como sempre acontece.

Caso contrário, a lista vai ser interminável. Teria que anotar os
milhões de nomes de cubanos e cubanas, os mesmos que estão prontos para receber seu interventor designado com o fuzil na mão.


Neste momento, deveriam ter claro que com ameaças ou imposições não é possível conseguir nada em Cuba. Contrariamente , sempre estivemos dispostos a normalizar as relações num plano de igualdade. O que não admitimos é a
política prepotente e ingerencista que freqüentemente assume a atual administração desse país.


Relendo recentemente os documentos dos Congressos do Partido, achei idéias que parecem escritas hoje. Por exemplo, este excerto do Relatório Central, apresentado por Fidel ao Terceiro Congresso, em fevereiro de 1986: "Cuba, como temos exposto muitas vezes, não se recusa a discutir suas
divergências prolongadas com os Estados Unidos e procurar a paz e melhores relações entre nossos dois povos".


E continuou:


"Mas isso teria que ser sobre a base do respeito mais irrestrito a nossa condição de país que não tolera sombras em sua independência, por cuja dignidade e soberania lutaram e se sacrificaram gerações interas de cubanos. Isso será possível tão só quando os Estados Unidos se decidam a negociar com seriedade e estejam dispostos a tratar conosco, com
espírito de igualdade, reciprocidade e o mais pleno respeito mútuo".


Formulações similares recolhem os documentos do resto dos Congressos do Partido e, ainda, têm sido reafirmadas por seu Primeiro-Secretário, em diversas ocasiões.

Entrevista a Raul Castro
Entrevista a Raul Castro

Porém, continuam com a mesma política agressiva e prepotente de sempre.


Essa é a realidade. Vinte anos depois de Fidel ter pronunciado as palavras que citei, têm esse plano intervencionista que já mencionei, de 458 páginas, aprovado no ano 2004, onde detalham a forma em que se propõem acabar com a obra da Revolução na saúde, na educação, na previdência social; na Reforma Agrária, na Reforma Urbana, quer dizer, desalojar as pessoas de suas terras, de suas casas para devolvê-las aos
antigos donos, etc, etc, etc.


Além do mais, há apenas uns dias, em 10 de julho passado, o presidente Bush aprovou oficialmente um documento que complementa o anterior, e que colocaram discretamente na internet desde junho. Disseram abertamente que incluem um anexo secreto que não publicam "por razões de segurança
nacional" e "para garantir sua efetiva realização", são textualmente os termos que utilizaram, o que constitui uma violação flagrante do direito internacional.


Há muito tempo que tomamos medidas para enfrentar esses planos. Estas foram reforçadas especialmente quando o atual governo dos Estados Unidos iniciou a desenfreada política guerrerista que mantém até o presente, incluíndo o anunciado propósito de atacar sem avisar quaisquer do que
eles chamam "sessenta ou mais escuros recantos do mundo".


Uma escalada notável da agressividade....


Certamente, e em 2003 os planos foram ainda mais explícitos. Em 5 de dezembro desse ano, o sr. Roger Noriega, nessa altura secretário adjunto de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental, declarou - não sei se de maneira intencionada ou por indiscrição - que "a transição em Cuba -
isto é, a morte de Fidel - pode acontecer em qualquer momento e temos que estar prontos para atuar de maneira decisiva e ágil". Que "os Estados Unidos querem estar certos de que os cúmplices do regime não tomem conta do controle" e como para que não existam dúvidas,
acrescentou que trabalham "para garantir que não haja sucessão no regime de Castro". Posteriormente, ele e outros altos funcionários norte-americanos insistiram no tema.


Que outra forma existe de atingir esses propósitos que não seja a agressão militar? Portanto, o país adotou as medidas necessárias para fazer face a esse perigo real.


Perante situações similares, Martí nos ensinou o que se devia fazer:


"Plano contra plano. Sem plano de resistência não se pode vencer um plano de ataque", escreveu no jornal “Pátria”, em 11 de junho de 1892.


O governo dos Estados Unidos não revela o conteúdo desse anexo porque é ilegal. É preciso exigir sua divulgação, sobretudo agora que falaram de sua existência para ameaçar Cuba.


Nossos planos defensivos, pelo contrário, são transparentes e legais, simplesmente porque não agridem ninguém, seu único objetivo é garantir a soberania e a independência da Pátria, não violam nenhuma lei internacional nem nacional.


Nossa mídia tem informado sobre a seriedade e importância das medidas que temos adotado, nos últimos tempos, para fortalecer cada vez mais a defesa.


Há pouco mais de um mês, em 1º de julho, o tema foi examinado pelo 5º Plenário do Comitê Central do Partido.

Alguns falcões do império pensaram que em 31 de julho passado tinha chegado o momento de destruir a Revolução.


Não podíamos descartar o perigo de que alguém enlouquecesse, ou ficasse mais louco ainda, dentro do governo norte-americano.


Portanto, às três horas da madrugada do 1º de agosto, segundo os planos aprovados e assinados desde 13 de janeiro de 2005 pelo companheiro Fidel, e depois das consultas necessárias, decidi aumentar consideravelmente a nossa capacidade e disposição combativas, mediante o cumprimento das medidas previstas. Entre elas, a mobilização de milhares de reservistas e milicianos, e o aprestamento das principais unidades das tropas regulares, inclusive das Tropas Especiais, das missões que exigia a situação político-militar criada.


Todo o pessoal mobilizado cumpriu ou cumpre neste momento um importante ciclo de preparação e coesão combativas, boa parte dele em condições de
campanha.


Estas tropas vão ser renovadas, em números aproximadamente iguais, segundo forem atingidos os objetivos propostos. Todos os reservistas e milicianos que participarão destas atividades conhecerão, com a
antecipação necessária, a data de incorporação às unidades e o tempo de permanência nelas, para cumprirem sua guarda pela Pátria.


Até agora, a mobilização que começamos em 1º de agosto, tem se desenvolvido satisfatoriamente, graças à magnífica resposta dos nossos  reservistas e milicianos, bem como ao trabalho louvável desenvolvido pelos comandos militares e especialmente pelos conselhos de defesa, sob a direção do Partido em todos os escalões.


Não é meu propósito exagerar os perigos. Nunca fiz. Até hoje, os ataques destes dias não passaram da retórica, salvo o aumento substancial das transmissões subversivas de rádio e televisão contra Cuba.


Anunciaram o emprego de um novo avião...


Eles vinham utilizando anteriormente, em períodos variáveis, um avião militar conhecido por Comando Solo. A partir do dia 5 de agosto passado, começaram a empregar outro tipo de aeronave que tem efetuado transmissões diárias. Em 11 de agosto, foi feito de conjunto com o mencionado Comando Solo.


Inclusive, nos dias 5 e 6, os nossos radares detectaram que estava transmitindo desde águas internacionais, em violação flagrante dos acordos da União Internacional das Telecomunicações, da quais Estados Unidos é signatário, atividade que, mais uma vez, denunciamos através dos canais
e instâncias correspondentes; pois essas transmissões afetam a radiodifusão no nosso país.


Realmente, não nos preocupa, absolutamente, a hipotética influência dessa propaganda grosseira e de má qualidade, muito abaixo do nível cultural e político do povo cubano e que por demais o nosso povo rejeita, tal como os cartazezinhos luminosos da Repartição de Interesses. Não se trata disso. É, ante todo, um assunto de soberania, de
dignidade. Jamais admitiremos passivamente a consumação desse ato agressivo e por isso o interferimos.


Afinal, estão gastando somas milionárias de dinheiro dos contribuintes norte-americanos para conseguir o mesmo resultado de sempre: uma TV que não se vê.


Acrescento a estas reflexões sobre a defesa do país uma idéia expressa por Fidel, em 1975, no Relatório Central do Primeiro Congresso do Partido, que de tanto citá-la, já aprendi de cor:


"Enquanto existir o imperialismo, o Partido, o Estado e o povo prestarão aos serviços da defesa a máxima atenção. A guarda revolucionária não se descuidará jamais. A história ensina com suficiente eloqüência que os que esquecem este princípio não sobrevivem ao erro".


Esse tem sido o nosso guia ao longo de muitos anos e continua a ser, por sobradas razões.


Acredito que nós os cubanos temos demonstrado nestes dias que essa convicção é compartilhada por todos.


Concordo com você. Por isso, ratifico a congratulação ao nosso povo por esta contundente demonstração de confiança; uma prova da maturidade, calma, unidade monolítica, disciplina, consciência revolucionária e
-escreva em maiúsculos- FIRMEZA , que me fizeram lembrar do comportamento dos cubanos durante os dias heróicos da chamada Crise dos Mísseis, em outubro de 1962.


São os frutos da Revolução cujo conceito Fidel resumiu no seu discurso do 1º de maio de 2000, em vinte idéias básicas que constituem a quinta-essência do trabalho político ideológico. São os resultados de muitos anos de combate que sob sua direção temos ganhado. Ninguém duvide, enquanto permanecermos assim, nenhum inimigo poderá derrotar-nos.
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REVOLUÇÃO é ter sentido do momento histórico; é mudar tudo o que deve ser mudado; é igualdade e liberdade plenas; é ser tratado e tratar aos demais como seres humanos; é nos emanciparmos por nós próprios e com nossos próprios esforços; é desafiar poderosas forças dominantes, dentro
e fora do âmbito social e nacional; é defender valores nos quais se crê ao preço de qualquer sacrifício; é modéstia, desinteresse, altruísmo, solidariedade e heroísmo; é lutar com audácia, inteligência e realismo; é não mentir jamais nem violar princípios éticos; é convicção profunda de que não existe força no mundo capaz de esmagar a força da verdade e das idéias. Revolução é unidade, é independência, é lutar por nossos sonhos de justiça para Cuba e para o mundo, que são a base do nosso patriotismo, nosso socialismo e nosso internacionalismo.


Comandante-em-Chefe Fidel Castro Ruz

1º de maio de 2000

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