Desenvolvimento Sustentado, a Copa do Mundo e eu

Faz algum tempo que surgiu o conceito de desenvolvimento sustentado, e durante a ECO-92 - Conferência da ONU sobre ambiente que aconteceu no Rio de Janeiro em 1992 -, os países participantes debateram principalmente maneiras de aliar o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental.

A idéia principal é de que o ambiente pode, e deve, ser aproveitado em benefício das populações que nele vivem, mas esse aproveitamento, no entanto, deve ocorrer de forma cuidadosa, eficiente, consciente, com o máximo de preservação ambiental possível e procurando-se evitar os danos causados pelos atuais modelos de desenvolvimento da produção capitalista. Essa questão resume o que hoje chamamos de desenvolvimento sustentado, cuja política tem como objetivo encontrar alternativas energética! s, novas tecnologias para a produção de recursos que danifiquem o menos possível a natureza e o meio ambiente, além de novos métodos para o reaproveitamento de resíduos, além da preservação da água, que ganhou uma atenção especial como ponto de garantia para o desenvolvimento sustentado.

Evidente que conciliar tudo isso não é uma tarefa fácil, mas na preparação para a Copa do Mundo de 2006, a Alemanha nos mostrou ser possível.

Todos nós sabemos que a prática esportiva desenvolve o corpo e a mente, afinal é conhecida a frase “Corpo são, mente sã”. Sabemos ainda que o esporte favorece a consciência do bem tanto para o individual quanto para o coletivo, além de alimentar o espírito de solidariedade, de respeito, de valores éticos, de favorecer as relações entre os povos e também de ser um dos instrumentos mais fortes para fortalecer o civismo e o patriotismo.

Não bastasse tudo isso, ele ainda significa a inclusão social, a promoção da qualidade de vida e do meio ambiente.

Muito se tem falado em desenvolvimento sustentável, e há uma estreita relação entre a prática esportiva e o desenvolvimento sustentado de um país. Por quê? Porque o esporte é uma forte alavanca econômica. É uma atividade econômico-financeira de primeira grandeza. É a atividade mundial que tem mais implicação na economia, no social, na política, na promoção de bens de consumo e até na segurança. Ele é responsável pelo crescimento e desenvolvimento de diversos setores, tais como: turismo; indústrias alimentícias; serviços; indústrias que produzem equipamentos esportivos; no marketing de vendas; na construção civil, seja na construção de estradas, de ferrovias, de centros poli-esportivos e estádios; na mídia impressa, televisiva e eletrônica; nos direitos de imagem e de transmissão, entre outros.

Além do mais, o esporte, principalmente o futebol, é um grande produtor de ídolos, expostos permanentemente em todas modalidades de mídia e por isso tem poderosos patrocinadores, que buscam parcerias para plantar, encantar e captar clientes para seus produtos, mostrando através do marketing a alegria e o prazer.

A Alemanha, país sede da Copa do Mundo de 2006, estando engajada na busca pelo desenvolvimento sustentável e, sendo conhecedora das potencialidades do futebol, um evento de enormes proporções - só para se ter uma idéia, a cidade de Berlim recebeu durante a copa cerca de 15 milhões de pessoas -, na preparação da 18ª Copa do Mundo, montou desde a década de 90 um programa chamado Green Goal (Gol Verde) cujo objetivo era organizar a produção, a organização e o consumo de uma maneira ecologicamente correta e com geração menor possível de poluição. Para o gerenciamento sustentável desse projeto fez parceria com a Fifa e nomeou um ambientalista, o Sr. Klaus Toepfer para ser o embaixador especial dessa empreitada.

O programa Green Goal marcou posição, tendo como prioridade máxima os cuidados com o meio ambiente em quatro áreas fundamentais para o evento: água, energia, lixo e transporte.

Medidas adotadas:

Na questão água, além das medidas para evitar o desperdício, nos locais de concentração dos torcedores, chamados de FAN FEST e também nos estádios, foram utilizados mictórios sem água nos banheiros masculinos, além da criação de um sistema especial para captação da água da chuva, utilizada para irrigação de alguns estádios, principalmente o gramado do Olympiastadion.

Sobre energia elétrica, além de se buscar economizar energia, foram criados sistemas de gerenciamento de energia de última geração que foram instalados no estádio de Munique para promoverem uma redução diária de 20% no consumo.

Sobre o lixo e para se evitar o desperdício, foi adotado um copo de plástico, firme e reutilizável, chamado “copo da copa”. A idéia principal era de um copo por expectador para cada evento, com um depósito caução de 1 Euro, ou seja, um refrigerante custava 4 euros o primeiro copo e os outros custariam 3 Euros, utilizando-se o mesmo copo, ou seja, um copo por expectador participante.

Na questão da mobilidade ou transporte, os transportes públicos como trens e metrôs tiveram acesso gratuito para o local dos jogos, ficando a cargo do Comitê de Organização da Copa as despesas deste setor, com o objetivo da preservação ambiental desde a economia de confecção de bilhetes, a busca da redução do uso de veículos particulares, buscando assim evitar a emissão de gases poluentes.

Eu estive lá, e pude presenciar todas as ações e reações da copa ecológica e ambiental. Realmente, além dos anfitriões terem o privilégio de nesta época do ano começar a escurecer às 22 horas - o que fazia com que perdêssemos a noção do horário de jantar -, os estádios eram providos de iluminação natural, havendo ainda grande economia de energia.

Em relação ao lixo e ao “copo da copa”, percebi que nem todos os expectadores estavam cientes e bem informados dessa questão, pois a grande maioria deixava os copos soltos e voltava a comprar outra bebida sem levar o tal copo. Isso fez com que, várias pessoas mais informadas e dispostas, pudessem recolher aqueles que eram deixados num canto qualquer, devolvendo-os e recebendo 1 Euro por copo e com certeza, arrecadando uma boa grana e automaticamente colaborando com a limpeza.

Quanto à mobilidade, a medida adotada seria para quem já tinha o ingresso para o jogo, mas como os estádios são pequenos e não comportavam o número de torcedores presentes, todos iam conhecer os estádios, mesmo que só do lado de fora, e só ficavam para entrar os que possuíam ingresso, voltando os outros para os FAN FEST, locais de concentração das torcidas, com toda infra-estrutura e telão.

Enquanto estava lá, pensava comigo mesma: O Brasil tem condições de sediar uma copa do mundo? As cidades sedes dos jogos, como Berlim, como Munique, que tem uma população semelhante a de Campinas, e outras cidades menores como Colônia e Dortmund, com uma população de 700 mil e 400 mil respectivamente, possuem toda uma infra-estrutura de ferrovias estaduais, com trens modernos e rápidos, redes de metrô, trens de superfície e com uma ampla rede de hotéis. etc... Já pensou aqui no Brasil, quantos ônibus seriam necessários para transportar milhares de torcedores de uma cidade ou estado a outro para acompanhar suas seleções? Quanto tempo levaria a viagem com as estradas que temos, salvo algumas exceções? E como ficaria o congestionamento, a poluição, a emissão de gases etc...

Pude observar também a questão da segurança. Haviam muitos policiais espalhados por todas as cidades, de forma natural, não ostensiva,e sempre educados, amistosos, calorosos e prestativos para com os turistas, sem, no entanto, deixarem de estar prontos para uma eventual manutenção da ordem. Teríamos algo semelhante por aqui?

Pode-se observar que a Alemanha, como anfitriã da Copa e organizadora deste grande evento, conseguiu demonstrar que o ambiente pode e deve ser aproveitado em benefício das populações que nele vivem, e esse aproveitamento ocorreu de forma cuidadosa, eficiente, consciente, com o máximo de preservação ambiental possível, conseguindo atingir resultados sólidos, confiáveis e aparentes em áreas como eficiência energética, cuidado com o desperdício, poluição, economia de água e por que não, na segurança.

A Alemanha mostrou ao mundo que o desenvolvimento sustentado é possível. Um grande exemplo! Copa do Mundo no Brasil em 2014? É, sem dúvida, uma grande oportunidade para o crescimento e desenvolvimento econômico sustentáveis, necessitando apenas de conscientização, entusiasmo e vontade dos dirigentes em todos os níveis e em todas as áreas, para tornar real essa tarefa.

Aguardemos!

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Nancy Gorgulho Braga - [email protected]

Economista, Professora e Conselheira do Corecon-SP

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