Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

O Fidel Castro que eu conheço

O Fidel Castro que eu conheço

Por Gabriel García Márquez

Sua devoção pela palavra. Seu poder de sedução. Vai à procura dos problemas onde eles se encontrem. Os ímpetos da inspiração são próprios de seu estilo. Os livros refletem muito bem a amplitude de seus gostos. Deixou de fumar para ter a autoridade moral para combater o tabagismo. Gosta de preparar as receitas de cozinha com uma espécie de fervor científico. Mantém suas excelentes condições físicas com várias horas de ginástica diária e natação freqüente. Paciência invencível. Disciplina férrea. A força da imaginação o arrasta aos imprevistos. Tão importante como aprender a trabalhar é aprender a descansar.

Fatigado de conversar, descansa conversando. Escreve bem e gosta de fazê-lo. O maior estímulo de sua vida é a emoção ao risco. A tribuna de improvisador parece ser seu meio ecológico perfeito. Inicia sempre com voz quase inaudível, com rumo incerto, mas aproveita qualquer recurso para ir ganhando terreno, palmo a palmo, até que dá uma espécie de grande bote e se apodera da audiência. É a inspiração: o estado de graça irresistível e deslumbrante, que só negam os que ainda não tiveram a glória de vivê-lo. É antidogmático por excelência.

José Martí é seu autor de cabeceira e tem tido o talento de incorporar seu ideário ao fluxo sanguíneo de uma revolução marxista. A essência de seu próprio pensamento poderia estar na certeza de que fazer trabalho de massas é fundamentalmente ocupar-se dos indivíduos.

Isto poderia explicar sua confiança absoluta no contato direto. Tem um idioma para cada ocasião e um modo distinto de persuasão de acordo com os diversos interlocutores. Sabe colocar-se ao nível de cada um e dispõe de uma informação vasta e variada que lhe permite mover-se com facilidade em qualquer meio. Uma coisa se sabe com certeza: esteja onde estiver, como estiver e com quem estiver, Fidel Castro está ali para ganhar. Sua atitude frente à derrota, inclusive nos atos mínimos da vida cotidiana, parece obedecer a uma lógica privada: nem sequer a admite, e não tem um minuto de sossego enquanto não logre inverter os termos e convertê-la em vitória. Ninguém pode ser mais obsessivo que ele quando se propõe chegar ao fundo de qualquer coisa. Não há um projeto colossal ou milimétrico no qual não se empenhe com paixão encarniçada. E, em especial, se tem que enfrentar a adversidade. Nunca como então parece de melhor talante, de melhor humor. Alguém que crê conhecê-lo bem, lhe disse: As coisas devem andar muito mal, porque você está exuberante.

As reiterações são um de seus modos de trabalhar. Por exemplo: O tema da dívida externa de América Latina, havia aparecido pela primeira vez em suas conversações há uns dois anos, e foi evoluindo, se ramificando, se aprofundando. O primeiro que disse como una simples conclusão aritmética era que a dívida era impagável. Depois surgiram as descobertas escalonadas: as repercussões da dívida na economia dos países, seu impacto político e social, sua influencia decisiva nas relações internacionais, sua importância providencial para uma política unitária de América Latina... até chegar a uma visão totalizadora, exposta por ele em uma reunião internacional convocada para tal e que o tempo tem-se encarregado de demonstrar.

Sua mais rara virtude de político é essa faculdade de vislumbrar a evolução de um fato até suas conseqüências futuras...mas essa faculdade não a exerce por iluminação, senão como resultado de um raciocínio árduo e tenaz. Seu auxiliar supremo é a memória e a utiliza até o abuso para sustentar discursos ou conversações privadas com raciocínios deslumbrantes e operações aritméticas de uma rapidez incrível.

Requer o auxílio de uma informação incessante, bem mastigada e digerida. Sua tarefa de acumulação informativa inicia desde que acorda. Toma café com não menos de 200 páginas de noticias do mundo inteiro. Durante o dia lhe fazem chegar informações urgentes onde estiver, calcula que cada dia tem que ler uns 50 documentos, agregando-se a isso os informes dos serviços oficiais e de seus visitantes e tudo quanto possa interessar a sua curiosidade infinita.

As respostas têm de ser exatas, pois é capaz de descobrir a mínima contradição de uma frase casual. Outra fonte de vital informação são os livros. É um leitor voraz. Ninguém explica como lhe alcança o tempo nem que método usa para ler tanto e com tanta rapidez.No entanto, ele insiste em que não tem nenhum em especial. Muitas vezes leva um livro de madrugada e na manhã seguinte o comenta. Lê inglês, mas não fala. Prefere ler em castelhano e a qualquer hora está disposto a ler um papel com letra que lhe caia em suas mãos. É leitor habitual de temas econômicos e históricos. É um bom leitor de literatura e segue-a com atenção.

Tem o costume de interrogatórios rápidos. Perguntas sucessivas que ele faz em rajadas instantâneas até descobrir o por quê do por quê do por quê final. Quando um visitante de América Latina lhe deu um dado apressado sobre o consumo de arroz de seus compatriotas, ele fez seus cálculos mentais e disse: que estranho que cada um coma quatro libras de arroz por dia. Sua tática mestra é perguntar sobre coisas que sabe, para confirmar seus dados. E em alguns casos para medir o calibre de seu interlocutor e tratá-lo em conformidade.

Não perde oportunidade para se informar. Durante a guerra de Angola descreveu uma batalha com tal minuciosidade em uma recepção oficial, que custou trabalho convencer um diplomático europeu de que Fidel Castro não havia participado nela. Os relatos que fez da captura e assassinato do Che, do assalto do Palácio de La Moneda e da morte de Salvador Allende, ou aquele que fez dos estragos do ciclone Flora, eram grandes reportagens falados.

Sua visão de América Latina no porvir, é a mesma de Bolívar e Martí, uma comunidade integral e autônoma, capaz de mover o destino do mundo. O país do qual sabe mais depois de Cuba é Estados Unidos. Conhece a fundo a índole de sua gente, suas estruturas de poder, as segundas intenções de seus governos, e isto tem lhe ajudado a enfrentar a tormenta incessante do bloqueio.

Em uma entrevista de várias horas, se detém em cada tema, se aventura por seus atalhos menos pensados sem descuidar jamais a precisão, consciente de que uma só palavra mal usada pode causar estragos irreparáveis. Jamais tem se recusado a contestar pergunta alguma, por provocadora que seja, nem perdido nunca a paciência. Sobre os que lhe escamoteiam a verdade para não causar-lhe mais preocupações das que já tem: e ele sabe. A um funcionário que fez isso, lhe disse: ocultam-me verdades para não me inquietar, mas quando por fim as descubra morrerei por causa da impressão de ter que enfrentar tantas verdades que têm deixado de me comunicar. As mais graves, no entanto, são as verdades que lhe ocultam para encobrir deficiências, pois ao lado das enormes conquistas que sustentam a Revolução, -políticas, científicas, esportivas, culturais- há uma incompetência burocrática colossal que afeta a quase todas as ordens da vida diária, e em especial a felicidade doméstica.

Quando fala com a gente da rua, a conversação recobra a expressividade e a franqueza crua dos afetos reais. O chamam Fidel. O rodeiam sem riscos, o chamam de tu, discutem com ele, o contradizem, lhe reclamam, com um canal de transmissão imediata por onde circula a verdade aos borbotões. É então que se descobre ao ser humano insólito, que o resplendor de sua própria imagem não deixa ver. Este é o Fidel Castro que creio conhecer: um homem de costumes austeros e ilusões insaciáveis, com uma educação formal tradicional, de palavras cautelosas e gestos simples e incapaz de conceber qualquer idéia que não seja descomunal.

Sonha com que seus cientistas encontrem a medicina final contra o câncer e tem criado uma política exterior de potência mundial, em uma ilha 84 vezes menor que seu inimigo principal. Tem a convicção de que a conquista maior do ser humano é a boa formação de sua consciência e que os estímulos morais, mais que os materiais, são capazes de mudar mundo e empurrar a história.

O tenho escutado em suas escassas horas de relembranças, evocar as coisas que houvesse podido fazer de outro modo para tirar mais tempo da vida. Ao vê-lo muito sobrecarregado pelo peso de tantos destinos alheios, lhe perguntei o quê era o que mais gostaria de fazer neste mundo, e me contestou de imediato: parar-me em uma esquina.

* Cortesia de TeleSUL.

Documentos

05.08.2006

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