Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Cronologia do crime que envolveu o clube da segunda maior torcida do Brasil

Escandalo Msi-Corintians

Cronologia do crime que envolveu o clube da segunda maior torcida do Brasil

Uma parceria comercial altamente suspeita, envolvendo o segundo maior clube em torcedores do Brasil, o Corinthians, expos as entranhas criminosas e mafiosas dos bastidores do futebol profissional brasileiro com a participação de “investidores” estrangeiros.

O Ministério Público Federal fez a denúncia oficialmente em 2004, culminando com o indiciamento do presidente do clube Alberto Dualib em crime de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, e a Justiça decretou a prisão dos “investidores” estrangeiros de Boris Berezovski, Kia Joorabchian e Nojan Bedroud.

A parceria entre o Corinthians e a Media Sports Investiment (MSI), representada pelo iraniano Kia Joorabchian, foi aprovada pelo próprio Conselho Deliberativo do clube em 24 de Novembro de 2004. O contrato assinado entre as partes dava ao fundo de investimentos a gestão do departamento de futebol e direitos sobre licenciamento de produtos.

Já sob suspeita de negócios ilícitos, Kia Joorabchian depõe na Polícia Federal em 14 de Fevereiro de 2005. As investigações avançam, e nove dias depois (23/2/2005), o procurador Roberto Porto, do Ministério Público de São Paulo, descobriu que a MSI enviou US$ 2 milhões ao clube e o remetente seria uma empresa nas Ilhas Virgens Britânicas, a Devetia Limited. Só que o remetente constou como pessoa física, um indivíduo da Georgia, Estados Unidos.

Em 15 de Abril de 2005, o relatório final das investigações feitas pelo Ministério Público aponta crime de lavagem de dinheiro da MSI na parceria com o Corinthians. O caso foi encaminhado para o Ministério Público Federal, que tem competência para apurar o suposto delito e denunciar os investigados à Justiça Federal

Em depoimento ao delegado Protógenes Queiroz, na Polícia Federal, no dia 18 de Outubro de 2006, o então presidente do Corinthians, Alberto Dualib, e seu vice, Nesi Curi, confirmam que o iraniano Kia Joorabchian estava fora do comando da MSI e que os três investidores da parceira com o clube eram o russo Boris Berezovski, o georgiano Badri Patarkatsishvilli e o israelense Pini Zahavi. O depoimento de Dualib e Curi na Polícia Federal durou mais de cinco horas.

No dia 13 de Julho de 2007, o juiz federal Fausto De Sanctis aceita denúncia do Ministério Público Federal. Alberto Dualib, Nesi Curi, Renato Duprat Filho, Paulo Angioni e Alexandre Ferri são indiciados por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Boris Berezovski, Kia Joorabchian e Nojan Bedroud têm pedido de prisão decretado.

Em agosto de 2009, o juiz Fausto Martin De Sanctis condena os empresários Boris Berezovsky e Kia Joorabchian ao pagamento de multa no valor de R$ 37,2 mil cada um porque seus advogados, Alberto Zacharias Toron e Roberto Podval, teriam praticado "litigância de má-fé". Os dois defensores haviam ingressado com exceção de suspeição do juiz, atribuindo a ele parcialidade e requerendo seu afastamento do caso MSI-Corinthians.

Só que cinco dias depois, no mesmo agosto de 2009, o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), manda suspender os efeitos de sentença do juiz Fausto Martin De Sanctis, que condenou os empresários Boris Berezovsky e Kia Joorabchian ao pagamento de multa de R$ 37,2 mil cada um.

Ainda em agosto de 2009, o juiz Fausto De Sanctis afirma que não desobedeceu ao Supremo Tribunal Federal (STF) ao condenar os empresários Boris Berezovsky e Kia Joorabchian ao pagamento de multa por suposta litigância de má-fé da defesa, mas acabou afastado do MSI-Corinthians por ordem do Tribunal Regional Federal.

Operação Perestroika

A operação Perestroika da Polícia Federal revelou, através de escutas telefônicas, casos graves de corrupção, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro entre os dirigentes do Corinthians em sua parceira com a MSI.

O escândalo do Corinthians e a MSI colocou à mostra os efeitos do capitalismo no futebol brasileiro. Apesar da CPI em 2001, a corrupção continuou solta nos campos do futebol e este foi apenas mais um caso envolvendo um dos maiores clubes brasileiros e investidores estrangeiros.

A imprensa divulgou que a operação Perestroika da Polícia Federal realizada em 2007 revelou, através de escutas telefônicas, casos graves de corrupção, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro entre os dirigentes do segundo clube mais populares do Brasil, o Corinthians, e a parceira do clube, a Media Sports Investment (MSI).

A lavagem de dinheiro vinha do pagamento de salários de jogadores em contas no exterior, além do fechamento de negócios com empresas prestadoras de serviços fantasmas incluídas no esquema as viagens do presidente do clube, Alberto Dualib, à sede da MSI, em Londres.

A viagem de negócios e reunião com os sócios ocultos da parceria corinthiana era na verdade para trazer recursos de origem duvidosa para o clube. Gastos de viagem contabilizam até R$ 600 milhões retirados dos cofres do clube durante a administração do ex-presidente Alberto Dualib. São mais de 400 recibos que não passaram pela contabilidade oficial, segundo noticiou na época a Imprensa Brasileira.

A operação também revelou que o verdadeiro dono da MSI é o magnata russo Boris Berezovsky, acusado de lavagem de dinheiro público e de assassinato na Rússia. Sua fortuna é estimada em cerca de US$ 10 bilhões. E para fugir das autoridades russas, mudou-se para Londres.

Houve na época pressão das grandes empresas que patrocinam os clubes de futebol brasileiro, e o acordo entre Media Sports Investment (MSI) e o Corinthians foi rompido. No escândalo do Corinthians, a Justiça Federal ouviu vários envolvidos, que alegaram inocência. O promotor José Reinaldo Guimarães Carneiro crê que o rombo no escândalo do Corinthians ultrapassou R$ 1,5 milhão. Na época, a dívida corinthiana era de R$ 74 milhões, mas poderia chegar a R$ 100 milhões.

Alberto Duailib renunciou a presidência depois de 14 anos no poder no Corinthians, mas foi indiciado como réu em processo na Justiça Federal por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha na parceria do clube com a MSI.

Juiz do caso é afastado

Decisão tem caráter liminar, mas representou mais duro revés na carreira do magistrado Fausto De Sanctis, que foi afastado do Caso MSI-Corinthians pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região. Juiz titular da 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo, Fausto De Sanctis foi alijado da condução de ação penal sobre a parceria entre a MSI e o Corinthians, alvos de investigação por suposto esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Foi a primeira vez que De Sanctis foi excluído da presidência de uma ação penal em sua carreira. Trata-se do mais severo golpe já desferido contra o juiz que acumula a direção dos casos mais emblemáticos da Justiça Federal - como os processos do Banco Santos, a Operação Satiagraha e a Castelo de Areia - e, em julho de 2008, enfrentou o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, ao mandar prender duas vezes o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity, instalando uma crise sem precedentes na magistratura.

Na ocasião, 135 juízes assinaram documento em apoio a De Sanctis, sob ameaça de investigação pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) por suposta desobediência ao presidente do Supremo.

De Sanctis não se manifestou sobre seu afastamento. A decisão de tirá-lo do caso MSI-Corinthians foi tomada por unanimidade, em caráter liminar, pelos desembargadores Cecília Mello, relatora, Henrique Herkenhoff e Nelton dos Santos.

Avisado por fax, o juiz interrompeu audiência do caso que presidia em seu gabinete. Naquele momento estava sendo ouvida a única testemunha de acusação, Antonio Roque Citadini, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e ex-dirigente do Corinthians, opositor ferrenho da aliança com a MSI.

A medida do TRF 3 vale até que a corte coloque em julgamento duas medidas de exceção de suspeição do magistrado propostas pelos empresários Boris Abramovich Berezovsky, Kiavash Joorabchian e Nojan Bedroud - réus no processo MSI-Corinthians.

Os pedidos pelo afastamento são dos advogados criminalistas Roberto Podval e Alberto Zacharias Toron, que defendem os empresários da MSI. Eles sustentam que o juiz prejulgou a causa ao fundamentar o recebimento de denúncia criminal da Procuradoria da República.

"Observa-se, a partir dos diálogos monitorados, que a suposta organização criminosa não somente se destinaria a lavar valores no futebol brasileiro, mas a praticar, em tese, toda sorte de ilícitos-tipo envolvendo este, além de lançar vôos na administração pública federal", diz um trecho da decisão do juiz.

O ponto mais tenso e decisivo desse embate veio em agosto, quando De Sanctis condenou Boris e Kia ao pagamento de multa de R$ 37 mil por "litigância de má fé" de seus defensores. Toron e Podval recorreram ao STF e conseguiram anular a sentença. Eles já haviam pedido uma primeira vez a suspeição do juiz.

Em setembro do ano passado, o STF mandara anular todo o processo. Os advogados ingressaram com novas exceções de suspeição. O Ministério Público Federal e o Ministério Público Estadual apuraram que à sombra da parceria MSI-Corinthians atuava um magnata russo, Boris Berezovsky, dono de US$ 32 milhões investidos no time de Parque São Jorge entre 2004 e 2006.

O dinheiro teria origem criminosa, segundo denúncia da Procuradoria da República. A investigação indica que a MSI se associou ao Corinthians para lavar dinheiro ilícito.

ANTONIO CARLOS LACERDA

PRAVDA.Ru BRASIL