Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Sir Bobby Robson 1933 - 2009: O maior embaixador de futebol

Sir Bobby Robson 1933 - 2009: O maior embaixador de futebol

O Mundo do Futebol está de luto porque seu maior embaixador, Sir Bobby Robson, deixa o esporte que amava e que prestigiava…muito mais pobre. O Cavalheiro do Futebol deixa-nos com a memória das suas vitórias e mais do que isso, a enorme dignidade que ele transmitiu à sua profissão; vai viver nos anais da sua história durante as próximas décadas, senão para sempre. Pravda.Ru revê a sua carreira brilhante e deixa um testemunho sobre o homem amigo de Timothy Bancroft-Hinchey.

Robson, o jogador

Os grandes sucessos de Sir Robert (“Bobby”) Robson no jogo que ele amava (141 golos em 627 jogos), não são segredo para ninguém e seu registo fica sem igual na sua geração. Depois de uma carreira de jogador (avançado) durante duas décadas em Fulham, West Bromwich Albion (por uma transferência recorde) e Vancouver Royals, incluindo 20 jogos na seleção da Inglaterra (4 golos), Bobby Robson deixou sua marca como treinador de futebol a nível nacional e internacional.

Treinador de clubes (Inglaterra)

A primeira experiência como treinador, no Fulham (1968), foi amarga, pois herdou um clube com problemas insuperáveis e não conseguiu evitar a descida de divisão. No ano seguinte, aceitou o desafio de treinar o Ipswich Town e colocou este clube no mapa de futebol europeu (4º lugar na Primeira Divisão inglesa, Texaco Cup 1972/3, FA Cup 1977/8, Taça UEFA 1981. Fez deste clube um dos mais importantes no futebol inglês durante uma década e por duas vezes foi vice-campeão). Robson também investiu muita energia na política de desenvolvimento dos jovens, contratando somente 14 jogadores externos em 13 anos, política que levava sempre aos clubes que treinava, tentando assegurar o seu sucesso para depois dele sair.

Futebol internacional: Treinador da seleção nacional da Inglaterra

Em 1982, Bobby Robson foi nomeado treinador nacional da seleção inglesa de futebol. A primeira coisa que fez foi escolher como preparador físico Don Howe, seu colega de equipa na West Bromwich Albion, (sempre realçou o contributo dos outros) e juntos, levavam a Inglaterra numa senda de 28 jogos de qualificação com uma só derrota mas esta foi o suficiente para negar a presença nos finais da UEFA 1984. A seguir, levou a Inglaterra aos quartos de final da FIFA México 1986, onde foi negado uma presença nas meias-finais pelo Mano de Diós de Maradona e minutos depois, o golo do século, do mesmo. “Foi a mão de um malandro,” disse Robson, que depois perguntou se a Inglaterra jogava num torneio de futebol ou de andebol de onze.

Na Taça do Mundo (FIFA) seguinte, Itália 1990, a sua campanha chegou às meias-finais (derrota frente à Alemanha Ocidental, penalties) que foi decepcionante mas que também foi o ponto mais alto da seleção inglesa desde 1966 (ano em que ganhou a Taça do Mundo) e foi a melhor classificação da equipa nacional em quase meio século.

Treinador de clubes (internacional)

De volta a treinar clubes fora do Reino Unido, Bobby Robson demonstrou inspiração tanto na gestão de homens e de egos num esporte em transformação, como na sua capacidade de dominar as particularidades dos vários campeonatos em que participou. (Campeonato holandês com PSV Eindhoven em 1990/1 e 1991/2; Liga portuguesa 3º lugar com Sporting Clube de Portugal, 1992 e demitido em 1993 quando Sporting estava em primeiro lugar; enquanto neste clube reconheceu as qualidades do tradutor José Mourinho, fez com que ele entrasse na equipa técnica e foi seu mentor no Sporting, FC Porto e FC Barcelona; FC Porto (Mourinho foi seu adjunto) Taça de Portugal 1994; Liga Portuguesa 1994/5, 1995/6; FC Barcelona Taça da Espanha, Super Taça, Taça UEFA 1996/7; Treinador do Ano na Europa 1996/7; em 1998/9 levou PSV à Liga dos Campeões; de volta na Inglaterra salvou Newcastle United (clube que apoiava quando era rapaz) da descida à segunda divisão em 1999/2000 levando o clube a 4º lugar em 2001/2, 3º em 2002/3 e uma presença na Liga dos Campeões, 5º em 2003/4). Terminou sua carreira outra vez no futebol internacional como Conselheiro à equipa nacional da República da Irlanda entre 2005 e 2007.

Robson, o homem

Poucos realçaram o facto que enquanto Robson ganhava seus títulos, travava também uma batalha contra o cancro/câncer durante 18 anos…derrotou o câncer do intestino, uma melanoma, um tumor no cérebro mas finalmente foi vencido pelo câncer do pulmão. Em 2008 ele lançou a Sir Bobby Robson Foundation para angariar fundos para pesquisa sobre câncer e até ao final do ano conseguiu juntar mais que um milhão de libras esterlinas. Continuou a trabalhar no sentido de angariar fundos para proteger os doentes com câncer até poucos dias antes de sua morte, financiando vários projetos em vários hospitais. Fundou o Sir Bobby Robson Cancer Trials Research Centre no Freeman Hospital, Newcastle.

Uma nota pessoal

Tudo que se lê acima pode ser encontrado na Internet. Contudo, o que não se pode encontrar é o legado que Sir Bobby Robson deixou-me como pessoa e o que deixou como meu mentor, ensinando-me a sua ética de trabalho passando isso à minha ética de trabalho como jornalista, pois recuso-me a escrever histórias de “interesse pessoal” ao custo da dignidade dos outros. Depois de conhecer Bobby Robson na minha terra natal e de re-encontrá-lo em Lisboa, começámos uma relação de longa duração em contacto pessoal e depois por correspondência.

Bobby Robson foi sempre um homem muito privado e escolheu desde o inicio o tema de futebol nas nossas conversas…porque entendeu que foi aí que focado o nosso ponto de interesse comum. Nada da sua família, nada da política. Futebol, só.

Ficou sempre bem evidente que ele vivia o jogo com uma paixão e sentido de aventura e vontade de trabalhar e aprender, que ele achava fascinante. Apesar dos pontapés injustiças que ele levava ao longo da sua carreira, dizia sempre “ninguém é maior que o jogo de futebol”, e aceitava sempre tudo que aconteceu como “parte do jogo”. Mesmo quando foi vítima do acto mais vil, mais estúpido na história do futebol, quando foi demitido pelo Presidente Cintra do Sporting Clube de Portugal (Lisboa) quando SCP estava em primeiro lugar na Liga Portuguesa, ele confiou “Nós teríamos ganho o campeonato e teríamos continuado a fazer do Sporting um dos grandes clubes da Europa”, Bobby Robson encolheu os ombros e disse-me “Assim seja. O quê posso fazer??”

Adorou sua estadia no FC Porto e respeitou muito o Presidente visionário deste clube, Jorge Nuno Pinto da Costa, Presidente que mais sucesso gozou na história do jogo. Nas palavras de Bobby Robson, Pinto da Costa foi um “homem inteligente e um excelente gestor de homens que sabe trazer o sucesso ao seu clube e que, como eu, vive a sua vida mais por trazer felicidade aos outros do que vangloriar-se pessoalmente naquilo que fez. Uma pessoa muito especial.” Respeitou muito também a estrela crescente, José Mourinho, que previa “seria o melhor treinador numa nova geração de treinadores científicos, que eu compreendo, mas que pertencem à próxima geração”.

Não vou revelar mais, apesar de ter nas minhas mãos uma riqueza de comentários sobre futebolistas e dirigentes de futebol ao longo das últimas três décadas por uma razão muito simples: foi-me revelado “off the record” e prometi ao Sir Bobby Robson que honraria sempre o meu compromisso.

E assim será sempre. O que posso dizer é que Bobby Robson aprendeu durante a sua vida a importância de respeitar os outros, de viver uma vida com humildade e dedicar-se a criar bem-estar, concentrando-se em trazer alegria às comunidades onde trabalhava e sentindo esta necessidade de forma constante apesar de travar uma batalha durante quase duas décadas contra o câncer. Apesar disso até tinha umas boas palavras a dizer sobre os mais vis de jornalistas desportivos: “Eles apenas fazem seu trabalho” – mesmo aqueles ligados ao FC Barcelona, onde ele lamentou “ Eles escolhem sua equipa antes de você e se você escolher a mesma equipa que eles, eles mudam a equipa deles e depois espetam a faca nas sua costas se algo correr mal. Às vezes é exasperante porque você trava uma batalha perdedor desde o momento em que acorda até que deitar mas o que posso fazer, a única coisa que possa fazer, é continuar a trabalhar. Mesmo quando confrontado com o pior tipo de pessoa, tem-se de manter a dignidade e se se mantiver fiel a isso, ganhou”.

Numa palavra só, Sir Bobby Robson representa a dignidade, algo que o jogo de futebol precisa e algo que o jogo não deve esquecer. Não só o futebol inglês e internacional aprendeu muito do Sir Bobby Robson durante a sua vida, mas ainda tem muito a aprender da sua memória. Que seja o Sir Bobby Robson Foundation o seu legado ao lado da grande alegria e dignidade que ele trouxe a tantos milhões de pessoas no mundo inteiro.

Até sempre, Sir Bobby, mas nunca adeus. Estará nos nossos corações e na alma do futebol para sempre. E muito obrigado.

TimothyBANCROFT-HINCHEY

PRAVDA.Ru