Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

África do Sul 2010 – Do cofre da história estourou a «garra charrua» Uruguai 2 x Paraguai 0

Montevidéu vestiu-se de Monte-Assunção no decorrer das últimas horas da sexta 27 de sábado 28 de Março pois uns 7 mil paraguaios torcendo pela alvi-vermelha aproximaram-se na procura de alcançar a primeira vaga Sul-Americana rumo à África do Sul 2010.

Esses paraguaios que não param de participar nas Taças do Mundo de 1994 até 2006 quando uma geração maravilhosa chefiada pelo guardião José Luis Chilavert dava uma de farol na maré.

Ele marcou um estilo, mostrou a senda para uma faixa etária que logo ia continuar aquela tarefa com o «Colorado» Gamarra na liderança e agora mesmo que mudaram todos aqueles «heróis» continua obtendo resultados ótimos, a cada dia mais.

O sucesso paraguaio não vá em paralelo com os projetos dos treinadores pois passaram uruguaios como o Aníbal «Manho» Ruiz, o Sergio Markarian, o italiano Maldini, o Gerardo «Tata» Martino agora e tudo continua igualzinho, a raça e essa vontade de jogar pela camisa da seleção faz possível que os paraguaios continuem atingindo alvos. Está faltando só dar aquele grande pulo ficando nas Semis de um Taça do Mundo...será que desta vez o conseguem?

Uruguaios e paraguaios compartilharam história desde os inícios das duas pátrias pois o máximo herói uruguaio, Gl. José Gervasio Artigas acabou vivendo e falecendo lá no Paraguai. Mate (ou cimarrão) do jeito que tomam os gaúchos brasileiros faz parte do convívio dos uruguaios até andando pelas ruas das cidades segurando o cachimbo com uma mão e a garrafa térmica embaixo do outro braço. Em uma outra variedade, os paraguaios tomam cimarrão com água fria que batizaram-no de «Tereré» que as vezes resolve o grande calor que atinge a terrinha guarani.

As letras dos hinos nacionais, uruguaio e paraguaio foram escritas pela mesma pessoa, o Francisco Acuña de Figueroa.

Uma rua importante Gl Artigas em Assunção mas a capital uruguaia retribui com a Avenida Marechal Francisco Solano López que sobe desde a orla da Praia Buceo com Monumento em homenagem para o maior herói paraguaio que a cada 1° de Março (data da Independência paraguaia) provoca enchente de guaranis contornando-o.

Rua Montevidéu lá, Rua Assunção cá. Um paraguaio como o Juan Vicente Lezcano vestindo a camisa do Peñarol Campeão de América e do Mundo no decênio de 1960 e muitos uruguaios como o Luis Alberto «Negro» Cubilla como treinador daquele Olimpia 1979 que pela primeira vez arvorava o caneco de uma Taça Libertadores (ainda sem apoios financeiros) e Intercontinental para o futebol paraguaio. Nessa turma também foram destaque os uruguaios Miguel Ángel «Puchero» Piazza (hoje Diretor Geral da Murga «Assaltantes com patente» do Carnaval uruguaio) e o Ruben «Toto» Giménez (os dois conhecidos no ambiente internacional vestindo a camisa dos tricolores uruguaios).

O jogo acabou sendo um palco maravilhoso para os partidos políticos uruguaios começarem divulgar os seus candidatos rumo ás Eleições Internas do mês de junho, alguns meses antes das Eleições Nacionais de Outubro.

O José «Pepe» Mujica, o ex guerrilheiro «tupamaro» e Senador uruguaio percorre a cidade pedalando uma bicicleta com sua esposa e Deputada Lucía Topolansky tentando poupar uma graninha de olho na campanha que com certeza acabou investindo em faixas nem só do lado da linha de fundo do jogo de hoje senão até na parte ínfero-central da Arquibancada Olímpica, que fica na frente da emissão internacional da tevê.

Mais logo um aviãozinho sobrevoou o Estádio Centenario com uma faixa que falava assim:

«Socialistas com o Astori Presidente» sendo que o Contador Danilo Astori, presente no Estádio Centenario e ex Ministro de Economia uruguaio até faz alguns meses decidiu deixar sua vaga de Ministro para o Cr. Álvaro García pois seu alvo foi sem dúvida atingir o privilégio de Presidente dos uruguaios á partir do 1° de Março de 2010.

O Partido Nacional (bem mais conhecido como Partido Branco), tinha um dos dois candidatos para Presidente da República na Arquibancada América, o advogado Jorge «Guapo» Larrañaga contornado pelos filhos.

Quanto á partida, confira tudo agora:

URUGUAI (2): 1 – Sebastián Viera (goleiro - Villarreal); 16 – Maximiliano «Macaco» Pereira (Benfica); 2 – Diego «Tota» Lugano (Capitão – Fenebahce); 3 – Diego Godin (Villarreal); 4 - Martín «Careca» Cáceres (Barcelona); 18 – Sebastián Eguren (Villarreal); 17 – Álvaro «Palito» Pereira (Cluj); 15 – Diego «Russo» Pérez (Mónaco); 7 – Cristian «Cebola» Rodríguez (Porto); 10 – Diego «Pichichi» Forlán (Atlético Madrid) e Luis Suárez (Ajax).

Reservas: 12 – Martín Silva (goleiro – Defensor Sporting); 8 – Bruno Silva (Ajax); Diego Arismendi (Nacional Montevidéu); 6 – Álvaro «magrinho» Fernández (Nacional Montevidéu); 11 – Juan Albín (Getafe); 14 – Jorge «Malaca» Martínez (Catania) e 13 – Sebastián «Maluco» Abreu (Real Sociedad).

Treinador: Maestro Oscar Washington Tabarez

PARAGUAI (0): 1 – Justo Villar (goleiro e capitão); 2 – Darío Verón; 5 – Julio César Cáceres; 14 – Paulo Da Silva; 13 – Enrique Vera, 8 – Edgar Barreto; 16 – Cristian Riveros; 17 – Aureliano Torres; 18 – Nelson Haedo Valdéz; 10 – Salvador Cabañas e 11 – Marcelo Estibarribia.

Reservas: 12 – Aldo Bobadilla (goleiro); 3 – Pedro Benítez; 4 – Miguel Samudio; 15 – Víctor Cáceres; 6 – Sergio Aquino; 9 – Osvaldo Martínez e 7 Oscar Cardozo.

Treinador: Gerardo «Tata» Martino.

Árbitros: Principal: Carlos Eugenio Simon (Brasil)

Bandeirinhas: 1° - Ednilson Corona (Brasil) e 2° Altemir Hausmann (Brasil).

Árbitros no plantão: Salvio Fagundes.

Vistoria FIFA: Andrés Castelli (Argentina)

Vistoria Árbitros: Bernardo Corujo (Venezuela)

Controle Dopagem da Confederação Sul-Americana de Futebol: Dr. José Veloso (Uruguai).

Alterações: Todas na segunda metade. (6 – PY) Sergio Aquino x (11 – PY) Marcelo Estigarribia; (4 – PY) Miguel Samudio x (13 – PY) Enrique Vera; (14 – UY) Jorge Martínez x Cristian Rodríguez (7 – UY); (8 – UY) Bruno Silva x (3 – UY) Diego Godin e (13 – UY) W. Sebastián Abreu x (17 – UY) Álvaro Pereira.

Cartões Amarelos: (11 – PY) Marcelo Estigarribia; (5 – PY) Julio César Cáceres; (14 – PY) Paulo Da Silva; (8 – PY) Edgar Barreto; (17 – UY) Álvaro Pereira.

Lotação: 48 mil.

Clima: Na hora do início do jogo 31°C e ensolarado.

Na prévia o jogo ia ser um dos mais difíceis para o anfitrião pois o Paraguai tinha feito pouso em Montevidéu com 23 pontos, mais dez que o Uruguai na Tabela Sul-Americana rumo á África do Sul 2010 com apenas um jogo perdido e fora isso, 6 pontos acima do Brasil e 7 da Argentina e o Chile.

O início teve um chute fraco e canhoto do Diego Forlán que conseguiu amortecer o goleiro paraguaio Justo Villar sem problemas, logo uma excursão do uruguaio Álvaro «Palito» Pereira pela faixa esquerda do campo que acabou com lance para o Diego Forlán que dando uma cabeçada no eixo da área pequena por cima do travessão fez com que os uruguaios nas arquibancadas começaram sofrer como quase sempre perante os paraguaios que na maioria dos casos não perdoam os erros dos rivais. A história ia se repeter?

Mas nos primeiros quinze minutos de jogo os paraguaios tiveram três oportunidades muito claras para colocar a vantagem no painel eletrônico do Estádio Centenario fazendo explodir as 7 mil camisas alvi-vermelhas que tinham lotado a metade da Arquibancada Colombes.

Do lado paraguaio, foram uma cobrança de falta do Salvador Cabañas (10 –PY) que por cima da barreira chutou ótimo só que o guardião uruguaio, Sebastián Viera conseguiu fazer uma boa defesa mergulhando contra o lado direito da cidadela provocando escanteio para os guaranis. No próprio escanteio vindo da esquina esquerda do ataque paraguaio, o zagueiro raspado Darío Verón (2 – PY) deu uma cabeçada quase perfeita do ponto de cobrança dos pênaltis fazendo a bola descer forte rente á coluna direita uruguaia...Foi milagre mesmo...

Alguns minutos depois uma bola para o Nelson Haedo Valdez (18 – PY) que perto da grande área uruguaia, na faixa direita do ataque, cruzou a bola e com certeza mudou o ritmo cardíaco dos uruguaios no Estádio.

Sem dúvida que o sábado 28 de Março ia ser marcante para os uruguaios como uma data de extrema felicidade pois os paraguaios cometeram erros incríveis na última faixa do campo e o jogo de sinuca dos atacantes paraguaios desta vez não ia encaçapar cada bola que estiver de perto das chuteiras deles.

Foi a hora dos «charruas» e após o sufoco do primeiro quarto de hora, começaram progredir no gramado e melhor ainda, no estilo de jogo, dando um vira-volta no histórico deste confronto. Um cruzamento uruguaio desde a metade do campo rumo ao Luis Suárez (9-UY) que entrava pela faixa direita da grande área sem marcação e debruçando contra o Justo Villar, fez que ligasse a sinaleira para á esquerda e olhando para á faixa central dessa área ofereceu um presentinho para o Diego Forlán que aproximava-se sem nenhuma camisa alvi-vermelha de perto. Um toque preciso do loiro uruguaio fez tremer o cimento do Estádio Centenario pela primeira vez. Uruguai 1 x Paraguai 0.

Os tamboris dos pretos uruguaios «ligaram-se» aos poucos na Arquibancada América quase do lado do túnel uruguaio.Onze jogadores dentro do campo contagiaram 32 pretos á fazer candomblé uruguaio da gema e esses 32, uns 40 mil que davam brilho ao resto do Estádio.

O Centenario estava fervente mesmo. No eixo dos 25´, o artilheiro do Ajax, Luis Suárez desde a faixa esquerda do campo, cruzou a bola para o centro da área pequena encontrando o Diego Lugano que saltando muito alto, não conseguia sucesso na cabeçada.

Cinco minutos depois mais uma vez o Nelson Haedo Valdez (10-PY) chutou semelhante áquele primeiro chute do início do jogo mas desta vez a bola atingiu a rede uruguaia no lateral, ou seja, fora do retângulo.

Andando no muro dos 35´, o Álvaro «Palito» Pereira, quase um desconhecido para os uruguaios pois nasceu no Miramar Misiones, progrediu no campo até atingir a linha final, instante no qual chutou muito forte pela paralela para alguém que de propósito ou por acaso roçasse a tal bola. O Diego Forlán tinha afundado âncoras na área pequena e a bola vinda da chuteira do moreninho uruguaio passou roçando o nariz do Diego. Se tivesse expirado com força essa bola tivesse furado a rede paraguaia mas o Diego tinha colocado uma mascada de oxigênio e o resultado continuo sem alterações.

No finalzinho do primeiro tempo o Aureliano Torres (17-PY) teve uma oportunidade de incomodar o goleiro uruguaio mas chutou alto, muito alto.

Na segunda metade, o jogo começou com a estratégia de sempre, deixar avançar os primeiros quinze minutos até que...até que o «Rei das mudanças» dessas tais estratégias estragara os planos de um dos treinadores. Coitado o treinador argentino Gerardo Martino. O dedo indicador do destino caiu acima dele.

Uma falta quase do lado do 2° bandeira brasileiro, Altemir Hausmann, fez como que ele começasse bracejar a bandeirinha de jeito rápido mostrando para o Carlos Eugenio Simon que houve falta contra o «Cebola» Rodríguez e favorável para o Uruguai. O responsável da cobrança foi o Luis Suárez que colocou a bola na cabeça do ex são-paulino uruguaio, Diego Lugano que pulou alto e tanto ultrapassando um zagueiro rival e vencendo o goleiro Justo Villar. Fora o grande esforço da «Tota» Lugano, a defesa paraguaia não foi a mesma de sempre pois cabeçada rival na grande área paraguaia quase não existe no histórico dos últimos anos de sucessos dos guaranis.

O sol ia caindo atrás da Arquibancada Colombes e no eixo dos 60´, as luzes das quatro torres do estádio foram ligadas para manter o fluxo de luz correto para a emissão da tevê.

Mesmo que o Paraguai merece respeito de todas as seleções do mundo pela «raça» que joga no gramado sempre, fora que o azar estivesse do lado deles, o jogo tinha marcado o destino, tingido de celeste ia rumo ao apito final do árbitro Simon.

Pela primeira vez nos últimos anos em uma partida importante, Uruguai não acabou engolindo colheradas de farofa sem um copo de água que o ajuda-se saborear uma vitória.

Com qualidade, com muita, muita raça, sem cotoveladas, sem mostrar as travas das chuteiras, sem nada que não fosse de mãos dadas com o «Fair Play», Uruguai conseguiu arrepiar os seus torcedores, esses 42 mil do Estádio Centenario, os que ficaram grudados na telinha no Uruguai e fora o país que com certeza mostraram o melhor sorriso dos últimos anos.

Uruguai e os sobe e desce de sempre, esses que são parte do Catálogo do Futebol Charrua. Em Montevidéu, consegue duas vitórias sem sufoco perante os bolivianos e os peruanos furando as redes em onze oportunidades, logo empata com Chile, Equador e Venezuela que na prévia são rivais «fracos» sendo visitantes e agora perante o time que está no topo da tabela, alcança uma vitória dessas que vão se lembrar por muitos anos.

Uruguai acabou encurtando a distancia quanto tem a ver com pontos ganhos com os paraguaios ficando sete por baixo mesmo que não são eles a referência de olho na classificação para África do Sul 2010. São os chilenos que extremamente preocupados pelo jogo clássico do Oceano Pacífico perante os «incaicos» em Lima começam imaginar o próximo confronto com os uruguaios.

Cis-andinos e trás-andinos (chilenos e uruguaios) encontram-se de novo em Santiago na próxima Quarta 1° de Abril ás 20:10 h (Uruguai e Brasil) só que até o final do jogo Uruguai x Paraguai, com certeza é a «Vermelha» chefiada pelo treinador argentino Marcelo Bielsa a que recebe a maior pressão. Caso vencer os peruanos em Lima, uma outra história poderia acontecer, descontraindo bastante.

Além disso, Uruguai tinha conseguido apenas duas vitórias neste tipo de evento perante os guaranis desde o dia 14 de Julho de 1957 com o primeiro confronto mantido entre as duas seleções rumo á Taça do Mundo Suécia 1958 sendo a primeira oportunidade que desde o início dos Mundiais em 1930, Uruguai ia ficar fora do maior evento do futebol. Foram várias as vitórias alvi-vermelhas perante os celestes. Por enquanto, os charruas conseguiram uma só naquela classificatória para Suécia 1958 com o Paraguai já classificado e a última na hora que o ex-capitão da seleção charrua – Ronald Paolo Montero dava uma cabeçada enxuta o dia 17 de Novembro de 2004 na cidadela paraguaia da Arquibancada Colombes do Estádio Centenario conseguindo o segundo sucesso neste jogo que foi sempre descascar um abacaxi para os uruguaios.

Futebóis semelhantes para caramba foram montando espetáculos sempre «ruins», com muita raça e às vezes até socos fora dos 90 minutos como foi o caso no Estádio «Defensores del Chaco» (antigo Porto Sajonia) naquele distante 1957.

Pelo sucesso dos uruguaios arvorando o primeiro dos quatro canecos do Mundo nos Jogos Olímpicos de 1924, Paraguai tinha sido marcada a sede do Sul-Americano desse ano só que o Estádio que acabou sediando os jogos foi o Parque Central (propriedade do Club Nacional de Football de Montevidéu) e com a verba arrecadada pelos paraguaios, conseguiram construir um primeiro palco do futebol em Porto Sajonia e como homenagem para os uruguaios, foi batizado como «Stadium Uruguai».

Para a estréia desse estádio em 1925, Uruguai viajou e jogou três partidas perante os paraguaios tendo como um dos maiores destaques e titular com a camisa celeste, o Luis Alfredo Sciutto (Diego Lucero), que foi logo famoso jornalista esportivo do Rio da Prata, único em ter assistido as Taças do Mundo desde 1930 até 1994.

O PRAVDA agradece os dados do folheto de divulgação do jogo de hoje montado pela Associação Uruguaia de Futebol pelas informações que contribuíram com esta matéria.

O goleiro uruguaio do Botafogo, Juan Guillermo Castillo, compartilhou o vestiário com os amigos da seleção e um papo com este correspondente na «Zona Mista» marcando uma reportagem para o futuro. Ficamos no aguardo de seu contato, guardião!!!

Correspondente PRAVDA.ru

Gustavo Espiñeira

Montevidéu – Uruguai