Democracia Brasileira Não Está Salva com Vitória Eleitoral de Lula

Nota editorial: Acreditando que todas as opiniões têm direito de espaço e exposição para criar diálogo e trocas de opinião, esta coluna se insere neste âmbito

 

Democracia Brasileira Não Está Salva com Vitória Eleitoral de Lula

 

Há fatos e estatísticas que muitos negam-se a enxergar. Debate interditado no País, por todos os lados. O personalismo impõe-se sobre ideias. Há comoção baseada não em projetos políticos mas "nele", o personagem, enquanto cresce a rejeição da sociedade a todos os políticos brasileiros incluindo o presidente eleito: vitória da rejeição. Democracia, se é que existe, ainda em risco no Brasil

Derrota de Bolsonaro com eleição de Lula não significam inflexão da sociedade. Nem o PT alterará minimamente as relações de poder

"Quando se fala da luta contra o oportunismo não se pode esquecer, nunca, de um traço peculiar de todo oportunismo contemporâneo em todos os campos: o caráter indefinido, difuso, inapreensível. O oportunista, pela própria natureza, evita sempre plantar problemas de maneira concreta e decidida; busca a resultante, desliza como cobra entre pontos de vista que se excluem mutuamente" (Vladimir Lenin)

 

Luiz Inácio Lula da Silva não ganhou as últimas eleições presidenciais, mas a rejeição a Jair Bolsonaro venceu: esta é a leitura mais precisa do pleito de outubro, de acordo com dados oficiais. Se a democracia brasileira estivesse salva agora como se trompeteia, haveria sanidade suficiente para levantar as questões a seguir sobre nossa, no mínimo, frágil democracia. Mas a discussão aqui proposta está impossibilitada em nossa atual, patética "Primavera Democrática": por quê?

A começar por indigestas estatísticas jamais colocadas em conexto nas análises nestes dias de celebração nacional, e até mundial à democracia do Brasil, o cenário predominantemente narrado revela-se alterado por si só.

Sem Inflexão, Sem Democracia

 

"Enxergar o que está diante do nosso nariz, exige um esforço constante"

(George Orwell)

 

Pesquisa Datafolha publicada em outubro de 2022 mostrou que 35% da população aponta o PT como o partido com o qual simpatiza. Depois, aparece o PL com 20% da preferência e, após um abismo, surgem PSDB (3%), PSOL (3%), MDB (3%), PDT (2%) e Novo (2%). Uma fatia de 35% dos brasileiros declarou não ter simpatia por nenhum.

Apesar disso, o PT também não escapa à crise dos partidos. A mesma pesquisa Datafolha mostrou que a legenda sofre rejeição maior que o apoio obtido: 39% do eleitorado.

A última pesquisa do Datafolha de 14/10, calculou rejeição acentuada de ambos os lideres nas pesquisas: Jair Bolsonaro apaeceu como rejeitado por 51% e Lula da Silva, 46%. Dos 49% que supostamente votariam no petista no segundo turno, 20% – quase a metade – o faria com a prioridade de “derrotar Bolsonaro”. Por sua vez, 63% dos eleitores de Bolsonaro atribuíram “grande importância” à religião na hora de decidir o voto, do qual, enorme parcela vota nele devido à imagem de perseguidor religioso que se atribui a Lula da Silva.

No primeiro turno das eleições gerais em 2 de outubro, o que mais chamou a atenção inclusive preocupando os colunistas principais meios de comunicação, foi o alto índice de abstenções, votos nulos e brancos. Apenas em abstenção, foi o maior número em dados oficiais desde 1998.

Foram mais de 38 milhões de brasileiras e brasileiros que, registrados no Tribunal Supremo Eleitoral (TSE), não compareceram ou não votaram em nenhum candidato, segundos dados oficiais do próprio tribunal.

O número oficial de abstenção, ou seja, pessoas aptas a votar e cadastradas que não comparecem, foi de 32,8 milhões além de votos nulos e brancos que representaram 5,5 milhões, totalizado 38,2 milhões. Somam-se aproximadamente 10,9 milhões de pessoas aptas a votar (em condições de voto) e que não se cadastraram na justiça eleitoral - portanto, também se abstiveram.

Contando esses excluídos são, pelo menos, 49,1 milhões de pessoas aptas a votar que não se registraram, não compareceram ou votaram branco e nulo, contra cerca de 57,3 milhões de votos obtidos por Luiz Inácio, primeiro colocado e 51,1 obtidos por Bolsonaro, segundo colocado. São 49,1 milhões de pessoas que, apesar das punições para votar no “menos ruím”, recusaram-se a votar em qualquer candidato ou simplesmente não regularizaram sua situação no TSE. Vale ressaltar que a maior abstenção do País, segundo dados oficiais, deu-se em Rondônia: cifra de nada menos que 24,7% do eleitorado.

Estes dados evidenciam que não se pode identificar real inflexão na sociedade brasileira simplesmente porque houve derrota eleitoral de Bolsonaro, e eleição de Lula. O PT não foi capaz de causar esta inflexão, o que contradiz sua retórica de grande vencedor e, com ele, a democracia no País. Por mais comovente que possa soar o atual poeticismo democrático alardeado, quando as informações são colocadas às claras, e em contexto, a realidade é outra bem diferente.

Pois o ocultamento da realidade exposta pelas pesquias acima sobre o real pensamento do brasileiro colocando ênfase literalmente carnavalesca no voto presidencial ao petista, pior ainda se somado a todo o contexto a ser discutido a seguir, é uma auto-rasteira dos supostos abre-alas da liberdade brasileira. E a exposição de que ao traseiro da mulata no centro da apoteose, tem sido aplicado excessivo "photoshop". A mulata da vez não é tão bela assim.

Vitória da Rejeição: Maus Presságios

 

"Sem coragem não é possível ser honesto"

(Heloísa Helena)

 

A apertadíssima vitória de Luiz Inácio Lula da Silva foi não apenas - oficialmente para quem quer analisar os fatos como são, sem utopia, ingenuidade nem auto-engano - a vitória da rejeição a Bolsonaro segundo pesquisas, como igualmente de acordo com a própria retórica da campanha petista, focada em "derrotar" o bolsonarimo. O qual não foi nem será, jamais, derrotado através de revés eleitoral. Não nos enganemos: vitórias por rejeição apontam, por si só, que democracias estão em risco. Com a perigosíssima, anti-democrática pitada do forte personalismo no caso petista. E não há, aqui, nenhuma grande sacada na área da ciência política.

Por que a rejeição ao PT, e a Lula particularmente é tão alta, superior à preferência a si? Por que o PT não foi capaz, em sua campanha eleitoral, de alterar esse quadro de ampla rejeição a si mesmo, e à própria política brasileira? São questões que deveriam estar sendo discutidas. Especialmente sob uma "Chuva de Prata Democrática" em temos que "o Brasil voltou a sorrir". Se grande parte dos especialistas recusam-se a levantá-las e levá-las à sociedade, seguramente a história não tardará em cobrar seu preço.

Outro fator bem distante de ser colocado em questão nestes ufanistas dias de "vitória triunfante da democracia", é a própria maneira como Lula, apoiado em forte apelo anti-bolsonarista acima de qualquer coisa, venceu as eleições e tem gerado as divisões internas no PT desde a campanha.

Neste sentido, o sociólogo Lamounier igualmente fez pertinente analise (ibidem):

A vitória não foi só do [Lula] ou só do PT, mas de um conjunto notavelmente contraditório
de forças políticas, um perfeito bico-de-pena da balbúrdia partidária que se instalou no país.


Tal balbúrdia política com base em alianças bizarras que banalizam ainda mais a política brasileira, refeletir-se-á no governo de Luiz Inácio, obviamente. De acordo com a narrativa dos atuais arautos da democracia resgatada, este reflexo será positivo: alguém em sã consciência acredita nisso?

Em setembro de 2018 o linguista, filósofo, sociólogo e ativista americano Noam Chomsky, considerado "o intelectual mais importante da nossa geração" pelo jornal The New York Times, afirmou que o PT deveria realizar uma “Comissão da Verdade” a fim de examinar seus erros. Em entrevista à BBC News Brasil, o legendário analista, bem conhecido mundialmente por no final das contas sempre ter razão no que diz, defendeu que o partido faça a autocrítica independentemente do resultado da eleição presidencial. “Se o PT reconquistar o poder político – ou mesmo se não chegar lá, de uma forma ou de outra -, uma grande tarefa que deve enfrentar é estabelecer uma espécie de comissão da verdade para olhar com honestidade para o que ocorreu. Olhar com franqueza para as oportunidades que perderam. Isso teria um grande significado”, disse o considerado "pai da linguística moderna".

Em dezembro daquele mesmo ano, a presidente do partido Gleisi Hoffmann respondeu que não seria feita autocrítica a fim de não dar "armas ao inimigo". O peessedebista Alckmin era, como sempre foi, um desses inimigos mencionados pela cúpula petista há exatos quatro anos, tendo este ex-lider tucano ("tucanalha", chamado pelos petistas até antes de ontem) também liderado o golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff em 2016. "Partido político não faz autocrítica, faz balanço", jogou com as palavras, então, nossa filósofa made in República de Bananas.

Pois a campanha eleitoral de 2022 veio, com ela certa rejeição a Bolsonaro proporcionando vitória eleitoral ao PT, o partido não faz autocrítica nem dá mostras de que a fará, e muito pelo contrário: se tudo não bastasse, o novo companheiro Alckmin é vice-presidente na chapa petista. "Alckmin não é inimigo", justiifcou, logo após a escolha da chapa presidencial, a mesma Gleisi.

O PT precisa levar o Brasil a sério, e parar de jogar palavras ao vento. Em epitome, o Brasil precisa de politica séria, de compromisso e coragem para alterar as relações de poder no País, não de troca de partido no poder.

"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem", escreveu Guimarães Rosa. Leitura e reflexão faltantes no Brasil embora, por outro lado, ninguém precise ter lido Grande Sertão para agir com honradez: basta caráter. Qualidade faltante no País, particularmente na classe política - estrelando mais que nunca, o PT.

Retroalimentação do Ódio

 

"Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário"

(George Orwell)

 

No caso da polarização criada entre Jair Bolsonaro e Luiz Inácio, ambos retroalimentam-se reciprocamente levando a sociedade brasileira ao estado de literal delírio. Vale reproduzir as observações do sociólogo Bolívar Lamounier, em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos em novembro deste ano: "Os dois lados carecem de uma compreensão e de uma convicção democráticas mais profundas. Os dois lados têm um longo histórico de comportamento antidemocrático".

Assim, quando a metáfora da retroalimentação recíproca através da polarização histérica com graus de violência aplica-se ao presidente entrante e ao sainte, a figura de linguagem pode ser entendida para além de seu sentido mais convencional, o da simples realimentação de um ao outro. O termo técnico utilizado pela medicina encaixa-se melhor ao petista e ao ex-capitão do Exército, com os discursos de medo e ódio que angariam votos: "O fluxo daquilo que se realimenta, de maneira retrógrada, por meio do sistema nervoso".

No caso particular do novo presidente eleito, em ampla medida vítima agora de seu próprio veneno que não foge muito da identidade do próprio partido agressivamente sectário, Inácio da Silva não conseguirá pacificar o Brasil a curto prazo como tem sido sugerido por alguns de seus partidários. Dificilmente a médio ou mesmo longo prazo obterá a pacificação nacional: no máximo uma aparente, "tensa calmaria" por alguns meses. Até Carlos Bolsonaro, filho do presidente, tem estranhamente clamado por pacificação sob um governo petista, já levantando perturbdoras questões sobre essa proposta.

Pacificação de um Estado trata-se de processo que leva certo tempo dependendo de cada caso passando, inevitavelmente, por sgnificativo fortalecimento das instituições democráticas e promoção de justiça devendo incluir, neste caso específico do vindouro governo petista, "retirar da gaveta" CPIs em relação aos desmandos de Bolsonaro e sua gangue, e dar início a outras CPIs. Não existe mágica tanto quanto não existe democracia em que se concilie com violadores da lei, usurpadores do Estado. Sem justiça, não há paz.

E no caso particular do Brasil, urge reforma política há muito, outro componente indispensável se se quer realmente levar a sério a pacificação do País - inviável se o partido no poder nao pratica política decente mas a banaliza, agindo como todos os outros com base no cínico argumento "política é assim mesmo", quando se trata de justificar suas contraditórias traquinagens.

Observando superficialmente a história constatamos facilmente que, em inúmeros casos, oportunistas, vendilhões de ilusões, golpistas e corruptos em geral jogam indiscriminadamente gasolina sobre o fogo em campanhas políticas ou na derrubada de governos democraticamente eleitos, para assumir o poder palrando "pacificação".

Engodo eufemístico para abafar toda e qualquer oposição, política e social, em muitos casos abraçando cinicamente o outrora "mortal inimigo" isentando-o de prestar contas à justiça. Tudo isso para manter-se no poder sob a escusa de, haja eufemismo no cinico dicionário da patologia do poder, "governabilidade" - eles sim, em paz no poder, enquanto o outro lado usufrui de impunidade. As multidões, vítimas do Estado corrupto, discriminador e excludente por natuteza? Ao "deus-dará", como sempre. Afinal, "ele" precisa governar: o governo como fim, não como meio. Poder personalista no pior sentido maquiavélico, indisfarçável ainda que mal moqueado detrás de enxurrada de precários eufemismos.

Este tipo de "pacificação", via de regra, não pacifica nada nem ninguém, classe política, instituições democráticas e nem menos quem mais importa, a sociedade civil. Pelo contrário: a curto prazo apenas agrava crises. Exemplos mais próximos disso são Michel Temer (2016-2018) e, na Bolívia, Jeanine Áñez (2019-2020).

O líder petista receia seriamente que não cumprirá o mandato em 2028, seja por impedimento parlamentar ou mesmo por golpe de Estado. Tivesse ele realizado campanha com discursos mais sóbrios, ocupando-se menos do confronto e mais de promover debate entre a sociedade apontando à importância do que realmente tem poder pacificador, isto é, políticas sociais, o Estado de Bem-Estar Social com democracia participativa e afirmação judicial urgentes nestes tempos, certamente hoje se sentiria menos refém dos fantasmas de Brasília e poderia contar com apoio popular mais sólido. Mas Inácio da Silva e seu marketing político não quiseram assim.

O movimento bolsonarista é indiscutivelmente inimigo da pacificação do País. Outro obstáculo, o petista tem sido inimigo de si mesmo: o "gênio politico" e seu marketing eleitoral, na hora da ferrenha briga pelo poder, esqueceram-se de que haveria amanhã no Brasil.

Diante disso tudo, a maior probabilidade é que haja a "pacificação" que mais interessa a Inácio da Silva agora, fazer com que a Justiça perdoe Bolsonaro e os bolsonaristas pelos inúmeros abusos de modo que o petista blinde-se no poder, que a que o Brasil mais necessita: paz social, longo processo apenas possivel com decência politica e justiça.

Democracia Salva?

 

"Em nossa época atual, o discurso e a escrita política consistem, em grande parte, na defesa do indefensável"

(George Orwell)

 

Não existe sequer uma alma na face da Terra capaz de apontar um único projeto político minimamente sólido sobretudo no campo da economia, do então candidato presidencial petista neste ano. Até porque se houvesse projetos de governo realmente garantes da democracia, hoje e desde a campanha o presidente eleito não se permitiria aliar-se a bolsonaristas incluindo a forte cogitação de um deles, o fanático lider do agronegócio Nilson Leitão ao Ministério da Agricultura.

Eis que José Múcio (PTB), ex-deputado pela Arena, partido da ditadura militar, personagem ao melhor gosto da alta cúpula militar bolsonarista inclusive do vice-presidente Hamilton Mourão, defensor da ditadura com suas torturas e assassinatos, será ministro da Defesa do governo de Inácio da Silva. "A tutela militar venceu de novo", disse sobre isso Jose Genoíno, ex-presidente do PT, ex-deputado federal e ex-braço direito do próprio Inácio da Silva.

"Na prática, Lula entregou a pasta aos militares", escreveu recentemente o jornalista Carlos Tautz. E arescentou:

Lula praticou mais uma vez a atávica mania brasileira da conciliação subserviente, e que o novo presidente nada quis aprender
com a anistia concedida em 1979 a torturadores e generais ladrões. (...) Lula está alimentando o monstro. Permite-lhe crescer em
autoridade, mesmo após o assalto generalizado aos cofres públicos, em especial o da Saúde, como provou a CPI da COVID-19.


Em 14 de dezembro de 2010 a Orgnização dos Estados Americanos (OEA), através de seu órgão jurídico, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), condenou o Estado brasileiro por não investigar os crimes da ditadura entre 1972 e 1975 em relação ao desaparecimento de 70 pessoas na região do Araguaia, e considerou inaceitável a concessão de anistia em 1979 aos ditadores militares, perpetradores de crimes contra a humanidade.

A Lei de Anistia vai na contramão da região: paises vizinhos ao Brasil julgaram e condenaram duramente seus ditadores. Advertiu, então, a OEA ao Estado brasileiro:

As disposições da Lei de Anistia que impedem a investigação e sanção de graves violações aos direitos humanos são incompatíveis
com a Convenção Americana, carecem de efeitos jurídicos e não podem seguir representando obstáculo para a investigação dos
fatos do presente caso, nem para a identificação e punição dos responsáveis, e tampouco podem ter igual ou semelhante impacto
a respeito de outros casos de graves violações aos direitos humanos consagrados na Convenção Americana ocorridos no Brasil.


Em março de 2012, o Brasil foi também denunciado pelo mesmo órgão, por não investigar o assassinato o jornalista Vladimir Herzog, pelo qual o Estado pode vir a ser punido.

Enquanto nos países vizinhos é inimaginável que um militar seja parte da politica, indo além até do surrealismo que ex-membro dos governos ditatoriais integre algum governo sul-americano hoje, no Brasil o senhor Luiz Inácio assumirá seu terceiro mandato presidencial, cinco do PT no governo federal contando as duas administrações de Dilma Russeff, e o País continua ocupando as últimas posições em direitos humanos em uma região já frágil neste quesito.

O "Gigante Sul-Americano" ainda digno, em pleno quarto do século XXI, de avertências dos órgãos internacionais voltados a este tema. Celebrar o quê, agora? Múcio anula qualquer esperança, já remotissima, de sequer recontar a historia da ditadura militar brasileira para nem considerar investiga-lá, julga-lá e condenar os ditadores: seria demais, em se tratando do velho Brasil.

O único, claro projeto petista na campanha era ganhar a eleição, é garantir a continuidade do sufrágio universal no futuro.

Vejamos a seguir o desenrolar de uma das promessas de campanha do petista especificamente para a área da saúde, terminar com a fila do Sistema Único de Saúde (SUS):

Durante a transição, o governo eleito vem dando sinais de como pode atuar para cumprir a tarefa.
No planejamento estão mutirões de atendimento e a recuperação de programas.


Diferentemente do que ocorre em grande parte do mundo e mesmo em paises vizinhos, no Brasil aceita-se passiva e alegremente dar cheque em branco a politicos, especialmente os "da moda" elegendo-os sem nenhum projeto especifico de como executar promessas antes da eleição, por conseguinte sem compromisso. 

O que o então candidato petista fez acima refletindo a marca de sua campanha, neste caso prometendo "zerar a fila do SUS" para agora, já eleito, "dar sinais" de "como pode executar" esta tarefa, na linguagem popular significa jogar palavras ao vento. Mesmo em campanha seria inaceitável que desse "sinais": deveria ter sido claro e objetivo em relação a sua promessa. Mas aceita-se e defende-se ferrenhamente no Brasil, mesmo em meios de comunicação e entre especialistas, promessas do petista a exemplo desta acima, como projeto de governo.

Outro pateticamente clássico exemplo neste sentido, foi a eloquente promessa de Inácio da Silva de colocar "picanha e cerveja" na mesa do brasileiro. Bem longe de dizer como, através de planos para a área da economia que fossem além de assistência familiar de 600 reais. "Picanha e cerveja" enquanto o petista chacoalhava os braços, e milhões o aplaudiam alegremente.

Nada disso aponta à afirmação da democracia, pelo contrário: configura-se ameaça a ela. E os Bolsonaros e Trumps que vez ou outra surgem na política e ascendem ao poder são subproduto, exatamente, deste tipo de "democracia".

Não se requer estudos no campo da Ciência Politica para concluir que vitória eleitoral, tecla batida insistentemente pelo PT na campanha, não garante democracia se não houver programa que vá alem de garantir o mero sistema de realização periódica de eleições, considerando o óbvio: democracia vai muito além de sufrágio universal.

Está-se tratando aqui, outrossim, de um presidente eleito cujo partido político está dividido desde a campanha devido às escolhas do seu líder (a começar pela escolha de Geraldo Alckmin como vice). Divisão interna petista que aumenta agora, após a eleição de Luiz Inácio.

Discute-se aqui um presidente eleito que desde a campanha tenta abertamente se aliar aos outrora, em tempos nada remotos, demonizados bolsonaristas efetivando algumas "épicas" alianças neste sentido agora, em época de transição. Sem nenhum alarme, indignação necessária e natural em qualquer parte do mundo que estivesse envolvida em um contrassenso (para dizer o mínimo) como este.


Leia: Nilson Leitão Ministro da Agricultura Seria Repetição Trágica de Lula na Questão Ambiental


Não é o caso do Brasil. Escassas análises críticas têm sido encontradas. Mal se analisa nestes tempos. As divisões dentro do PT tampouco têm sido minimamente divulgadas. Poucos sabem que este conflito existe desde a campanha, intensificando-se nestes dias.

O tal sonho realizado por Lula em 30 de outubro o colocou em uma colorida bolha que o blinda, e essas emotivas bolhas sempre estouram, mais cedo ou mais tarde como vimos em 2016.

Questiona-se aqui um preocupante cenário eleitoral em que predomina a rejeição aos candidatos, não a escolha baseada na preferência e confiança. E os indicadores são graves.

Está havendo um retrocesso sutil em afirmar a anti-democrática ideia de que democracia resume-se ao sufrágio eleitoral a cada punhado de anos, uma economia financeirizada e concentradora de renda nas mãos do ínfimo topo de cima, o um por cento dono do poder levando a um afogamento cada vez maior da implementação e até de um debate sobre políticas sociais consistentes, que modifiquem essa estrutura perversa brasileira que produziu Jair Bolsonaro - e seguirá produzindo, assim como estão as coisas, outros Bolsonaros na política.

Bolsonaro não é um fator isolado na politica, que apareceu devido a um fenômeno sobrenatural possível de ser vencido nas urnas como traz, implicitamente, a ideia de "Primavera Democrática" no País atualmente. Aí está a nova composição parlamentar para evidenciar este fato (um tanto esquecido nas análises Brasil e mundo afora), a quem ainda tem alguma dúvida. Nem o "fenômeno" bolsonarista, movimento enraizado na política e na sociedade brasileiras [por mais dura que seja essa realidade, e há muitos (ir)responsáveis por essa ascensão também à esquerda], será ultrapassado através de uma "mexidinha" na política por mais acertada que seja em certos casos.

Muito antes da eleição de um Parlamento altamente reacionário em outubro deste ano, o mais acentuado neste sentido desde a tal "redemocratização" em 1985, o candidato petista recusou este debate. O progressismo está cada vez mais "neoliberalizado". O sistema o está tornando obsoleto, e ele nao o é.

E não se está, aqui, prevendo nenhuma revolução social e política mas apenas uma reforma dentro do capitalismo, um Estado de Bem-Estar Social com democracia participativa: já esta demais à nação geral, algo sumariamente rejeitado não apenas pelos velhos aiatolás do mercado de sempre, mas inclusive por setores que se dizem progressistas hoje em dia quando se fala no próximo governo do PT. Somos, estes poucos, os "radicais" ou, se eles estiverem de muito bom humor, "sonhadores", portadores de "utopias". Política com um pouco que seja de ética e coerência? Outro palavrão, assunto proibido nestes sombrios dias brasileiros em que "política é assim mesmo". Eis nossa "democracia". A qual poucos "utópicos" seres ousam questionar.

A realidade é clara e simples: a democracia brasileira não está salva com a vitória presidencial do PT porque o violento movimento bolsonarista não será derrotado através revés eleitorial - e nem houve total revés eleitoral deste setor, longe disso: são maioria ressonante no Parlamento após as eleições de outubro, como nunca antes. A democracia brasileira não está salva porque o PT não possui valores morais suficientes historicamente, nem vontade política agora para realizar as ações necessárias a fim de se resgatar a democracia brasileira, processo que levaria anos. A democracia brasileira não está salva porque o brasileiro continua não acreditando na classe política, de todos os lados. Porque democracia vai muito além de pleito eleitorai a cada punhado de anos. Chega de ilusão.

A história nunca tarda em se vingar de orgias políticas e jornalísticas desta baixa natureza. O tempo que ninguém pode deter mostrará isso, com peculiar implacabilidade.

Author`s name Edu Montesanti