República dos dossiês e dos dóceis subagentes da CIA

por Fernando Soares Campos (*)

O Dossiê Cayman (**) foi um documento falso (fake doc), elaborado para chantagear candidatos do PSDB nas eleições de 1998. Tudo começou com a compra da empresa CH, J&T, instalada nas Bahamas, uma firma de propriedade do advogado norte-americano Robert Allen Junior. Era um escritório de advocacia que administrava contas offshore de seus clientes. 

Os compradores da empresa foram os empresários brasileiros Ney Lemos dos Santos, João Roberto Barusco, Honor Rodrigues da Silva e Cláudia Rivieri. O valor da transação ficou em torno de 3 mil dólares. O objetivo da aquisição de uma empresa praticamente abandonada pelos seus criadores num paraíso fiscal tornou-se evidente quando tomamos conhecimento de que os compradores, revirando os seus arquivos, montaram o enganoso documento que ficou conhecido como Dossiê Cayman, contendo "informações" de que os candidatos tucanos que participavam das eleições de 1998 teriam milhões de dólares depositados em paraísos fiscais caribenhos, contas essas supostamente administradas pela CH, J&T.

No tal "documento", os falsificadores colaram cópia da assinatura oficial de Sérgio Motta, ministro das Comunicações no governo FHC, e de um sócio fictício chamado Ray Terence. Insistiram e, finalmente, venderam a "muamba" a Leopoldo Collor e Luiz Cláudio Ferraz da Silva, amigo da família Collor, que provavelmente pretendia vingar-se da tucanada que teria votado a favor do impeachment de Fernando Collor. Outro suposto comprador foi Paulo Maluf (PP), ex-prefeito de São Paulo. Honor Rodrigues da Silva, estelionatário que atuou como vendedor do dossiê, foi preso no México.

Lula e o Dossiê Cayman

Sabe-se que, no pleito eleitoral de 1998, Lula era o principal adversário do tucano FHC, que, naquele momento, tentava reeleição à Presidência da República. Lula rejeitou a oferta do "atravessador" de dossiê, não aceitou participar de tamanha torpeza. O uso daquele instrumento, que não oferecia nenhuma garantia de que seu conteúdo fosse verdadeiro, configurar-se-ia como um ato de deslealdade em relação ao seu adversário, uma indignidade, e a sua aceitação e divulgação exigiria comprovação de autenticidade avalizada por perito credenciado. Lula deixou de lado aquela tentação dos vendedores e preferiu continuar sua campanha tendo como plataforma eleitoral a defesa dos direitos trabalhistas e o apoio às lutas sociais, tudo sob o lema "Trabalho, Terra e Liberdade". 

Sobre a atitude de Lula no caso Dossiê Cayman, em artigo intitulado "Primeira Leitura: partidos optarão por denuncismo na corrida eleitoral", publicado no portal Consultor Jurídico (Conjur) em 2002, o autor destaca o seguinte fato: "Lembremos, por comparação, como se comportou o petista Lula em 1998, quando lhe foram vender a farsa do Dossiê Cayman. Não quis nem ouvir e foi fazer política. Lula é o menos “estudado” dos candidatos. Mas tem uma sabedoria política forjada no campo democrático”.

Sérgio Moro e Harvard Law School

Em 1996, teve início a carreira de Sérgio Moro como magistrado, na condição de juiz substituto, em Curitiba. Naquele mesmo ano, ele passou a lecionar na Universidade Federal do Paraná.

Depois de 22 anos exercendo o cargo de juiz de direito, tendo cumprido a missão (missão, sim) de prender Luís Inácio Lula da Silva, com o propósito de tirá-lo da disputa eleitoral para a Presidência da República em 2018, favorecendo, assim, a candidatura de Jair Bolsonaro, Moro acabou abandonando a magistratura para ser nomeado ministro da Justiça do governo Bolsonaro, com a promessa de vir a ser recompensado pelo seu trabalho sujo com o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal.

Em 1998, Moro assumiu cargo de juiz titular em Cascavel (PR), onde fixou residência. Foi exatamente naquele ano que ele participou do Programa de Instrução de Advogados da Harvard Law School. Daí, foi convidado a participar de programas de estudos sobre lavagem de dinheiro, sob o patrocínio do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

Em 2012, Moro foi auxiliar da ministra  Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, no caso do Escândalo do Mensalão. Essa foi a sua oportunidade de acompanhar o desenvolvimento do processo em que o petista José Dirceu, um dos réus, foi condenado sem prova da acusação que Roberto Jefferson lhe imputara. “Não tenho prova cabal contra Dirceu, mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite.” Essa foi uma das mais importantes lições que a ministra Rosa Weber deu ao seu auxiliar, o juiz Moro, que, com esse mesmo “fundamento infundado”, julgou e condenou o ex-presidente Lula no caso “Triplex do Guarujá”, em 2017, atendendo denúncia do Ministério Público Federal, representado pelo procurador Deltan Dallagnol, que havia “fundamentado” a denúncia de maneira semelhante àquela em que a ministra Rosa condenou Dirceu. Dallagnol, tendo concluído que naquele processo não havia provas contra o ex-presidente Lula, alegou que, em foro íntimo, ele tinha “convicção” de que o ex-presidente da República teria sido o “comandante” dos esquemas de corrupção na Petrobrás, falcatruas que vinham sendo aplicadas contra a empresa estatal desde governos anteriores aos petistas, corrupção denunciada e apurada no governo Dilma, que determinou a exoneração de Paulo Roberto Costa, diretor de abastecimento, Renato Duque, diretor de engenharia e Jorge Zelada, imiscuídos nos esquemas de corrupção, e encaminhou os casos à Justiça. Porém, ao ser deflagrada a Operação Lava Jato, os acusados foram apresentados à população, pela imprensa empresarial, oligopolizada, notoriamente antipetista, como se os denunciados tivessem sido “capturados” pela Lava Jato.

Deltan Dallagnol formou-se em direito pela Universidade Federal do Paraná em 2002 e tornou-se mestre em direito pela Harvard Law School em 2013.

Muitas são as armadilhas das quais a CIA se utiliza para aliciar estudantes e militares estrangeiros que possam atuar como seus colaboradores. O propósito é convencê-los a operar em seus países de origem como subagentes daquela agência de espionagem, tornando-se traidores de seu povo, colaboradores nos processos de cometimento de crimes de lesa-pátria. Os ambientes preferidos para assediar os mais vulneráveis estudantes e militares estrangeiros, fazendo deles subagentes da CIA, são as universidades dos EUA e a antiga Escola das Américas. A atuação da CIA nesse sentido envolve praticamente toda a comunidade universitária norte-americana e o Departamento de Estado dos Estados Unidos. Para a realização de suas escusas atividades, as universidades mais visadas são Harvard e Yale.

Escola das Américas, o outro reduto de atuação da CIA

Descrição da Escola das Américas na Wikipédia trata de seus supostos objetivos nos seguintes termos: A Escola das Américas (School of the Americas, em inglês) é um instituto do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, fundado em 1946. Em 1961, seu objetivo oficial passou a ser o de ensinar a "formação de contra insurgência anticomunista".

A Escola treinou vários ditadores latino-americanos, gerações de seus militares e, durante os anos 1980, incluiu o uso de tortura em seu currículo.

Em 2001 foi renomeada para Western Hemisphere Institute for Security Cooperation (WHINSEC). (Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação em Segurança, em português).

A instituição é mantida pelos Estados Unidos e, entre outros, oficialmente ministra cursos sobre assuntos militares a oficiais de outros países.

Atualmente situada em Fort Benning, Columbus, Geórgia, a escola esteve de 1946 a 1984 situada no Panamá, onde se graduaram mais de 60 mil militares e policiais de cerca de 23 países da América Latina, alguns deles de especial relevância pelos seus crimes contra a humanidade, como os generais Leopoldo Fortunato Galtieri e Manuel Noriega.

Assim, podemos imaginar quantos brasileiros, civis e militares, atendidos nessas instituições regressaram ao nosso País na condição de subagentes dos sistemas de espionagem ianque, deixando lá nos States, no mais top secret arquivo da CIA, dossiês que tratam de seus pequenos “pecados”, cometidos, em geral, no âmbito de sua sexualidade, com fotos e vídeos que fariam muito sucesso em sites pornô. Outras transgressões à lei são anexadas à pasta do entreguista, principalmente relatos das propinas que o subagente “cucaracha” (no conceito dos gringos) teria recebido com a venda de sentenças e outras falcatruas.

(*) Fernando Soares Campos é autor de "Saudades do Apocalipse - 8 contos e um esquete", CBJE, Câmara Brasileira de Jovens Escritores, Rio de Janeiro, 2003; "Fronteiras da Realidade - contos para meditar e rir... ou chorar", Chiado Editora, Portugal, 2018; e  "Adeildo Nepomuceno Marques: um carismático líder sertanejo" (em parceria com Sérgio Soares de Campos), Grafmarques, Maceió, AL, 2022.  
(**) Saiba mais sobre o dossiê Cayman em Folha Online - 27/05/2003

https://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u49472.shtml

 

 

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