Reconstrução democrática

Adilson Roberto Gonçalves

As mais recentes pesquisas de intenção de voto mostram que é predominante a opção pela reconstrução democrática no país. Por outro lado, a ameaça de um autogolpe governamental aumenta de intensidade na mesma proporção.

Por mais otimistas que sejam os editoriais pregando a necessidade perene da democracia, não está afastada a possibilidade de golpe, baseado em mentiras, tal qual foi o de 1964, sem a necessidade de apoio da maioria da população, restando uma pantomima daquele período. Bastou ser propalada uma ameaça comunista nunca existente e a “defesa da pátria e da família” para que os militares, em conluio com parte significativa do poder econômico e da imprensa, fizessem o que fizeram. Os atores hoje são um pouco diferentes, mas o enredo não mudou muito. Daí a premente necessidade de não se votar no que está aí, pois o golpe está em curso.

Os índices de desaprovação do governo estão em todos os segmentos sociais, não apenas naqueles que mais diretamente sofrem os efeitos da economia. A pequena elevação da aceitação dentre os mais ricos apenas indica que eles dependem menos de políticas públicas e não se importam em promover um país menos desigual. Fazem parte da fração (ou facção?) que ainda dá apoio ao despresidente de nosso país. No entanto, a posse do novo presidente se dará somente daqui a cinco meses e o atual nível de desemprego e a economia em frangalhos requerem um presidente que trabalhe, impossibilidade atual. Não há surpresa alguma em relação à vagabundagem do despresidente, ainda que parte da mídia não consiga ver a diferença entre estadista e oportunista na avaliação que fazem dos que lideram as intenções de voto.

Datafolha

O mais recente Datafolha também revela que os eleitores dos demais candidatos já têm uma segunda opção definida entre Lula e Bolsonaro no segundo turno, caso haja, uma vez que o total de não voto (brancos, nulos e indecisos) é praticamente o mesmo em relação ao primeiro turno (entre 9 e 10%). Ou seja, 60% dos eleitores de Ciro Gomes, Simone Tebet e demais postulantes vão para Lula e o restante para o despresidente, mostrando a fragilidade ou inexistência de terceira via sólida. A democracia se reconstruirá, no atual cenário, com a volta do ex-presidente. Destaco que a estratégia de Ciro é ser mais um candidato antipetista do que um candidato da esquerda. Porém, a migração dos votos de Ciro para Lula no segundo turno mostra que há um enorme descompasso entre o candidato pedetista e seus eleitores.

Assim, Simone Tebet parece estar sendo rifada no MDB com foi João Dória no PSDB. O roteiro é o mesmo, com aceitação massiva dos correligionários para ficar bem na foto, mas articulações feitas nos bastidores para seguir outro caminho. Uma vez que não existe terceira via, a senadora que se preocupe com sua reeleição, pois os caciques de seu partido já estão com as candidaturas majoritárias. Cabe um parêntese para relembrar que Dória foi e é um oportunista, pois vê a vida pública como uma atividade profissional em que possa ter o que mais almeja sua natureza neoliberal: o lucro. Seu libelo de dois meses atrás intitulado “Não desisti do Brasil” não convenceu ninguém. Também não nos esqueceremos de que chegou ao governo paulista com o Bolsodoria e que planejou a privatização dos institutos de pesquisa, Butantan aí incluído; somente voltou atrás porque viu, novamente, uma oportunidade de contraponto com o governo federal ao investir nas vacinas.

Efeito Alckmin

Por fim, o “Efeito Alckmin”, rótulo apresentado por Maurício Thuswohl na revista CartaCapital, revela que todas as articulações modernas efetivas e com chances de vitória são, na verdade, o resgate de um passado democrático que se diferencia da barbárie neofascista conduzida pelo despresidente e seus asseclas. Precisamos colocar os interlocutores da social-democracia junto aos progressistas, por mais inusitado que seja, como Marcelo Freixo aliado a César Maia no Rio de Janeiro, para a reconstrução dos alicerces socioeconômicos que foram pulverizados nos últimos quatro anos. Vencida a árdua etapa, poderemos repensar um país. Permitindo-me o trocadilho científico, talvez o “alkimismo” seja um rótulo adequado para tais amálgamas.

 

Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador da Unesp, membro da Academia de Letras de Lorena, da Academia Campineira de Letras e Artes, do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas e do Instituto de Estudos Valeparaibanos.        

 

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