Author`s name Freitas Jolivaldo

A carta e as doideiras

Jolivaldo Freitas

No Brasil parece que estamos num eterno Déjà-vu. Se a pessoa não tiver juízo certo e nervos de aço pode passar a acreditar que está no looping eterno e daí vai às raias da loucura. Tantos anos depois da queda dos militares do poder, depois de anos e anos de luta e sacrifícios de parcela da sociedade e dos políticos sérios para conter a ditadura e seus males, ainda tem quem acredite que militar no poder é solução para o Brasil. Solução contra a violência e contra os despautérios promovidos por Lula, coisa que a Lava jato já mostrou e não estou com vontade de dissertar de novo por que todo mundo já sabe, inclusive os livros de história mais atualizados. Se não atualizaram vou escrever um livro de histórias com as “novidades” de quinze anos para cá.

Mas não é que a velha escola de Direito lá do Largo de São Francisco, em São Paulo, voltou à baila depois que criaram m a Carta aos Brasileiros? A primeira foi lançada em 1977, se não me engano, tempo do presidente-general Geisel. Na época, leio nos jornais de hoje, os arapongas da ditadura militar tentaram desqualificar a primeira “Carta aos Brasileiros”. Um dos relatórios produzidos sobre o evento, uma “Apreciação Sumária” feita em 12 de agosto daquele ano por analistas do Serviço Nacional de Informações (SNI), ressalta que poucos docentes importantes da escola assinaram o manifesto.

Segundo a reportagem lida, no texto, os agentes atacam especialmente o professor Goffredo da Silva Telles, apontado como redator da carta. O documento dos juristas, pediu o fim do regime autoritário pós-1964 e a redemocratização do País. Agora, lá no dia 11 de agosto, aniversário da criação dos cursos jurídicos no Brasil, será lida na mesma faculdade uma nova carta. Desta vez, o objetivo será defender as urnas eletrônicas e o respeito ao resultado das eleições. Mais de 500 mil pessoas já a assinaram.

E, mesmo sem ler ou saber, quem contesta a carta que defende as urnas eletrônicas e a democracia é o antidemocrata presidente Jair Bolsonaro (PL), candidato à reeleição. Chamou de cartinha, mas via-se claramente que o mandatário escolhido por boa parte dos eleitores que estavam irados com as atitudes de Lula e seus amigos e os do seu grupo petista - que nada sabiam, nada viam, mas se locupletava -, se encontra incomodado com o movimento, que congregou juristas, empresários, sindicalistas e cidadãos comuns. O seu tom de deboche nas mídias sociais mosra que o homem é um desarvorado. Escreveu ele: “Por meio desta, manifesto que sou a favor da democracia”. Tá danado.

Está na reportagem que lí que segundo os signatários da atual “Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito” que era necessário fazer um documento para ser lido de novo e chamar a atenção da sociedade. Está certo.

Com relação ao SNI-Serviço Nacional de Informação, que era muito mal informado, à época da primeira carta, disse: “Registre-se, finalmente, que os participantes à reunião da leitura da CARTA AOS BRASILEIROS, quase sem exceção, eram elementos liberais e de esquerda, muito conhecidos por seu pensamento antirrevolucionário”. O relatório, entretanto, termina por reconhecer a importância do manifesto. Observe o que enfatiza: “Todavia, o ato representou mais um significativo desdobramento da campanha contestatória ao regime vigente ora em desenvolvimento no País.” Agora analise a postagem de Bolsonaro quando fala em democracia. Veja se não parece com os documentos do SNI que sempre traziam no rodapé um carimbo que dizia: “A Revolução de 64 é irreversível e consolidará a democracia no Brasil”. Parece até que a democracia é massa maleável.  Ô Brasil! Ô deuses!

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Escritor e jornalista. Email: [email protected]

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