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O brasileiro é cordial ou simplesmente cordeiro?

por Rafael Tramm

Por ocasião do golpe de Estado deflagrado no dia 1º de abril de 1964, fui preso por panfletar um documento contra aquele ato ilegal, inconstitucional, violentamente agressivo, que destituiu o presidente João Goulart (o Jango). Este, vindo da condição de vice-presidente, havia assumido a Presidência da República, em vista da renúncia do titular do cargo: o presidente Jânio Quadros. Dois meses depois, fui solto, porém, como eu continuava manifestando a mesma opinião de que aquilo não era uma "revolução”, como queriam os militares e a mídia que os apoiava, mas, sim, um golpe, no dia seguinte fui preso outra vez, por mais uns meses. 

Falta de atitude

Embora eu seja, por índole, uma pessoa reconhecidamente pacífica, recriminei a falta de atitude de nosso povo, que não reagiu àquele golpe brutal contra figuras tão conciliadoras quanto os ex-presidentes Juscelino e Jango. O primeiro havia anistiado golpistas que protagonizaram duas tentativas de golpe a mão armada contra seu governo, e o segundo, por duas vezes, abriu mão dos poderes que lhe foram concedidos pelo povo, a fim de evitar derramamento de sangue de brasileiros. 

Um golpe encabeçado pelo general Franco, na Espanha, com características idênticas ao que foi praticado contra o presidente Jango, levou à morte aproximadamente um milhão de pessoas na Guerra Civil Espanhola, que foi o preâmbulo da II Guerra Mundial e o cenário em que os pilotos da Alemanha Nazista, com aprovação do próprio tirano espanhol, exercitaram, covardemente (como é próprio de nazifascistas) técnicas de destruição sobre a pequena aldeia espanhola de Guernica. No auge do conflito mundial, os nazistas invadiram a Rússia e praticaram, em uma escala bem maior, as mesmas técnicas de bombardeio aéreo que exercitaram contra o povo indefeso de Guernica. 

Diante desse quadro histórico, podemos entender que o povo brasileiro vai além da "cordialidade" tratada por Sérgio Buarque em "Raízes do Brasil". Mais que "cordial", somos "cordeiros". 

Ucrânia participou na campanha de Iraque

Quando o presidente norte-americano Bush Jr., à revelia das Nações Unidas, apoiado pela OTAN e com participação da Ucrânia nas forças de ocupação, realizou a criminosa invasão do Iraque, localizado a muitas milhas de distância do território norte-americano, com amplo apoio desta mesma imprensa que hoje condena a intervenção russa na vizinha Ucrânia para deter a expansão da OTAN em direção ao território da Rússia, comentei ironicamente que Bush Jr. escolheu o alvo errado, detendo o poder suficiente para evitar toda aquela tragédia de mortes e destruição. Se o objetivo dos ianques era saquear a principal riqueza do Iraque, o petróleo, nesse caso, poderiam optar por invadir o Brasil. Além de não haver nenhuma reação significativa, muitos ainda aplaudiriam afirmando: “Agora, com os americanos, este é um país que vai pra frente”.

Na verdade, essa tendência que determinados presidentes brasileiros têm de não convocar a Nação para a luta, o que ocorre desde Vargas, tendo este optado pelo suicídio em vez do enfrentamento bélico, reflete a própria natureza do nosso povo: são milhões, nos estádios de futebol, no carnaval e nos bares da vida, realizando o expurgo de seus medos, culpas e frustrações, por meio de teatrais explosões purgativas e, aparentemente, "purificadoras".

Vejamos o caso do Lula: Quando no governo, teve relações muito boas com os presidentes Hugo Chávez, Bush Jr. e Obama, sendo que os três se odiavam. Vários anos após ter concluído seus dois mandatos de presidente, com um alto grau de aprovação, e ter eleito sua sucessora, gozando de um grande prestígio internacional, foi injustamente preso (para não ser outra vez eleito), passando por tudo isso com aquela mesma “brasilidade” característica daqueles ex-presidentes amados pelo povo brasileiro que o antecederam. Um líder com a expressividade de Lula, num país em que o povo tenha espírito aguerrido de verdade, Lula teria sido resgatado da prisão e, nesse país, se desenrolaria uma guerra civil bem definida como uma luta de classes.

Num bate-papo com um norte-americano, tratando do tremendo ódio que havia motivado duas dezenas de jovens árabes a sequestrar três aeronaves norte-americanas e ir ao encontro da morte, somente para golpear dois símbolos de poder norte-americano (as Torres Gêmeas e o Pentágono), ele me disse: “Por mais que sejamos militarmente fortes, não temos garantia de nada. Melhor é ser como o Brasil: não ser odiado, não ter inimigos”.

Em apoio a essa “brasilidade” nós poderíamos acrescentar que, por mais justas que sejam as guerras, as mesmas constituem uma situação que, como alguém já disse “jovens que não se conhecem e não se odeiam, se matam a mando de velhos que se conhecem e se odeiam, mas não se matam”. 

(*)Rafael Tramm é tradutor, presidente da União Cultural pela Amizade dos Povos e coordenador do Núcleo PT de Vila Buarque.

 

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