Author`s name Timothy Bancroft-Hinchey

Depois de 500 anos de luta e resistência, o povo Xucuru continua sofrendo perseguições

Depois de 500 anos de luta e resistência, o povo Xucuru continua sofrendo perseguições

 

E diga ao povo que avance!

Wagner Antônio França*

Desde a chegada dos colonizadores às terras que viriam a se chamar Brasil, os povos originários continuam lutando bravamente para sobreviver com dignidade e respeito diante dos constantes ataques ao seu direito de sobrevivência e de organização social e política, promovidos por parte de uma elite conservadora ou por espaços de instituições que deveriam zelar pelos direitos democráticos dos seres humanos. Um sinal da resistência desses povos é o fato de que, as últimas eleições municipais houve um aumento de 90% das candidaturas indígenas no país, e, na cidade de Pesqueira, no agreste pernambucano, houve um reflexo direto desse avanço.

 

Nesse contexto de perseguição e de resistência, a batalha do povo Xucuru, que vive na cidade Pesqueira, no agreste pernambucano, ganhou evidência e expressão nacional por ocasião das últimas eleições municipais. Mesmo eleito no primeiro turno, o Cacique Marcos, principal liderança da comunidade indígena, não conseguiu assumir o cargo devido a uma condenação sem provas e que, também, não se enquadrava na lei de ficha limpa.

Hoje com 42 anos de idade, Marcos Luidson de Araújo é o atual cacique do povo Xucuru desde os seus 25 anos. Seu pai, Francisco Assis de Araújo o Cacique Xicão, é nacionalmente reconhecido como referência na luta em defesa do direito à terra, pela soberania e autonomia dos povos indígenas e, principalmente, por liderar a retomada de território Xucuru ainda em meados da década de 1980.

O cacique Chicão é considerado o patrono dos povos indígenas do estado de Pernambuco e, por sua luta, necessariamente contundente teve de enfrentar a perseguição e grandes atritos com latifundiários da região que encomendaram o seu assassinato no dia 20 de maio de 1998, quando ainda tinha 46 anos. O líder do povo Xucuru morreu com seis tiros à queima-roupa, na frente da casa de uma irmã dele,. Os responsáveis pelo assassinato foram julgados e condenados.

 

Desde a morte do pai, o Cacique Marcos vem se empenhando para o fortalecimento, manutenção e a ampliação do trabalho desenvolvido por seu pai e por toda comunidade indígena. Uma de suas principais iniciativas é a Assembleia Xucuru, evento que acontece anualmente no território Xucuru e que já se tornou um dos maiores e mais representativos eventos no calendário de luta dos movimentos sociais do Brasil. Como fruto dessa ampla organização o líder Xucuru conseguiu ao lado do seu povo duas grandes vitórias importantes e simbólicas para a luta dos povos indígenas: a condenação do Estado Brasileiro na Corte Interamericana de Direitos Humanos e a vitória como prefeito nas últimas eleições municipais.

Em 2003 foi a vez do Cacique Marquinhos sofrer uma tentativa de homicídio, da qual ele escapou, mas com ferimentos graves. Esse ato de violência que deixou também dois indígenas mortos provocou uma onda de indignação na sociedade que, de forma espontânea, reagiu também de forma violentamente contra aquele episódio absurdo de duas jovens lideranças mortas e do seu Cacique ferido. Neste dia, populares incendiaram a propriedade de um dos possíveis mandantes do crime.

Por causa dessa manifestação espontânea de protesto, que resultou em violência, o Cacique Marcos foi acusadoo de incitação à violência e isso serviu de  base argumentativa no processo criminal que foi aberto contra ele e que o impede de tomar posse. No entanto, a defesa alega que se trata de perseguição política porque, além da acusação não se enquadrar nos aspectos da Lei de Ficha Limpa, o Cacique também não estava presente quando ocorreram os atos de violência.

O processo de impugnação foi julgado improcedente  na primeira instância, em Pesqueira, uma vez que o crime de incêndio não se enquadra na Lei da Ficha Limpa. O Tribunal Superior Eleitoral deve decidir agora em março de 2021 se o Cacique Marcos assumirá ou não o cargo de prefeito de Pesqueira, mas diante do cenário da conjuntura nacional, de perseguição ao movimento indígena, de fragilização dos direitos conquistados pelos povos originários, de ataques ao meio ambiente, fica claro uma grande pressão por parte de latifundiários e políticos para que o Cacique Marcos não possa assumir a prefeitura.

Essa tentativa de impedir que o Cacique Marcos tome posse e exerça o seu mandato é um ataque explicitamente grave à Constituição Brasileira impedir, a partir de uma condenação sem provas, um prefeito eleito tomar posse e exercer o seu mandato. E, justamente por isso, neste momento o povo Xucuru se coloca de pé contra as injustiças e mobiliza todos os movimentos sociais e toda a sociedade para fazer valer a vontade do povo pesqueirense e garantir, assim, que o primeiro indígena eleito no Nordeste possa governar.

*Wagner Antônio França é Jornalista e Agitador Cultural